MANDARAM A CONTA PARA SERGIO MORO

O fracasso das manifestações de domingo é a primeira fatura entregue ao ex-juiz que virou político e vê sumir a chance de virar ministro do Supremo, depois da força destruidora dos vazamentos de conversas pelo Intercept.

Agora, Moro é considerado pelos aliados e pelos inimigos políticos apenas um deles. É nesse pantanal que tanto desdenhou que o ex-chefe da Lava-Jato terá de aprender a se movimentar, ou fracassará também em relação às suas pretensões às eleições de 2022.

Moro já está até procurando acertar o tom, como fez na mensagem que despachou pelo Twitter no domingo: “Eu vejo, eu ouço. Lava-Jato, projeto anticrime, previdência, reforma, mudança, futuro”.

É algo na linha da política de autoajuda, mais religiosa, rasa, que tenta se aproximar do povo com o que tem de pior.
Então Moro vê e ouve. E interpreta assim que o povo quer mais Lava-Jato, combate ao crime, nova previdência. E algo mais vago sobre mudança e futuro.

É o ministro da Justiça fazendo média com o chefe e erguendo a bandeira da reforma da previdência, o mais impopular dos projetos políticos das últimas décadas. Mas é o preço a ser pago.

Há um dado a favor desse Moro religioso. Nas manifestações, foi ele, e não Bolsonaro, o mais lembrado em faixas, cartazes e gritos de guerra. A classe média reage à ameaça de enfraquecimento da sua figura diante dos vazamentos e da possibilidade de libertação de Lula.

Mas há mais coisas contra do que a favor dele. Os políticos, inclusive aliados, começam agora a tramar para fragilizá-lo. Desaparece o ex-juiz que caçava o crime organizado e pretendia ser colega de Luiz Fux. Entra no baile o sujeito que não sabe direito o que poderá ser na semana que vem.

Pelas atitudes, pelo discurso ainda enviesado e pela necessidade de sobrevivência, Moro vai se afastando do homem de preto de gravata borboleta, que frequentava as festas tucanas, e tenta construir a figura do juiz do povo que fará política. Por isso ele vê e ouve, como um mestre que aprende com seus discípulos.

Moro tem ingredientes para ser uma das figuras mais esdrúxulas da política brasileira, porque talvez não se livre completamente dos cacoetes dos togados e possivelmente não consiga alcançar o tom dos que pretende imitar.

O chefe da Lava-Jato desaparece aos poucos como caçador de corruptos e é provável que nada surja em seu lugar. O ex-juiz talvez venha a ser enquadrado pela definição que ele mesmo usou para os mais recentes vazamentos do Intercept. Um balão vazio cheio de nada.

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