Nem Odorico Paraguaçu defenderia intervenção federal no Rio Grande do Sul

Odorico Paraguaçu chamaria de infantil, trepidante e dinamitosa a ideia dos defensores de uma intervenção federal no Rio Grande do Sul. Mas analistas políticos aparentemente sensatos e ‘de esquerda’ defendem essa aberração.

A ideia da intervenção federal é boa como lacração, na base do prende e arrebenta, mas afronta não só a racionalidade mais elementar. É desrespeitosa com o gaúcho, por ignorar sua história e sua índole belicista e também o drama que enfrenta hoje.

Uma intervenção seria desastrosa por motivos que até um colegial identifica. Começando pelos impasses políticos. Não há como, na catástrofe que virou cenário de guerra da velha direita e da nova extrema direita contra Lula, fazer uma intervenção sem desqualificar o ministro extraordinário Paulo Pimenta.

Seria o reconhecimento do fracasso da indicação de Pimenta para ajudar a gerir, com o aval de Lula e ao lado das forças do Estado (universidades, sindicatos, servidores públicos de todas as áreas, movimentos sociais, empresários), uma crise que o governador Eduardo Leite e o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, não conseguem enfrentar sozinhos.

Leite e Melo não podem liderar a reconstrução, que já é compartilhada com Pimenta. Os dois devem ser tutelados pelas forças civis do Estado, em todas as frentes, mas não golpeados e interditados como as turmas deles golpearam Dilma Rousseff.

Lula sabe que o Rio Grande do Sul é historicamente um Estado tensionado e um dos que têm base e líderes extremistas com expressão nacional. O Rio Grande do Sul elegeu o primeiro general senador, Hamilton Mourão, do Republicanos.

Bolsonaro venceu em todas as cidades alagadas da Serra e dos vales do Rio Pardo e do Taquari, geralmente com dois terços dos votos ou mais. Nesse mapa da catástrofe, Lula só venceu em Porto Alegre e Sapucaia.

O último grande conflito político violento no Rio Grande do Sul, com matanças e degolas, aconteceu há apenas cem anos. Foram os gaúchos, sob o comando de Brizola em 1961, que conseguiram adiar por três anos o golpe que viria em 1964.

O que Lula ganharia, nesse Estado sempre em guerra, com uma intervenção condenada ao desastre e sabotada já na arrancada? Por que o governo federal iria aderir a uma ideia que, antes de ser assumida por analistas ‘da esquerda’ e se disseminar, foi defendida por Hamilton Mourão?

O PT e Lula seriam ingênuos a ponto de tentar reprisar no Rio Grande do Sul o desastre da intervenção de Braga Netto no Rio em 2018, até hoje sob investigação por crimes graves?

Quem seria o interventor? Um técnico ‘neutro’ sem poder político? Um político que potencializaria as reações de sabotagem já acionada contra Paulo Pimenta? Um militar teria a coragem de assumir essa missão suicida?

Uma intervenção seria um golpe no esforço da inteligência das universidades e do setor público, que já se articulam para conversar com todas as instâncias de poder.

Alguns grupos já conversam com o ministro extraordinário. E uma intervenção acabaria com a chance real de a deputada Maria do Rosário ser a primeira prefeita de Porto Alegre.

A ideia da intervenção, tratada pelos proponentes com certa banalidade, é a prova de que para analistas do centro do país as periferias devem se submeter às eurekas dos sabichões, os mesmos que têm, em Copacabana ou no Bexiga, soluções para a guerra na Ucrânia.

A proposta é tão infantil que trata a crise gaúcha como se fosse uma série da Netflix. O final feliz seria assegurado por um herói interventor, nos moldes das soluções militares ou militarizadas.

Federalizar a solução para o caos e os crimes causados por falsos negacionistas (são, na verdade, autores de ações destrutivas deliberadas) é livrar Leite e Melo, sem a garantia de solução alguma. Intervenção é uma ideia salvacionista de quem anda distraído e tropeça até em tutoriais da direita.

Um analfabeto político, mesmo sem a pretensão de entender o Rio Grande do Sul, não imagina que Paulo Pimenta possa substituir a legítima ambição de ser governador eleito pela função subalterna e degradante de preposto de uma intervenção juramentada.

A proposta esdrúxula de montar formalmente uma tropa de intervenção federal no Rio Grande do Sul, em nome do estado de defesa, já concorre ao prêmio de Grande Ideia de Jerico do Século 21.

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