Michelle é recebida no Supremo como mulher de estadista

Ilse Pröhl Hess era a mulher de Rudolf Hess, o vice-führer de Hitler. Ilse e Hess eram grandes amigos do líder. Ela não era apenas a esposa, e sim uma voz forte na liderança do nazismo, até com produção literária sobre as ideias do grande chefe.

Mas nenhum alemão imaginaria, em 1945, depois da condenação do temido Hess à prisão perpétua pelo Tribunal de Nuremberg, que Ilse pudesse ser recebida por um dos juízes. E muito menos implorar para que o marido cumprisse a pena em casa. Hess sofria de distúrbios mentais sérios.

Ilse não fez nada até porque logo depois também foi presa. E não poderia fazer, mesmo se estivesse solta, porque Hess não tinha mais, como todos os nazistas depois da guerra, força política alguma. O condenado morreu na cadeia, apesar do poder que havia ajudado a construir durante uma década.

É inimaginável que um alemão pudesse usar o seguinte argumento em nome de concessões a Hess e aos outros chefes nazistas condenados: eles merecem privilégios por terem ocupado altos postos no governo. Deveriam ser respeitados pelo que haviam sido.

É o que prevalece hoje, em boa parte do meio político e jurídico, em relação a Bolsonaro. A Justiça deveria levar em conta sua condição de ex-presidente da República e respeitá-lo institucionalmente.

Nesse contexto, pergunta-se: é razoável, é compreensível, é aceitável ou é grandiosamente humano que um ministro da mais alta Corte do país receba, em audiência cerimoniosa, a mulher do presidiário líder do golpe, com o pedido para que ele retorne para casa em prisão domiciliar?

Não é uma dúvida qualquer: um condenado como chefe de organização criminosa, por ter atentado contra a democracia, pode continuar desfrutando dos salamaleques dedicados a ex-presidentes?

É aceitável que essa visita seja vista como normal, considerando-se que o esposo da visitante era o comandante em chefe de militares encarregados do assassinato do presidente da República eleito, do vice e do próprio ministro que a recepciona?

A comparação aqui não é do nazismo com o fascismo brasileiro, que é outra pauta. É com a condição, tanto de Hess quanto de Bolsonaro, como prisioneiros por crime graves. Hess morreu na prisão porque foi condenado à pena perpétua.

Bolsonaro, se continuasse preso, também envelheceria e poderia morrer encarcerado – mesmo se cumprisse, como manda a lei, no máximo 40 dos 47 anos a que foi condenado. Sua pena integral equivaleria, sem atenuantes e descontos protocolares, a uma prisão perpétua.

Bolsonaro cometeu um conjunto de crimes, alguns ainda sob investigação, como os da pandemia, que deixaria pouco espaço para a sua exaltação como ex-presidente. Bolsonaro é terrivelmente criminoso.

Mas a mulher dele vai ao encontro do juiz que comandou o processo da condenação, por ainda desfrutar dessas concessões do poder. Não é a advogada, é a mulher do golpista.

Tem o que Ilse não teve. Hess foi condenado a morrer na cadeia porque não tinha mais nada, era um fracassado. Bolsonaro vai sair da cadeia porque perdeu, mas ainda tem força política.

Ilse era muito mais do que a mulher de Hess, era uma militante de ponta e pensadora política. Michelle é uma das principais ativistas e lideranças do bolsonarismo, já anunciada como futura senadora por Brasília.

A ex-primeira-dama foi sozinha ao Supremo, sem o suporte de familiares, políticos e advogados, conversar com Moraes. É como se, numa situação em que tudo se normaliza e se naturaliza, os sentimentos prevalecessem em relação a todo o resto.

A intervenção dos afetos, para muito além da interferência das considerações jurídicas, pelos advogados, e técnicas, pelos médicos, pode ter sensibilizado o ministro? Michelle conseguiu o que mulheres de presos comuns dificilmente terão.

Teve a chance da conversa com o ministro que condenou o marido e chegou ao êxito pelo convencimento. Ela, e não os advogados ou os médicos, fica com a imagem de vencedora. Bolsonaro voltará para casa.

Certamente deveria voltar, por suas condições físicas precárias e mesmo que tal privilégio não seja concedido a outros presos sem lobby e sem mulheres poderosas. A questão aqui é outra. Seria melhor se a decisão pela prisão domiciliar não ficasse parecendo uma concessão depois dos argumentos de Michelle.

Não há exagero algum na reação de quem não entende essa interferência, o tratamento diferenciado a Michelle – em relação às mulheres dos Zés da Silva – e o próprio tratamento de ex-estadista, acima da condição atual de criminoso e presidiário, para Bolsonaro.

Tudo porque a extrema direita continua viva e o chefe da organização criminosa continua poderoso. É ruim e é constrangedor, mas hoje não há muito o que fazer. Michelle tem a força que Ilse não teve.

5 thoughts on “Michelle é recebida no Supremo como mulher de estadista”

  1. Percebi que o Moisés está começando a ficar chateado com o Alê e que já escreveu seu primeiro texto com muito cuidado, por causa das mudanças nova Lei do Racismo.

  2. É uma tristeza ver o Supremo Tribunal Federal, a mais alta Corte de Justiça do país, que teoricamente deveria se ocupar em zelar pela constitucionalidade das leis e das normas jurídicas, tenha se transformado numa Vara de execuções PENAIS. Parabéns, senhores Ministros, Vossas Excelências conseguiram essa PROEZA. Jair Messias Bolsonaro por acaso ocupa algum cargo público que lhe confira prerrogativa especial de foro ? A Constituição claramente diz que não. Mas de que vale a Constituição hoje no Brasil, né mesmo ? Eu, como cristão católico, acredito na ressurreição, e não na reencarnação. Mas tem Ministro do Supremo que não só acredita na reencarnação, mas tem a mais absoluta convicção de que reencarnou o espírito de Luís XIV, e vive por aí clamando: “O ESTADO SOU EU”. Como diria o saudoso General João Batista Figueiredo: “eu prometo redemocratizar o Brasil, e quem for contra eu prendo e arrebento”.

  3. Xandão, mais uma vez, deu conta da situação. Ao liberar o Golpista Condenado, em princípio, por 90 dias, cria obstáculos para que o condomínio de luxo vire comitê eleitoral do flavie. Assim, o mito deverá permanecer no morre-não morre por este período, perigando voltar ao Xaxá se demonstrar milagrosa recuperação. Grande Xandão!!

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