O FAZENDEIRO, O ITAMARATY E A AMEAÇA COMUNISTA

Roberto Magalhães Suñe foi um fazendeiro de Bagé. Entrava-se na casa dele na cidade para não querer mais sair.

Tinha obras de arte por todo lado. Nas paredes, até perto do teto, nas mesas, nos cantos. Djanira, Vasco Prado, Di Cavalcanti, Iberê, Carangi, Manabu Mabe, Glauco Rodrigues, Waldeny Elias.

Na hora do almoço na Estância Peñarol, seus peões ouviam Beethoven por um sistema de alto-falantes espalhados em torno das casas.

Suñe era um homem fino. Foi uma das tantas pessoas que conheci que arrastavam ou ainda arrastam uma frustração singular. Suñe tentou e não conseguiu ser diplomata.

Queria estudar no Instituto Rio Branco para sair pelo mundo. Morreu em 2008 e ganhou obituário na Folha de S. Paulo como o fazendeiro que amava os cavalos crioulos e as artes.

Me lembrei dele agora porque li que o estudioso das relações internacionais Flávio Gordon dará uma conferência virtual aos diplomatas, no dia 28 de julho, como novo contratado das redes de estudos do Itamaraty.

Gordon vai falar de “Globalismo e comunismo”. O sujeito é um militante bolsonarista raso, que defende a prisão de Gilmar Mendes e prega que as redações dos jornais e as universidades estão tomadas de esquerdistas perigosos.

Pensei nas injustiças da vida. Roberto Suñe, que nasceu diplomata, não conseguiu entrar no Rio Branco, mas Ernesto Araujo chegou lá e virou chefe do Itamaraty.

E Flavio Gordon, convidado de Araujo, passa a fazer parte do time de conferencistas que ajudam os diplomatas a entender o mundo hoje.

Os diplomatas brasileiros estão estudando a nova ameaça comunista. E dizer que já vivemos num país em que os peões ouviam Beethoven.

(A arte que ilustra este texto é a tapeçaria “Touros”, de Manabu Mabe)

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