ESTADOS TAMBÉM ESCONDEM AS MORTES DA PANDEMIA

Uma reportagem da Folha de S. Paulo pode ajudar a explicar os baixos números (pelo menos nas estatísticas) de casos de Covid-19 em algumas capitais. Há poucos casos, como acontece em Porto Alegre, porque os números são irreais, segundo análise da Lagom Data, na qual se sustenta o texto da Folha.

Essa é a suspeita: a manipulação de dados da pandemia, deliberada no governo federal, pode estar acontecendo também nos Estados, nem sempre de forma criminosa, mas por falhas de registro e notificação e por falta de testes.

Mortes registradas genericamente como causadas por Síndrome Respiratória Aguda podem ter sido, na verdade, provocadas pelo coronavírus. Os casos analisados são das capitais, mas refletem a realidade dos Estados.

Decidi compartilhar toda a reportagem, em nome do direito a uma informação relevante, num momento em que prospera a mentira oficial como tentativa de enganar a população.

Esta é a reportagem na íntegra:

Mortes por síndrome respiratória nas capitais chegam a quase 12 vezes as por Covid-19

Cidades que fazem poucos testes têm mais mortes com causa inespecífica

Marcelo Soares
SÃO PAULO | LAGOM DATA
Capitais que apresentam baixos índices de casos confirmados e mortes por Covid-19 têm quase 12 vezes mais mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave com causa não especificada.

A análise, feita com exclusividade para a Folha pela Lagom Data, mostra que Campo Grande, Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre tinham no final de maio os maiores números de mortes por SRAG em comparação com as vítimas da Covid-19. Na capital do Mato Grosso do Sul, havia 11,6 mortes atribuídas a causas respiratórias para cada uma causada pelo novo coronavírus.

Na outra ponta, Rio Branco, Macapá, Boa Vista e Fortaleza têm os maiores índices de mortes pela Covid-19 em relação às mortes por SRAG. Na capital do Acre, foram registradas 20 mortes pela Covid-19 para cada morte por causas respiratórias.

A razão entre mortes por SRAG e Covid-19 tem correlação estatística forte e negativa com a taxa de casos confirmados por 100 mil habitantes em cada Estado. Ou seja: quanto maior a proporção da população que se sabe ter sido contagiada pelo novo coronavírus, menor a proporção de mortes atribuídas a causas respiratórias inespecíficas. Quanto mais ampla a testagem aplicada por um sistema de saúde, mais casos pouco graves são detectados e maior tende a ser a taxa de infecções confirmadas per capita.

Em março, a Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontou pela primeira vez a possível relação entre as duas doenças, ao observar um disparo nas internações por síndrome respiratória em todo o Brasil, simultâneo à circulação mundial do novo coronavírus. A prática recomendada e geralmente adotada foi testar casos de SRAG como suspeitos de portar o vírus.

O problema com isso: não há uma padronização nacional de como a testagem é feita. Nem da frequência, nem dos tipos de testes, que têm níveis diferentes de eficiência.

Ao final de maio, apenas quatro capitais mantinham em um dígito o número de pacientes mortos pela Covid-19: Campo Grande (MS), Cuiabá (MT), Florianópolis (SC) e Palmas (TO). Todas tinham pelo menos duas vezes mais mortes atribuídas à SRAG. No caso de Campo Grande, eram 81 mortes por SRAG para 7 de Covid.

Minas Gerais exemplifica as sutilezas envolvidas nisso. Desde abril, integrantes do governo Romeu Zema têm dado entrevistas para comentar os segredos do seu sucesso no combate à pandemia que parou o planeta. Em 25 de maio, o comércio voltou abrir na capital.

Em abril, visando pontuar no índice de transparência da Covid-19 elaborado semanalmente pela Open Knowledge Brasil, Minas começou a publicar os microdados dos pacientes notificados como suspeitos, confirmados ou descartados para o novo coronavírus.

No começo de maio, análises independentes detectaram que o estado acumulava casos suspeitos do novo coronavírus que não haviam sido nem confirmados e nem descartados — ou seja, não foram testados.

No dia 13 de maio, o governo estadual deixou de publicar os dados dos suspeitos e declarou em seu boletim diário que todos aqueles pacientes sofriam de síndrome gripal inespecífica. Na mesma semana, o secretário da Saúde mineiro foi questionado sobre o tema em entrevista e declarou que a testagem servia apenas para satisfazer a curiosidade de pesquisadores.

Àquela altura, Belo Horizonte contabilizava 32 mortos. Fortaleza, com população semelhante, tinha 44 vezes mais. Sem que isso constasse do “case” de sucesso mineiro, porém, a capital àquela altura acumulava 250 vítimas da síndrome respiratória, ou oito vezes mais mortes do que a baixa taxa celebrada.

Outros estados que mantinham números curiosamente baixos, como Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso do Sul, não abriram dados de suspeitos e não entraram tão rapidamente no escrutínio.

Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, também vem dando entrevistas pelo Brasil para celebrar seu sucesso no combate à pandemia. Porto Alegre, a capital gaúcha, reabriu o comércio no final de maio porque contava com raros 38 mortos pela Covid-19. O que não entrou no cálculo gaúcho foram as 151 vítimas de síndrome respiratória.

O risco dessa estratégia é de que um governo julgue que o problema é apenas o nome da causa da morte. Testando pouco, ele pode dizer que está vencendo a Covid, mesmo que seus cidadãos estejam sendo derrotados pela síndrome respiratória.

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Este é o link para quem quer saber mais sobre a Lagom Data:

https://www.lagomdata.com.br/

5 thoughts on “ESTADOS TAMBÉM ESCONDEM AS MORTES DA PANDEMIA

  1. Estes NÚMEROS devem ser comparados com a média dos ÚLTIMOS anos. Estamos tendo um outono bastante suave o que indica menos problemas respiratórios.

  2. A população fica à mercê dos governantes. Não se sabe ao certo quantos estão morrendo; quantos testes estão sendo feitos e muito menos o número de casos.
    o certo é que aqui no rs, o número de casos aumentou ( em porto alegre o prefeito segurou o avanço da flexibilização que ocorreria nessa semana porque viu os números de casos aumentar nos hospitais) e na contramão desse aumento do número de casos, cada vez mais tem gente nas ruas.

  3. TIVÉSSEMOS um jornalismo sério aqui nos pampas, iriamos investigar , em hospitais e com familiares, se as 151 vitimas se foram testadas ou não. Mas seria perigoso para o nosso jornalismo gaudério… vá que se confirmem, o rapazinho de pelotas ficaria como?

  4. Correndo o risco de dizer bobagem por não ser da área, acho que o correto deveria ser que a pessoa foi vítima de síndrome respiratória aguda grave, agravada (ou não) por covid-19. As comorbidades não seriam o fator relevante que separa a grande maioria que apresenta sintomas leves ou não apresenta sintomas e aqueles que vão a óbito? E afinal, ninguém sabe como tratar a covid-19 mesmo: só nos mandam ficar em casa, usar máscara e lavar as mãos. Nossas queridas avós diriam o mesmo.

  5. Sera que ninguem tem tempo e coragem de fazer um levantamento do número de mortes ocorridas em Porto alegre e no estado entre os meses de março e maio dos últimos cinco anos ? Esta simples comparação dara uma ideia do provav3l número de mortes causadaa prlo Covid.

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