Ouçam a comentarista do mercado: isso é ideologia, estúpido

Os caras que administram dinheiro alheio no mercado financeiro têm condições de cumprir essa tarefa? É a pergunta incômoda da mais importante e popular comentarista liberal de economia do país.

Por isso tem mais relevância do que parece a análise que Míriam Leitão fez no Globo da pesquisa da Genial/Quaest com 88 executivos, que revela uma maioria esmagadora de pessimistas com a direção das medidas da área econômica e com o governo Lula.

Num meio em que os comentaristas econômicos batem sem parar em Lula, com manifestações explícitas de sabotagem ao governo, Míriam Leitão é uma voz desafinada.

O título da chamada de capa da coluna é revelador:

“Mercado financeiro se deixou levar pela ideologia contra Lula”

E internamente esse é o título do texto:

“Pesquisa mostra mercado de costas para o governo e para o país”

Mesmo que mantenha críticas pontuais, a jornalista – adorada pelo mercado financeiro – expõe a índole dessa gente. Eles torcem contra o Brasil, e não contra o governo, e têm uma precária capacidade de análise.

Vale a pena publicar a coluna na íntegra, porque é um dedo na cara de manés e grileiros da Faria Lima:

O GLOBO
Míriam Leitão

Pesquisa mostra mercado de costas para o governo e para o país

Uma pesquisa da Genial/Quaest ouviu 88 executivos do mercado financeiro, e apenas 2% disseram que a política econômica está certa, 98% acham que está errada.

Na expectativa dos próximos 12 meses, 6% dos executivos apostam que vai melhorar. A mesma pergunta feita para a opinião pública em geral indica que 62% acreditam que vai melhorar.

Neste mesmo público, 20% estão pessimistas, contra 78% do mercado financeiro que dizem que vai piorar.

A pesquisa inédita mostra de forma evidente que os executivos do mercado financeiro se deixaram levar pela ideologia.

O bolsonarismo contaminou sua visão do que está acontecendo no país, quando a visão objetiva é a mais eficiente para quem toma decisões em relação ao dinheiro dos outros.

Se pensassem de forma objetiva veriam bons e maus sinais. As ameaças do presidente Lula ao Banco Central foram um dado negativo, da mesma forma que as indicações de mudanças na lei das estatais e na política de paridade internacional de preços dos combustíveis.

Mas o ministro Fernando Haddad está pavimentando com medidas concretas uma redução do déficit público. Uma delas foi reonerar a gasolina que o governo anterior desonerara por motivos absolutamente eleitoreiros.

A administração Bolsonaro furou o teto de gastos várias vezes, pedalou precatórios, aprovou medidas demagógicas, derrubou quatro presidentes da Petrobras e criou o maior risco jurídico recente com as ameaças à democracia. Era um risco fiscal e um risco institucional.

Dos entrevistados, 73% acham que há risco de recessão este ano e só 20% acreditam que haverá aumento do investimento externo. Na realidade, o país está de fato desacelerando, mas a recessão ainda não é uma probabilidade, e o investimento pode subir dependendo da aprovação, por exemplo, do novo arcabouço fiscal.

Apenas 1% acha a relação com o Banco Central positiva, e 90% acham negativa. De fato, o BC foi alvo de bombardeio do presidente e outras lideranças petistas, mas a relação com a equipe econômica vai bem.

Apenas 16% acham alta a possibilidade de o Banco Central antecipar o corte dos juros e 45% apostam em baixa. Na verdade, há uma possibilidade real de antecipação dos cortes. Uma pergunta sobre se o BC pode manter a taxa de juros em 13,75% até o fim do ano, 72% acham que essa é a indicação da instituição.

A política fiscal do governo vai gerar sustentabilidade da dívida pública? Dos que responderam, 90% disseram que não. Ao mesmo tempo, 61% acham alta a chance de o governo aprovar a nova âncora fiscal, 31% acham que é regular e apenas 8% consideram baixa essa possibilidade.

Na reforma tributária, 32% acham alta a possibilidade de aprovação, 41% regular, mas 98% concordam com a unificação dos impostos.

O mau humor demonstrado na pesquisa com os executivos do mercado financeiro é tão alto que faz duvidar da capacidade de análise dos que avaliam a conjuntura para tomar as decisões sobre o dinheiro de terceiros que administram.

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