CLEUZA VENDIA MARIOLA NA RODOVIÁRIA

A Folha engrandece o jornalismo com a publicação de histórias de pessoas mortas pela pandemia. São relatos edificantes que a maioria delas deveria ter lido em vida.

Me comove o que alguns chamam de necrológio e outros de obituário, porque foi a primeira coisa que fiz como aprendiz de jornalista.

É a vida de uma pessoa comum, muitas vezes resumida em menos de 20 linhas. A sofrida história de Cleuza está contada na Folha, entre tantas outras, pela Ana Luiza Albuquerque. Aí está o texto, no tom certo que esses relatos devem ter.

ELA ESTAVA REFORMANDO A CASA

Ana Luiza Albuquerque

Há cerca de 10 meses, os três filhos pequenos da ambulante Cleuza Fernandes, 32, passaram a morar com a avó paterna. Isso porque a casa onde a vendedora vivia com o marido e o irmão em Rio Bonito, região metropolitana do Rio de Janeiro, era muito precária para as crianças. Segundo um parente, a mudança dos filhos foi “o dia mais triste da vida de Cleuza”.

Conhecida por vender mariolas na rodoviária, a ambulante era muito querida na cidade, que se movimentou para ajudá-la a reformar sua casa. Em janeiro, ela ganhou o material para a obra. Em fevereiro, já havia colocado o telhado e começava a mudar o piso. Cleuza estava feliz porque, com o fim da reforma, teria seus filhos de volta.

Seu plano foi interrompido no dia 17 de março, quando morreu infectada pelo novo coronavírus. Ela foi testada um dia antes de morrer e o resultado ficou pronto nesta segunda-feira (30).

No dia 8 de março, a ambulante começou a se sentir mal, com falta de ar, e foi levada pelo marido a uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Medicada, foi orientada a voltar para casa. Dois dias depois, precisou ser internada na UTI e foi colocada em coma induzido, respirando com a ajuda de aparelhos. Não resistiu e morreu uma semana depois.

Em nota, a Prefeitura de Rio Bonito disse que Cleuza sofria de doença crônica, mas não deu detalhes. Os médicos teriam afirmado à família que Cleuza enfrentava uma tuberculose.

Nas redes sociais, muitos moradores de Rio Bonito lamentaram a morte de Cleuza, que trabalhava de segunda a sábado na rodoviária, onde vendia quatro mariolas (doce de banana ou goiaba em tablete) por R$ 1. Ela era conhecida por sua simpatia e pelo bordão “toda hora sai”, em referência à quantidade de doces que vendia.

Clientes e familiares afirmam que a vendedora era muito humilde e sorridente. Com o marido desempregado, a venda das mariolas e o Bolsa Família sustentavam os filhos, duas meninas e um menino, de seis, oito e 11 anos.

Para impulsionar as vendas, um de seus clientes criou uma figurinha no whatsapp com a imagem de Cleuza. As campanhas para ajudá-la foram muitas, desde a reforma de sua casa até a doação de mariolas.

A loja onde a ambulante comprava os produtos para revender, por exemplo, conseguiu uma espécie de patrocínio com uma marca de mariolas, que aceitou repassar alguns doces para Cleuza em troca de publicidade nas mídias sociais.

Em um vídeo que circula nas redes, a vendedora segura um cartaz e pede ajuda para reformar sua casa. “Minha casa, minha filha, chove e molha tudo. Estava precisando de pessoas que me ajudassem com materiais. Sou uma menina humilde, né.”

(Evito compartilhar textos só para assinantes, porque os jornais e seus profissionais vivem do que produzem. Mas me autorizei a compartilhar esse texto sobre a vendedora Luiza Fernandes.)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Website Protected by Spam Master


9 + 2 =