E O CPF DO GOVERNADOR?

O relato do jornalista Renato Dornelles já está na antologia da pandemia. É a história do impasse criado por uma servidora pública (a culpa não é dela) num posto de saúde de Porto Alegre.

O jornalista vai atrás do teste da Covid-19. A moça avisa que ele só terá direito ao teste se tiver o CFP da pessoa que pode estar transmitindo o contágio.

A pessoa é o governador do Estado (que ontem informou pelo Twitter que havia sido infectado), com quem Renato se encontrou essa semana no Roda Viva.

Para quem não sabe, Renato Dornelles foi repórter e editor de Zero Hora e do Diário Gaúcho, é escritor e diretor do documentário Central – O Poder das Facções no Maior Presídio do Brasil, ao lado de Tatiana Sager.

Conversei com Renatinho agora há pouco. Ele está bem. Recebeu um telefonema do governador Eduardo Leite, que quis saber como ele estava, solidarizou-se e anunciou que acionaria o que fosse possível para a realização do teste.

Até porque o próprio governador é o personagem central da confusão.

Este é o relato de Renatinho, publicado ontem à noite em seu perfil no Facebook:

Por que o coronavírus se propaga tanto?

RENATO DORNELLES

No final da tarde desta sexta-feira, tão logo o governador Eduardo Leite prudentemente comunicou, via Twitter, que seu teste para coronavírus havia dado positivo, recebi uma mensagem da apresentadora do Roda Viva, Vera Magalhães, me aconselhando a fazer o teste, apesar de todos os cuidados adotados durante o programa da última segunda-feira.

Mesmo sem sintomas, como sou de grupo de risco (diabético e hipertenso) e para não correr o risco de contaminar outras pessoas, procurei de imediato um laboratório no Pavilhão Pereira Filho, da Santa Casa, onde pagaria R$ 300 pelo teste. Embora tenha chegado ao local às 18h50min, tal laboratório, cujo horário de funcionamento é até as 19h, já estava fechado.

Fui atrás então da saúde pública, me deslocando até o Pronto Atendimento Cruzeiro do Sul, vinculado à Secretaria Municipal da Saúde. Fui encaminhado por um recepcionista para uma sala que, acredito, tenha sido montada especialmente para essa situação de pandemia.

Após cerca de uma hora de espera, em um local insalubre pelas circunstâncias, uma enfermeira, nada simpática e aparentemente contrariada com a função, me informou que eu não seria submetido ao teste, a menos que apresentasse o número do CPF da pessoa contaminada com a qual tive contato.

De nada adiantou eu argumentar que, àquela altura, não teria como obter o número do CPF do governador que, conforme anunciou já deveria estar isolado.

Em uma cidade como Porto Alegre, pelo ritmo de vida, boa parte da população deveria ser testada. Além de isto não ocorrer, alguém para saber via saúde pública se está contaminado precisa apresentar o CPF de alguém que já tenha contraído o coronavírus. Ou esperar pela manifestação dos sintomas, quando já tiver contaminado outras, durante o período assintomático.

Pode parecer brincadeira, mas aconselho a vocês a, por via das dúvidas, guardarem no bolso números de CPFs de pessoas conhecidas que já tenham contraído o vírus.

6 thoughts on “E O CPF DO GOVERNADOR?

  1. Só pode ser piada (e claro que estou levando a sério a informação) de que tem de ter-se o cpf de quem provavelmente tenha passado o contágio.

  2. Se acontecer, melhor fazer cara de paisagem e dizer: “Não tenho a menor ideia, talvez uma laranja contaminada?”… Ai, Brasil!!!

  3. Bem vindos a realidade DE nossa SAUDE publica. NADA de esttanho para quem precisa ir no esf procurar um atendimento…ir na farmacia do posto buscar o remedio receitado…
    Alguns bons PROFISsionais, mas muitos NADa simpaticos e sempre contrariados.

  4. Apresento a todos o mundo encantado da Tecnocracia! E se ele fosse pagar pelo teste? Também exigiriam CPF do contaminador?

  5. Trabalho num laboratório, e fazemos testes de COVID pelo método PCR-RT, eu vou te dizer: tá punk aguentar as atitudes do povo, viu? É claro que eu sei que é mega importante testar em caso de contato com quem testou positivo, e que o ideal era testar a população toda, 100%, MAS não é um exame de urgência urgentíssima. Foi na Santa Casa às 18:50 e não deu? Podia voltar no dia seguinte a partir das 7:30 da manhã (o expediente de sábado vai até 17:30). Que diferença ia fazer testar no final da tarde de sexta, ou no sábado de manhã? Sobre a testagem em massa, vou te dizer uma coisa: Porto Alegre tá testando prá caramba! E olha que eu nem gosto do Prefeito de lá! E sobre pedirem o CPF, adotaram esse método por que tinha gente que ia toda semana fazer teste, dizendo que teve contato com pessoal que testou positivo. Mais uma vez o Zé Povinho aprontando, fazendo com que se crie processos para validar as informações.

    1. Aqui fala um Zé Povinho…concordo que tá punk, ja em aguentar as atitudes do povo não!!
      Laboratório público ou privado, em tempos de pandemia, minímo é capacitar seus funcionarios para aguentar o “punk” da situação.
      Atender a publico não é para amadores mesmo.
      Se o cartazinho lá da repartição diz atendimento até as 19h….que tenha alguém lá para ao menos explicar q infelizmente aquele horário não pode ser feito tal procedimento.

Deixe uma resposta para ELIZANGELA WAVRICK DOS SANTOS Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Website Protected by Spam Master


7 + 9 =