E SE TRUMP ANUNCIA QUE VAI SE ENTRINCHEIRAR NA CASA BRANCA?

Não termina nem depois da contagem do último voto da eleição americana o debate sobre a decisão das redes de TV de boicotar a fala de Trump com ataques aos democratas, na quinta-feira.

Quando Trump começou a agredir não só os adversários, mas as cidades onde perdia a eleição e a própria democracia, as grandes redes tiraram do ar a transmissão ao vivo.

O debate parte de duas dúvidas básicas, entre tantas outras. Essa é a primeira: o que aconteceu é censura? Essa é a segunda: as TVs não teriam desistido de fazer jornalismo e tirado dos telespectadores o direito de decidir se queriam ou não ver e ouvir Trump?

Tem muita gente dizendo que é censura. Se for levado em conta que Trump foi bloqueado pelas TVs ABC, CBS e NBC, parece mesmo censura. Trump é o presidente da República.

Mas pode ser também uma decisão editorial. As TVs podem dizer, como todos os veículos dizem em algum momento, que não tinham interesse em divulgar aquele tipo de discurso.

O que está claro é que, para muito além das questões técnicas, o que as TVs fizeram foi uma tomada de decisão num gesto político forte. Aquele não era qualquer discurso.

É possível que a atitude, tomada ao mesmo tempo e quase em sincronia, tenha sido uma deliberação dos comandos das emissoras. Isso não é novidade.

O jornalismo americano adotou por consenso, por exemplo, que não mostraria caixões de soldados que retornavam da guerra no Iraque. São raros os casos em que os caixões de soldados mortos em guerras aparecem em imagens de TV ou fotos.

E aí entra a segunda grande questão sobre o direito dos telespectadores. As TVs não existem para seus donos. Mas podem tomar, em nome deles, decisões drásticas em momentos graves.

Quando Trump passou a mentir para atacar os democratas e as cidades onde foi derrotado, as TVs cortaram a fala para não serem usadas como veículos a serviço de mentiras. Foi uma represália contra quem ataca o jornalismo e as empresas de comunicação.

Mas jornais, rádios, TVs, sites e blogs, e não só as redes sociais, disseminam mentiras pelas vozes de mentirosos de todas as áreas. Todos os dias há alguma fonte dizendo mentiras.

A política é um jogo de mentiras. Os governantes e os empresários mentem. O mercado financeiro se sustenta de mentiras.

As pessoas comuns mentem. Jornalistas de extrema direita nunca mentiram tanto como agora.

A TV não vive, como pretende sugerir, só do que é sensato ou verdadeiro.

As TVs sabem que Trump é o mais poderoso e perigoso mentiroso do mundo.

O público deveria ter o direito de decidir se queria ou não ouvir as mentiras de Trump na quinta-feira.

Era o gesto histórico de um fascista afrontando as bases dessa que se apresenta sempre como a maior de todas as democracias.

E aqui está o dilema posto pela decisão das TVs. Com o bloqueio da transmissão, muita gente ficou sem acesso a uma informação decisiva para a compreensão da reação e dos desatinos de Trump.

Se todas as TVs e todas as mídias tivessem cortado a fala de Trump, onde as acusações que ele fazia seriam vistas ao vivo?

Essa é a questão primordial. As TVs tiraram dos seus públicos o direito de escolher se queriam ou não ver o discurso de Trump, por mais agressivo e mentiroso que fosse.

E agora a última pergunta: e se, enquanto os comentaristas pediam a palavra nos estúdios, escondendo Trump, o homem anunciasse sua decisão de não passar a presidência a Joe Biden e de resistir entrincheirado, e com armas, dentro da Casa Branca?

As TVs teriam cometido um erro devastador. Alguém pode dizer que uma declaração nesse tom seria impossível.

Com Trump, nada é impossível. Aguarde o que pode acontecer nos próximos dias. Mas não fique dependente da ABC, da CBS e da NBC.

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