COMO ENTRAR NO PARAGUAI

Se tivesse falado comigo, Ronaldinho Gaúcho teria entrado sem problemas no Paraguai. Entra-se no Paraguai apenas com a carteira de identidade. Já viajei para Peru, Paraguai, Chile, Uruguai e Argentina sem passaporte.

A identidade é aceita por países membros ou parceiros do Mercosul. No final dos anos 90, fui ao Paraguai cobrir o caos político provocado pela libertação do general Lino Oviedo, que havia sido preso por comandar uma tentativa de golpe contra o presidente Juan Carlos Wasmosy.

O país estava tensionado, com guardas espalhados pelo aeroporto. Na chegada, na imigração, apresentei a identidade e esperei o carimbo no documento de entrada.

O homem examinou, olhou para a minha cara, viu que eu tinha uns 45 anos e que na foto eu havia parado nos meus tempos de cabeludo de uns 20 e poucos.

O homem tinha o ar de funcionário rigoroso e eu senti que um problema muito antigo que finalmente iria me incomodar.

A plastificação da identidade estava corroída havia anos e um lado do plástico abria-se como uma boca de jacaré. E aquela foto dos anos 70 era maias do que um desleixo, era um deboche para uma autoridade.

O funcionário pegou a identidade com força, olhou para mim e rasgou o plástico. Meu corpo todo estremeceu. Ele atirou o plástico no balcão e me devolveu o documento desnudo com uma frase que me afrouxou minhas pernas:

– Isso não vale mais nada.

Achei que ele iria pedir o passaporte (e eu tinha, nem sei por que, o passaporte vencido numa sacola), e eu teria que entregar outro documento sem validade. Porque até a carteirinha de jornalista certamente não valia nada também.

Enquanto eu pensava em prisão, interrogatório por envolvimento na tentativa de golpe de Oviedo e na vergonhosa deportação, o homem me olhou com cara malvado, sem dizer nada, empurrou a identidade na minha direção e fez um sinal com a cabeça, para que eu seguisse em frente.

Se Ronaldinho tivesse uma identidade antiga, do tempo da Copa de 2002, quando era estrela nacional e campeão do mundo, teria passado sem problemas, mesmo que levasse um susto.

Passei quatro dias no Paraguai com uma identidade sem um pedaço num canto, perdido junto com o plástico arrancado.

É triste ser retido sob a acusação de falsificação num país estigmatizado pela produção de, digamos, réplicas variadas de todo tipo de golpe, mercadoria e documento.

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