CORRIJA-SE, GENERAL: DOM PHILLIPS FOI MORTO POR SER JORNALISTA, E NÃO COMO GAIATO

A definição como aventureiros, usada por Bolsonaro para tentar desqualificar Bruno Pereira e Dom Phillips, parecia insuperável como grosseria e crueldade. O general Hamilton Mourão conseguiu outra ainda mais cruel.

Mourão disse que Dom Phillips foi assassinado porque “entrou de gaiato nessa história”. O sentido de gaiato aqui é o mais óbvio possível, usado como definição pejorativa no Rio Grande do Sul, a terra do general e dos gaiatos fanfarrões.

O gaiato é o sujeito que, por uma mistura de excitação, ingenuidade e ignorância, é levado a se envolver em algum episódio para o qual não foi chamado. É alguém que nem sabe direito que não deveria estar onde estava.

Um gaiato pode, na definição usada por Mourão, levar um tiro no peito por estar diante de uma espingarda de caça. Os bandidos do Vale do Javari mataram Dom só porque ele estava junto com Bruno Pereira. É a tese do general.

Mourão contribui com mais uma explicação à brasileira para ações criminosas contra jornalistas assassinados em serviço. Matam gaiatos em guerras, em investigações de máfias, em ruelas onde não deveriam ter entrado, em emboscadas.

Assassinos de jornalistas geralmente ficam impunes, porque um dos argumentos usados é o mesmo do general. O jornalista estava de gaiato no lugar errado e se metia na vida de poderosos ou de mandaletes de quem tem poder.

Julian Assange é o mais célebre gaiato do momento, por ter entrado na floresta das atrocidades de guerra dos americanos. Tim Lopes foi um gaiato ao avançar no território dos traficantes da Vila Cruzeiro.

O jornalismo gaiato sempre passa dos limites, porque não aceita as cercas farpadas erguidas pela bandidagem em torno de grilagens, orçamentos secretos, ranchos de Viagra, vacinas superfaturadas e rachadinhas.

Dom Phillips somente era reconhecido como um dos grandes nomes do jornalismo britânico porque agia, conforme a definição de Mourão, quase sempre como um gaiato.

Mourão está certo de que Dom morreu pelo que classifica como “efeito colateral”. O general reduz o jornalista à condição de acompanhante sem importância de Bruno. Quando já está provado que ali a situação era inversa.

Por conhecer a região, Bruno é que acompanhava Dom na aventura gaiateira. Um jornalista no momento nobre da profissão, a hora de mergulhar na apuração, quando é preciso sair atrás do que deve ser contado, é definido como gaiato.

Não há jornalismo sem apuração, muito menos o investigativo, nessas circunstâncias, sem que os pés fiquem sujos de barro ou de sangue. Dom morreu porque estava sendo jornalista na plenitude, e não por gaiatice.

Ninguém mata um gaiato com uma arma que espalha chumbo porque, conforme outra tese do general, está armado num domingo, e domingo é o dia da bebedeira.

Até os matadores de Bruno e Dom sabem que gaiatos mesmo foram os que fracassaram na missão de proteger a Amazônia. Esses são os grandes gaiatos.

São gaiatos os que não conseguiram evitar que grileiros, contrabandistas, garimpeiros, traficantes e assassinos de índios se apoderassem da Amazônia.

Dom sabia muito bem o que fazia no Vale do Javari. E sabia também que alguns emissários do governo, em postos de comando, misturados aos verdadeiros gaiatos e perdidos em meio a boiadas e cachorradas, apenas fingem atuar como gaiatos.

5 thoughts on “CORRIJA-SE, GENERAL: DOM PHILLIPS FOI MORTO POR SER JORNALISTA, E NÃO COMO GAIATO

  1. Tem um verdadeiro gaiato nesta história toda , Moisés : o garimpo na região da Bacia do Javari. Posso afirmar , como geologo , que não existe ouro nos aluvioes daquela região. Portanto , não haveria qualquer razão para ali ter gente garimpando utilizando balsas . O que estarão escondendo, ou que atividades estarão executando estes falsos garimpeiros podem estar fazendo qualquer coisa , menos garimpando ouro. Podem , por exemplo; estar esquentando dinheiro utilizado para comprar ouro e joias no centro das grandes cidades.

  2. Mais uma jabuticaba brasileira como diria o general… Logo ele qe entrou de gaiato como vice do coiso. isto explica o balbuciar incômodo e gaguejante dele quando foi perguntado sobre as suas ações como chefe da preservação ambiental na Amzônia…
    Tá certoque cada povo tem o l[ider que merece, mas será que esta máxima vale também para vices? Como alguém assim consegue ser general? será que o Tiririca poderia ser general também? me parece que Tiririca fez muito mais como deputado que Mourão como general, com certeza foi muito mais honesto.

  3. Este senhor é o retrato da mamata. Não tem vergonha de andar por ai, a custa do dinheiro público, a dizer besteiras. Mas, ter o chefe que tem, que ironia, um capitão que foi expulso e por estas coisas da caserna, readmitido, dá nesta tragédia. E é claro, com popudos salários. Santa mediocridade.

  4. Vai tentar usar a desculpa que entrou de gaiato como vice desse governo para se eleger senador?
    Não entrem os gaúchos nessa, de gaiatos .

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