MORREU O PAI DO TOMÁS

A morte de Bruno Covas era anunciada e talvez por isso mesmo nos abata ainda mais. Acompanhamos a lenta agonia de um jovem que poderia construir uma trajetória semelhante à do avô.

Bruno Covas era para alguns a última esperança de resgate dos sonhos dos anos 80 de um projeto social-democrata para o país, mesmo que não andasse nessa direção.

A Folha tentou ser superlativa, mas a manchete acabou ficando estranha:

“Prefeito Bruno Covas, político moderado que confrontou autoritarismo, morre aos 41 em São Paulo”

Não há nada de errado, mas sugere que a principal qualidade de um político hoje pode ser, depois de morto, a moderação.

O texto não segura a manchete quanto ao combate ao autoritarismo. É uma referência breve à sua oposição a Bolsonaro.

Ser oposição a Bolsonaro é quase uma obrigação hoje a qualquer político de centro que não esteja nos negócios do Centrão com a extrema direita.

A Folha poderia ter dito na manchete que morreu mais um democrata em tempos de ódios, obscurantismos e genocídio. Bruno estaria homenageado. Um democrata com todas as suas imperfeições.

O prefeito leva junto as sobras de ilusões juntadas um dia em torno dessa social-democracia brasileira que não se realiza.

Os líderes sobreviventes do que teria sido a nossa social-democracia elegeram-se na carona de Bolsonaro e sempre elogiando Bolsonaro.

No primeiro turno de 1989, eu votei no avô de Bruno, para só votar em Lula no confronto decisivo contra Collor. Porque a nossa transição deveria ser, depois da ditadura, para um governo social-democrata.

Fica a imagem forte, tantas vezes repetida, de Bruno com o filho Tomás sempre ao lado, até o último momento pouco antes da morte. Se eu fosse editor da Folha, a minha manchete seria esta:

Morreu o pai do Tomás.

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