NEGROS ASSASSINADOS MORREM VÁRIAS VEZES

Morrer é expor-se a todo tipo de abordagem, muitas vezes cruéis, dos inimigos, dos parentes, dos colegas e até dos amigos.

Se o morto for negro e pobre e foi assassinado, corre o risco de se transformar não só em vítima, mas em acusado de todo tipo de delito, entre os quais o de ter vivido.

Um negro assassinado é muitas vezes acusado de ter causado a própria morte. Por isso estão remexendo na vida de João Alberto Silveira Freitas (foto) desde o momento em que ele foi morto, na quinta-feira, no Carrefour, em Porto Alegre.

Já disseram muitas coisas a seu respeito. O jornalismo alega, nessas horas, que cumpre sua função. É uma desculpa sempre presente na grande imprensa. Sabemos quase tudo do morto, principalmente das imperfeições como ser humano, mas ainda não sabemos nada dos assassinos.

Os dois assassinos brancos passam a ser personagens secundários, quando são eles os criminosos. Poderíamos saber a história dos dois, para entender a violência que descarregaram no homem, não para imobilizá-lo, mas para massacrá-lo até sentirem que não se mexia mais.

Agora, o advogado de um dos criminosos diz que Freitas pode ter morrido sob o efeito de drogas. Já haviam dito que morreu de infarto.

Sugerem, apenas como suposição, que a morte aconteceu pela sua condição de cardíaco e não por ter levado dezenas de socos e ser prensado contra o chão.

Se estava sob efeito de drogas, também foi por isso que acabou morrendo asfixiado? Se não tivesse problemas no coração e se não usasse drogas (como o advogado alega), poderia estar vivo?

Matam as vítimas negras várias vezes depois da sua morte no Brasil. O Nego Beto, como era conhecido, será morto todos os dias inclusive pelos advogados dos assassinos em conluio com os jornais e os cúmplices que conseguirem recrutar.

Negros assassinados nas periferias terão sempre suas imperfeições divulgadas. Como se, depois de mortos, tivessem não só o corpo, mas a alma autopsiada por homens que se consideram perfeitos.

O canalha branco, que tenta depreciar a memória de negros assassinados, é cúmplice do homicídio e das muitas mortes que continuam se repetindo depois do crime.

Vão matar Beto muitas vezes, porque era um homem com defeitos, assim como encontraram problemas na vida de George Floyd.

Um advogado chegou a dizer que ele morreu com “os olhos saltados e a íris expandida”, como se isso fosse sinal de que teria ingerido algo que pode ter causado sua morte.

O assassino de negros é o criminoso mais protegido no Brasil, mais até do que corruptos de direita.

2 thoughts on “NEGROS ASSASSINADOS MORREM VÁRIAS VEZES

  1. Ao final do inquérito, se a linha investigatória seguir assim, o assassinado será exumado e encaminhado ao Presídio Central, para as devidas providências.

  2. O que se vê, o que se ouve, o que se lê é que o que aconteceu com o Sr. João Alberto Silveira Freitas é algo recorrente, de há muito, em nosso meio. Não se trata de algo pontual, como querem a hipocrisia e o cinismo. A diário, a violência racial manifesta-se de todas as formas, intensidades e matizes. Nas mínimas e sutis atitudes à brutalidade policial. Agora, quis o destino, foi filmada, resultou em mais um óbito e aconteceu exatamente no momento em que se deveria refletir e discutir sobre o racismo estrutural brasileiro. Tão brutal também comporta-se a presidência da república ao minimizar e negar esta cultura cruel e nossa histórica segregação.

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