AS LIÇÕES DE FELIPE NETO PARA AS ESQUERDAS

Os mais empolgados, que viram Felipe Neto ontem no Roda Viva, devem estar pensando: pena que ele não possa ser candidato já em 2022. Felipe tem 32 anos e estará com 34. Para ser candidato a presidente, precisa ter no mínimo 35 anos.

Felipe é um fenômeno raro, porque não é apenas uma das celebridades da comunicação do século 21, o chamado influenciador digital, capaz de falar de qualquer coisa como se fosse uma autoridade em panquecas, borboletas asiáticas e em liberdades democráticas.

O youtuber consegue refletir sobre o que faz e o que os outros fazem e poderiam fazer, o que não é fácil. E o que ele fez ontem foi dar lições a todos, e também às esquerdas, sobre como tentar se reaproximar das pessoas extraviadas pelo caminho, que embarcaram na conversa da extrema direita.

Poderia ter dito que as soluções estão todas nas redes sociais. Poderia limitar a comunicação ao seu campo, olhando o próprio umbigo e resumindo tudo a Twitter, Youtube, Instagram, Facebook.

Mas Felipe surpreendeu e disse que a salvação para o combate às fake news é permitir que o maior número de pessoas tenha acesso à informação confiável.

Disse que os jornais (e falou de jornalismo várias vezes) deveriam pensar que as pessoas precisam chegar ao conteúdo de qualidade. E que cobrar por tudo, como os grandes jornais fazem no modelo egoísta do pay wall, é tão burro como não cobrar por nada. Felipe defendeu a informação dita tradicional como nem os donos de jornais a defendem mais.

Poderia ter dito, já que é agora assumidamente um cara de esquerda, que as esquerdas deveriam se dedicar mais a produzir conteúdo, nos mesmos moldes dessa imprensa convencional. Mas seria explícito demais.

As esquerdas, que se jogaram de cara na guerra do WhatsApp e do Twitter com Carluxo, que nunca construíram uma rede de produção de conteúdo, que nunca prestaram atenção à informação (de jornalismo mesmo) como parte de uma estratégia de luta, essas esquerdas não teriam levado tantas surras se tivessem ouvido os Felipes de antes do golpe.

Mas as esquerdas, que nunca fizeram nada nesse campo, achavam que venceriam atrasos, já abatidas pelo golpe, com as batalhas táticas das redes. Parte das esquerdas ainda acha que vencendo Carluxo tudo estará vencido.

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É preciso ouvir mais esses guris. Foi uma boa entrevista. Ele começou admitindo as bobagens que cometeu quando estourou aos 22 anos.

Reavaliou posições políticas, como o erro de ter apoiado o golpe. Falou de como chegou à maturidade (a democracia também precisa de alguma dose de autoajuda) e reafirmou a cobrança para que influenciadores se posicionem diante do fascismo.

Felipe Neto deixou pelo menos uma dúzia de boas frases para que jovens brasileiros da idade dele pensem na resignação que os consome, enquanto os estudantes mantêm o vigor da militância transgressora no Chile, no Uruguai, na Grécia, na Argentina, na Bolívia, na Ucrânia.

Disse que obscurantistas e negacionistas têm de ser desmascarados, que vivemos num país em que caçar gays dá voto, que a meritocracia é uma ilusão criada pelo liberalismo, que Bolsonaro é uma aberração política, que não podemos ser tolerantes com os intolerantes e que uma frente antifascista deve ser o grande projeto nacional.

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Eu sei que o presidente da UNE se chama Iago Montalvão. Mas os estudantes, que deveriam saber, não sabem. Eles sabem que a voz forte de quem pensa fora dos esquemas da juventude patrocinada pelos empresários é hoje a de Felipe Neto.

Felipe admitiu que foi um guri bobão, que foi machista e homófobo e que em algum momento se deu conta de que deveria estudar. E deu no que deu. Outros podem pensar que é por aí, que é possível deixar de ser bundão.

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Eu nunca tinha ouvido Felipe Neto, não por preconceito, mas por desinteresse e por ignorância mesmo. Fiquei impressionado.

O rapaz é a expressão das novas referências que prosperam à margem do movimento estudantil, da arte, dos partidos, dos sindicatos, da comunicação convencional.

Seria o que foram os formadores de opinião de massa do século 20? Não é bem isso, o fenômeno é outro e tornado bem mais complexo pelas circunstâncias brasileiras.

O que fazer com um cara com essa potência, para que não se evapore em dois ou três anos e não seja apenas um influenciador, mas um protagonista da democracia em tempo de desesperança diante do bolsonarismo?

Parece que, na urgência em busca de inspirações e soluções, Felipe Neto e outros que surgirem no seu rastro podem nos ajudar mais do que já ajudam.

Mas como, nessa carência que nos consome? Não podemos desistir de pensar que um dia teremos a resposta.

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