FALTA A CORAGEM DE UM ALBERTO FERNÁNDEZ

O governador tucano do Rio Grande do Sul, sem poder e sem força, quer se livrar das suas obrigações e passar adiante aos prefeitos a responsabilidade pela gestão das regras com as restrições contra a pandemia.

E o prefeito de Porto Alegre, na mesma linha, não tem coragem para decidir que o lockdown é a única saída para que a cidade não mergulhe no horror em agosto.

Por que os dois fraquejam? Porque não confiam na própria liderança. E se falta liderança é porque falta autoridade.

Os dois não têm o que líderes de alguns países, muito poucos, demonstraram na pandemia: coragem para correr riscos, porque sabiam que seriam respeitados.

Sem ir buscar exemplos na Europa, temos dois nomes aqui ao lado. Luis Alberto Lacalle Pou, no Uruguai, e Alberto Fernández, na Argentina.

Lacalle Pou conseguiu manter o surto sob controle apenas com orientações firmes, sem impor grandes restrições. Mas passando certeza e confiança aos uruguaios.

Fernández adotou o lockdown desde o começo da pandemia, ainda em março, e foi reconhecido mundialmente pelo êxito da sua estratégia. Os exemplos de Lacalle Pou e Fernández devem ser examinados não só pelos gaúchos.

Fernández enfrentou sempre a reação da direita, que continua a promover panelaços e carreatas, enquanto Buenos Aires tenta voltar ao normal.

O ex-presidente Maurício Macri é o líder da oposição à quarentena, com um discurso à la Bolsonaro de que controles e máscaras ferem as liberdades.

Mas Fernández impôs restrições sem medo. Foram detidos e tiveram de pagar multas e dar explicações os que saíram às ruas sem justificativas.

O presidente argentino encarou a direita e a extrema direita enfurecidas sem nunca recuar. É inimaginável que o governador gaúcho e o prefeito de Porto Alegre tentem fazer o mesmo aqui.

Tampouco Doria Júnior em São Paulo. Por acaso, todos são tucanos. São lisos, escorregadios, dissimulados e constrangidos como homens de direita que pensam ser alguma outra coisa.

Falta a eles liderança nos momentos graves. Todos vacilaram e se submeteram às pressões de prefeitos e empresários. A tentativa do governador gaúcho de se livrar da responsabilidade pela gestão dos controles sociais é pior do que a indecisão do prefeito de Porto Alegre em adotar o lockdown.

Os dois gaúchos são reféns das armadilhas da gangorra do distanciamento controlado, que criou a falsa sensação de que havia algum controle. Os dois tucanos estão gerindo desgovernos, quando tudo o que teriam para fazer hoje é cuidar da saúde coletiva.

Não há nada, em nenhuma outra área, que exija tanta atenção dos gestores no Brasil e no mundo quanto a crise provocada pela peste.

Se forem incapazes de cuidar da pandemia, os dois não terão nada mais a fazer. Vão tapar buracos? Vão catar o dinheiro de tesouros quebrados? Vão asfaltar estradas? Farão tudo o que não fizeram até agora?

O coronavírus é a desgraça que expõe incompetências e falta de legitimidade. O único consolo, se existe, é que a crise de lideranças e de comando alastrou-se por toda parte.

Os gaúchos estão no contexto de desgovernos e desatinos denunciados e potencializados pela pandemia. Bolsonaro é apenas a excrescência da incapacidade generalizada de lidar com as urgências e de provar que governa e lidera.

A peste é o aviso de um mundo sem líderes e com poucos homens com a coragem do argentino Alberto Fernández.

2 thoughts on “FALTA A CORAGEM DE UM ALBERTO FERNÁNDEZ

  1. A verdade é que toda a Humanidade foi vítima de gestores incapazes. Começou na China, quando fecharam uma cidade de 8 milhões de pessoas. Depois Itália e Espanha, quando confinaram pessoas com o vírus no auge do alastramento. E o mais grave de tudo: todos baseados em evidências científicas. Na Argentina o Alberto Fernandez proibiu todos os vôos até setembro. Com base em quê argumentação? Bola de cristal? Aqui no Sul nossos gestores mandaram trancar as pessoas em março, em pleno verão. Estes senhores não conhecem o nosso inverno? Foram competentes para achatar a curva e agora não sabem o que fazer com ela. Lockdown depois de 120 dias de confinamento? Com a velocidade de propagação de contágio crescendo? Realmente, vai melhorar a situação dos hospitais, já que as pessoas vão acabar morrendo em casa, por falta de ambulâncias. Estes nossos gestores estão com validade vencida!

  2. Você toca em um ponto vital: “”Por que os dois fraquejam? Porque não confiam na própria liderança. E se falta liderança é porque falta autoridade”. ” O único consolo, se existe, é que a crise de lideranças e de comando alastrou-se por toda parte”. Este seu texto é muito importante, pois particularmente também entendo que de há muito vivemos uma séria crise de falta de autoridade de nossas representações públicas. Estas se perderam nos descaminhos da demagogia e da DISSEMINAÇÃO do ódio por qualquer coisa. Falamos de Autoridade Pública, não de autoritarismo. Agora as coisas estão “calmas”, mas no caso de Porto Alegre, por exemplo, para a Prefeitura resolver questões administrativas, muitas vezes chamou a Brigada, quando a simples aplicação da Legislação municipal resolveria. Mas, falta mesmo Autoridade Pública.

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