Brizola, a neta, as alianças e as circunstâncias

Em nome de todo tipo de purismos e escrúpulos, tem gente dizendo que Brizola não faria isso e aquilo. E que a neta Juliana não o representa por ser instável e incoerente com a herança do avô e do trabalhismo.

Brizola era muito mais pragmático do que se pensa. Em 2002, acolheu Ciro Gomes (candidato a presidente) e Antônio Britto (candidato ao governo do Estado), ambos pelo PPS, como seus nomes preferenciais. O PPS (Partido Popular Socialista) era o antigo PCB e depois virou Cidadania.

Eu acompanhei o início da peregrinação dele com os dois candidatos, em visitas a São Borja, Itaqui e Uruguaiana, tudo num só dia (foto). Ciro tinha forte apelo nacionalista. Mas a rejeição a Britto era grande.

Em São Borja, diante do túmulo de Getúlio, enquanto Brizola discursava, alguém gritou e saiu correndo: “É o enterro do trabalhismo”. Trabalhistas históricos não queriam saber da aliança que chamavam de Frente Trabalhista, do PPS com o PDT e o PTB.

Ciro, Britto e Brizola foram derrotados (Lula se elegeu presidente e Germano Rigotto, governador). Brizola morreria dois anos depois.

Muito antes, quando governou o Rio Grande do Sul (1959-1963), Brizola fez aliança com o PRP (Partido de Representação Popular) e, em nome desse acordo, o deputado Alberto Hoffmann foi seu secretário de Agricultura.

O PRP, com inspiração e raiz integralistas, era a expressão do ultraconservadorismo e da extrema direita, criado nos anos 40 e extinto depois do golpe de 64.

O PRP não era apenas anticomunista, era também a antecipação, com alguma sinceridade, a partir dessa base integralista, de tudo o que o bolsonarismo representa agora como mentira e farsa moralista: defesa da pátria, de Deus, da tradição, da família e da propriedade.

Plínio Salgado, o líder do integralismo e assim também maior líder direitista nacional naquela época, concorreu a presidente da República pelo PRP em 1955. Juscelino Kubitschek foi eleito e o PRP ficou em último lugar.

Quando Brizola teve Hoffmann como representante do PRP no seu secretariado no Piratini, fez um gesto que hoje seria, sem exagero, o mesmo que puxar um nome do PL para um governo de esquerda. Ele faria outras alianças com a direita.

Assim são os políticos e suas circunstâncias. Brizola faz falta, até para nos ensinar a engolir sapos com ou sem barba. Viva Brizola.

6 thoughts on “Brizola, a neta, as alianças e as circunstâncias

  1. “Brizola faz falta, até para nos ensinar a engolir sapos com ou sem barba.”

    Ihhhhh! Até o Moisés tem de “engolir” o Lula! É o que está no texto.

    Brizola cunhou a expressão “sapo barbudo” para ridicularizar o Lula – um dito muito usado a partir do chamado mensalão até as jornadas fascistas de junho de 2013.

    Brizola foi um esquerdista de direita, como o Ciro, o Aldo Rebelo e a Erika Hilton. Ele era tão direitista que se encantou com a beleza apolínia de um Fernando Collor e com ele ficou de mãos dadas quase até o fim.

    Agora, se até o Moisés precisa engolir o “sapo barbudo”, a coisa anda meio complicada para o Lula.

    1. Agora vamos aguardar o Gerson concordando com o Moisés:

      “Nhénnn, o Lola noís tem que agoentar, nhén. Eu sô muito isperto, escrevo coisas engraçada. Nhén. O Lola tá difici. Nhén”.

  2. Na posse do Olívio Dutra no Piratini, em janeiro de 1999, Brizola veio para participar do evento e falou em um palanque montado na Duque, entre o Piratini e a Assembléia. Eu não conhecia pessoalmente o Leonel Brizola e tive que dar o braço a torcer: o cara conseguiu magnetizar a assistência que veio comemorar a primeira chegada do PT ao governo do Estado. Brizola foi o fiador da virada sobre o Antônio Brito, que buscava a re-eleição e tinha ganho por pouco no primeiro turno. Impressionou a naturalidade com que se comunicou com a população presente, pois é notória a tensão entre PT e PDT aqui no Rio Grande do Sul. Brizola é polêmico, mas faz falta. Imaginem o quê estaria dizendo hoje sobre bolsonaros, zemas, …

    1. “Nhén, eu sou engraçado. Nhén, o Brizola feiz serto. Sapo barbudo. Nhén. Se o Moisés mandar eu comer merda, eu como. Nhém. Eu sou engrassadaon. Nhén.”

  3. eSSE PURISMO IDEOLÓGICO QUE TANTO SE DEFENDE HOJE É FACCIONAL E TEM MUITO ESPÍRITO QUE MOVE A EXTREMA DIREITA. DEMOCRACIA É SABER TRABALHAR COM O QUE SE TEM NO CAMPO. COMO DIZIA O VELHO ERASMO, É PRECISO DAR UM JEITO, MEU AMIGO.

  4. Entrevistado em fevereiro deste ano pelo jornalista Alex Solnik no programa ‘Cessar-fogo’, Mauro Motoryn, engenheiro e publicitário entre outras coisas, revelou uma série de episódios referentes à campanha ‘Diretas Já’, da qual foi coordenador. Homem de confiança de Ulisses Guimarães, Tancredo Neves e Franco Montoro, Motoryn esteve por trás da organização dos grandes comícios que defendiam a aprovação da Emenda Dante de Oliveira, que queria a volta de eleições diretas para presidente da República.

    Conforme relatou, foram realizados mais de 600 atos pelo país afora entre os anos de 1983 e 1984 e, apesar da forte ligação com aqueles velhos caciques do PMDB, Motoryn desmascarou uma das grandes mentiras sobre o movimento de frente ampla que uniu partidos de diferentes matizes e até hoje propalada como verdade: o mito de ‘Senhor Diretas’ atribuído a Ulisses Guimarães. ‘Lula foi a grande estrela do Diretas Já’, afirmou categoricamente durante a entrevista.

    Assim como astutamente criaram essa farsa para exaltar a figura de um velho líder pragmático, Ulisses, em detrimento do papel central de uma nova liderança ascendente, Lula, então visto como muito radical, a imprensa golpista, a direita e seus lacaios políticos, malevolamente, cuidaram de distorcer a declaração de respeito e de admiração de Brizola sobre a força do candidato petista, então em sua primeira disputa à presidência do país.

    Quem tiver a curiosidade de pesquisar a origem da expressão ‘sapo barbudo’ na internet encontrará o depoimento de Brizola Neto, que não deixa dúvida sobre a verdadeira intenção de seu avô ao dizer tais palavras logo após as urnas confirmarem os nomes de Lula e Collor para o segundo turno da eleição de 1989. Era unicamente às ‘elites’, impiedosas praticantes de um capitalismo selvagem, reacionário e vira-lata, que sua mensagem se dirigia. Seriam eles, os representantes da burguesia local golpista e retrógrada, e mais ninguém, aqueles que teriam de engolir aquele ‘sapo’ ainda mais indigesto por ser barbudo.

    Há quem, apenas por ignorância, aceita as versões difundidas pela mídia. Também há aqueles que sabem a verdade e, por pura maldade e má-fé, insistem em deturpar os fatos.

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