MORO NÃO QUIS SER ARAPONGA DE BOLSONARO

Sergio Moro escapou de várias bombas no governo Bolsonaro, ao sentir que o sujeito queria usá-lo para fazer o serviço sujo. Iriam estourar bombas na Polícia Federal e na recém descoberta Secretaria de Operações Integradas (Seopi), todas no colo de Moro.

As revelações do jornalista Rubens Valente, do UOL, vão aos poucos desvendando o que envolve a existência do dossiê contra 579 militantes antifascistas, a grande obra da Seopi.

Moro foi quem transformou, por decreto de Bolsonaro, a Seopi em organismo de inteligência. Antes, era apenas um órgão de apoio da área federal a investigações nos Estados. Por isso está no nome que faz ações integradas.

Mas parece ter ficado claro que o ex-juiz não teve coragem para levar adiante a ideia de ser araponga e produzir relatórios para Bolsonaro e a família (tanto que a queixa de Bolsonaro pela falta de informações da inteligência era dirigida especialmente a Moro).

Moro decide saltar fora, sabendo que sua missão seria mais árdua do que imaginava. E a Seopi começa então a fazer o trabalho que ele se negava a realizar. O ex-juiz teve pruridos.

Agora, com a demissão do coronel do Exército Gilson Libório de Oliveira Mendes, diretor de Inteligência da Seopi, o governo parece indicar que teria sido dele ou de gente da área sob seu comando a ideia do dossiê.

Mendes vai para o sacrifício, mas pode arrastar mais gente junto, mesmo que isso pareça improvável por ser um coronel.

O oficial se junta a 11 ex-integrantes da Seopi, com cargos de confiança, que eram da turma de Moro e foram demitidos por André Mendonça.

São 11 possíveis envolvidos em arapongagem que devem ter saído contrariados para dar lugar ao grupo de confiança do novo ministro.

Um desses exonerados pode ter sido o vazador da informação sobre o dossiê, ou Rubens Valente nunca ficaria sabendo da existência de algo considerado secreto.

Um ressentido expulso do esquema decidiu que o dossiê deveria ser público. O caso repercutiu, Mendonça criou uma comissão para investigar o rolo e o coronel Mendes foi degolado.

Começa a ser descoberto no Brasil, um ano e meio depois de iniciado o governo, o que os argentinos descobriram só no final dos quatro anos de governo de Mauricio Macri. A existência de uma estrutura de arapongagem à margem de controles legais.

Arapongas sempre se consideram fora de controle. Mas a ação da Seopi vai custar caro. A ministra Cármen Lúcia deu prazo de 48 horas para que Mendonça se pronuncie sobre o dossiê e explique o que seus homens andaram fazendo.

Se disser que sabia, estará confessando possíveis delitos. Se disser que não sabia de nada, ficará como o chefe que não chefiava arapongas uma área a serviço dos interesses e das obsessões de Bolsonaro e dos filhos dele.

Se a pressão aumentar, os expulsos da estrutura podem tentar livrar a cara, contar o que sabem e compartilhar responsabilidades, como estão fazendo na Argentina.

Muitos dos mais de 20 presos envolvidos na espionagem montada por Macri para perseguir adversários foram delatados por ex-colegas. Arapongas também têm suas fragilidades.

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