IR PRA RUA OU NÃO IR, EIS A QUESTÃO

O debate agora não é mais se alguém deve ou não assinar manifestos escritos por tucanos. É se o povo deve ou não ir pra rua domingo.

O cientista político Luiz Eduardo Soares acha que não deve, porque as ruas estarão cheias de provocadores. O tom do texto dele é alarmista, inclusive com uma receita para o golpe.

Por esse argumento de que há provocadores e infiltrados ninguém mais sairia às ruas nem para comprar linha de tricô no centro de Porto Alegre, nem mesmo depois da pandemia. E não existiria quase nada de avanço histórico da democracia.

Guilherme Boulos pensa o contrário. Para Boulos, se o povo não sair, os fascistas de Bolsonaro tomarão conta das ruas como fizeram os camisas pretas de Mussolini na Itália.

É certo que Bolsonaro aposta no confronto e na repressão que justificariam a tal intervenção militar, a partir de uma faísca. Mas essa é uma ameaça capaz de imobilizar o Brasil?

Quando o Brasil deve ir às ruas? Quando Bolsonaro quiser e não houver a ameaça de infiltrados?

Abaixo, os dois artigos. O texto de Luiz Eduardo Soares foi publicado ontem, e o de Boulos saiu hoje:

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APELO ÀS LIDERANÇAS DEMOCRÁTICAS

Luiz Eduardo Soares

Cientista político

Faço um apelo a todas e todos que sabem o que significaria um golpe policial-militar, sob liderança fascista. Os sinais são assustadores, ostensivos e crescentes. Hoje, o vice-presidente publicou um artigo absurdo e ameaçador no Estadão. Aras, embora tenha se corrigido depois, disse ao Bial que as Forças Armadas poderiam, sim, intervir se um poder invadisse a seara do outro, numa clara alusão crítica ao Supremo. Ives Gandra está a postos para escrever a justificativa “constitucional” do golpe. Nunca faltaram juristas aos generais; não faltarão ao capitão. Eduardo Bolsonaro confirmou: a ruptura está decidida, espera-se apenas a oportunidade. O presidente sobrevoou manifestação contra o Supremo e o Congresso ao lado do ministro da Defesa. Precisa desenhar?
Enquanto isso, do lado de cá, uns e outros estão melindrados com manifestos conclamando à união pela democracia. Questionam suas intenções e origens. Não querem ser usados por adversários que buscam se redimir de erros passados. Ou seja, perderam conexão com a realidade. O fogo já começou a lamber seus pés. Despertem, cacete!
Nessa conjuntura, movimentos sociais planejam manifestações para domingo. Pois aqui vai meu apelo. Companheiras e companheiros, vocês não percebem que Bolsonaro está armando uma armadilha? Vocês acham que terão condições de impedir que infiltrados promovam quebra-quebra? Não terão. Não subestimem os fascistas. A P2 fez isso outras vezes, por que não faria agora? Agitadores fascistas são profissionais da destruição. Sabem como gerar o que os bolsonaristas e a mídia chamarão “caos”, sabem como reencenar o que a mídia gosta de denominar “vandalismo”.
Se vocês forem às ruas, por mais organizados que estejam, não conseguirão impedir que provocadores façam o que Bolsonaro espera desde a posse. Se vocês forem às ruas, e eu adoraria que fossem e eu estaria junto com vocês, em condições normais, não só vão ajudar a propagar o vírus em nossos grupos, como vão oferecer a oportunidade que os fascistas aguardam, ansiosamente, e que têm sistematicamente estimulado.
Se isso ocorrer no próximo domingo, à noite, em rede de TV e rádio, Bolsonaro dirá que, em defesa da lei e da ordem, e “da democracia”, enviará na manhã seguinte solicitação ao congresso para a decretação do estado de sítio. Se não houver apoio, o “poder moderador” das Forças Armadas se imporá, porque, afinal de contas, “Brasil acima de todos, Deus acima de tudo”. Interventores, com apoio das polícias estaduais, tomarão o poder nos estados. Em lugar do Supremo, uma corte de exceção será nomeada.
Nessa noite tão tenebrosa quanto previsível, as lideranças sociais e políticas não alinhadas ao fascismo serão alvo de diferentes tipos de ação. Prefiro não descrevê-las. E só então quem, à esquerda, costuma desdenhar da “democracia formal” e de uma “Constituição que nunca chegou às classes subalternas ou aos territórios vulneráveis” vai entender que faz diferença, sim, o regime político, a tal democracia, por mais limitada e precária que seja, no Brasil.
Vocês acham que eu exagero? Estou paranoico? A quarentena me fez mal? Tomara que estejam certos. Entretanto, creio ser, hoje, um dever de todos e todas, especialmente das lideranças, alertar e explicar com detalhes o que está em jogo e quais são os riscos de realizar manifestações nesse momento. Só faz sentido ir para o confronto se a correlação de forças permitir, ou poderemos sofrer uma derrota histórica, um banho de sangue e um golpe. A menos que nossos companheiros tenham certeza de que conseguirão bloquear os sabotadores e provocadores a serviço do fascismo. Mas quem poderia ter essa certeza? Que líder responsável poderia ter essa certeza?

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EU ESTAREI LÁ

Guilherme Boulos

Coordenador do MTST

Tenho muito respeito por Luiz Eduardo, um intelectual de primeira linha e uma figura humana extraordinária. Como ele, tenho grande preocupação com a ascensão do fascismo bolsonarista e não considero as liberdades democráticas simples formalidades. Foram conquistadas com sangue e luta de toda uma geração de brasileiros. Mas discordo em relação às manifestações de domingo. O que vimos na semana passada, puxado por torcedores organizados, foi um passo fundamental na resistência ao fascismo: a demonstração de que a rua não é deles. Não basta sermos maioria na sociedade.
Não basta assinarmos manifestos unitários, que julgo importantes, aliás subscrevi todos. Mas a hegemonia fascista, mesmo minoritária, se afirma nas ruas. Foi assim com os Camisas Negras de Mussolini e com as milícias hitleristas. Poderia ter sido assim com os integralistas de Plinio Salgado no Brasil se os comunistas não os tivessem enxotado das ruas. Se normalizamos gente defendendo AI-5 e agredindo opositores, jornalistas e enfermeiras em praça pública, daqui a pouco não teremos condições de dar as caras. Sei que a questão não é simples. Além do mais, estamos em meio a uma pandemia. Mas na conversa entre os organizadores da manifestação do próximo domingo, ao menos em São Paulo, haverá um enorme esforço para manter o distanciamento e as precauções sanitárias.
O Povo Sem Medo organizou uma brigada de saúde para isso com centenas de voluntários. O MTST vai distribuir 4 mil máscaras na Avenida Paulista, feitas pelas cooperativas de costureiras do Movimento. A orientação da organização do ato será uma manifestação pacífica e de inibir infiltrados. Claro que sempre há um risco. Devemos fazer de tudo para minimizá-lo. Mas, convenhamos, o outro lado não precisa de pretextos nossos para endurecer. Se ficarmos parados tampouco temos qualquer garantia.
Eles sempre produziram os próprios pretextos. Lembremos do Rio Centro, em 1981, quando oficiais do Exército contra a democratização iriam explodir bombas no festival do Dia do Trabalhador para culpar a esquerda. Não funcionou por imperícia. Ou do plano de explodir o gasômetro de São Cristóvão, em 1968, em nome dos comunistas, só evitado pela denúncia de um oficial da Aeronáutica. É a velha tática que os nazistas inauguraram no incêndio do Reischtag.
Bolsonaro avança na escalada autoritária. Sei dos riscos, mas não creio que se deixarmos as ruas para eles estaremos impedindo essa marcha. Por isso, o MTST e o Povo Sem Medo estarão nas ruas no domingo. E eu também estarei lá.

7 thoughts on “IR PRA RUA OU NÃO IR, EIS A QUESTÃO

  1. O “Agência Pública” postou 30 pedidos de impeachment de Bolsonaro, todos com o endereço de email do Rodrigo Maia. Pedidos feitos por todo tipo de gente e não apenas políticos.

    Basta clicar em “avise ao Congresso que você quer acompanhar essa proposta”.

    Enviei os 30 emails acrescentando ao curto texto “CHEGA DE ADIAR O IMPEACHMENT!!!”, embora eu prefira a Cassação de Chapa, mas estão adiando para completar 2 anos, quando não será mais possível.

    Ninguém é tão IMPRESTÁVEL que não possa fazer o mesmo.

    Leiam os emails ou não (não ler deveria constituir crime já que eles são eleitos pelo povo!), é o que se deve fazer.

    ** vocês deveriam acompanhar o Agencia Pública, Revista Piauí, Reporter Brasil, De Olho nos Ruralistas, Brasil de Fato, Auditoria Cidadã e Amazônia Real. O Brasil é MUITO MAIOR e MAIS IMPORTANTE que o PT de vocês.

    1. Tu é burra ou o quê? Sigo todas estas publicações e sou petista e brasileiro com muito orgulho. Uma coisa não invalida a OUTRA!

      1. Uma coisa tem invalidado a outra sim!

        Uma das provas disso é o Auditoria Cidadã que vem denunciando desde 2013 várias PECs que passaram pelo Congresso e que abriram TOTALMENTE caminho para Bolsonaro e para o que ele e Guedes estão fazendo agora.

        Tudo o que eles previram aconteceu e ESTÁ acontecendo e o FANATISMO DOENTIO de vocês não lhes deixam escolha, então vocês fecham os olhos.

        E “burra” é aquela que te pariu.

  2. Por quê o nazifascismo triunfou na Alemanha e não vingou na Inglaterra? O momento histórico era o mesmo, o que mudou foi a reação das pessoas. Na Alemanha as milícias nazistas cresceram em intimidação porque a reação foi inferior à ação, à organização e agressividade dos fascistas. Na Inglaterra os camisas pardas foram enfrentados e tiveram que recuar. Aqui não tem volta. é guerra. Os justos ocupam os espaços ou a barbárie toma conta. Eles estão preparados para a guerra. E nós?

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