O TRISTE FIM DE UM NEGACIONISTA

Escrevi hoje no Facebook que o coronavírus parece matar mais gente de esquerda do que de direita, pelo menos entre as pessoas mais conhecidas.

Um amigo gaúcho que mora no Rio me mandou a seguinte informação. Um médico carioca, conhecido entre os amigos como negacionista, reproduzia no Facebook tudo o que desinformava sobre a pandemia.

O médico publicava estatísticas ditas alternativas, contestava comparações do Brasil com outros países (para dizer que aqui estava tudo bem), recomendava a cloroquina de Bolsonaro e debochava dos que temiam a pandemia.

Não era da linha de frente em um hospital, mas dava o carteiraço de médico para propagar tudo na contramão da ciência.

O sujeito só não chegava ao ponto de divulgar as frases da família Bolsonaro. Era um bolsonarista sem coragem de assumir publicamente sua preferência.

Pois meu amigo informa que esse sujeito morreu de Covid-19 na semana passada num hospital chique do Rio.

No dia seguinte, quem fosse olhar o perfil do homem no Facebook não acharia uma linha sobre o que ele publicou contestando as informações sobre a peste que o matou.

Apagaram tudo. Quem fez o serviço? Talvez um familiar ou um amigo que sabia como acessar o perfil.

E a grande dúvida é esta: o homem decidiu, ao adoecer, que seus arquivos deveriam ser eliminados se ele morresse, ou alguém teve a preocupação de livrá-lo espontaneamente de incômodos depois de morto?

Porque há um detalhe: as postagens sobre a pandemia, com uma sequência diária de textos e números, foram mantidas no perfil enquanto ele estava vivo.

O homem morreu e tudo desapareceu. Não se trata de ficção. É uma história muito verdadeira, que ouvi pelo telefone no início da tarde.

O médico negacionista, de quase 70 anos, era famoso entre os conhecidos, inclusive os de esquerda, como um radical antiesquerdista e pretensamente nacionalista. Diziam que era um bom médico.

A história prova apenas que, depois de morto, os negacionistas podem se livrar dos rastros de bobagens que escreveram um dia.

O vivo real era um pregador da gandaia geral, porque o coronavírus não seria assim tão mortal. Já o falecido virtual é um cara sensato livre de constrangimentos.

3 thoughts on “O TRISTE FIM DE UM NEGACIONISTA

  1. Também tenho essa impressão sobre a escolha das vítimas fatais pelo corona segundo a aparente ou ostensiva tendência política. A turma palaciana já esteve ou está quase toda infectada e, aparentemente, passa incólume. Então, só os do lado de cá?, penso. E já me posicionando. Não desejo mal a ninguém, mas, ora, a turma do lado de lá faz de tudo para que haja uma razzia nas hostes adversárias. Sendo assim, que provem do próprio veneno, pelo menos de quando em vez.

  2. Atinge-se, assim, um dos ideiais do fenômeno político do bolsonarismo – que é sempre negar tudo o que se disse, lá atrás, ou então admitir, mas como “não sendo bem assim”. É essa a essência da ideologia bolsonarista, e faz lembrar a crítica do Woody Allen, no Midnight in Paris, aos americanos do Tea Party: ele os chamou de “zumbis criptofascistas”.

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