O MAIS COMPLICADO É MANTER O GOLPE

Amplia-se a suspeita de que as esquerdas acreditam muito mais na possibilidade de golpe do que a direita. Para a direita, o golpe pode ser apenas um blefe permanente, que manterá os inimigos assustados e os aliados sempre de prontidão.

Bolsonaro e sua turma vão sobreviver politicamente, enquanto for possível, dos medos provocados pelo blefe. Mas os militares, dos quais Bolsonaro depende para blefar, sabem que um golpe pode ser aplicado, mas nem sempre pode ser sustentado.

Em 64, os militares tinham aliados que os golpistas de hoje não teriam. Desfrutaram da conjuntura internacional da Guerra Fria. Havia um governo americano forte. Os medos internos do governo ‘comunista’ de Jango e a ‘agitação’ social.

Dispuseram do protagonismo civil político e empresarial que ajudou a viabilizar o golpe. E contavam com uma elite militar de exceção.

Mesmo assim, o golpe demorou para se consolidar, até pelas divisões entre os golpistas. Mas o que os militares tinham mesmo e que Bolsonaro não tem eram as estrelas do mundo civil.

O golpe foi acionado e comandado também pelos políticos e pelos empresários, incluindo banqueiros. Em pouco tempo, os militares formaram ministérios com Milton Campos, Otávio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos, Severo Gomes, Delfim Netto, Hélio Beltrão.

Não é preciso nem confrontar esses nomes com os que estão à disposição de Bolsonaro e dos militares hoje. Os empresários civis queriam e sustentaram o golpe. Hoje, quem deseja o golpe? Paulo Skaf deseja? Mas quem é Paulo Skaf? O véio da Havan? O véio do Madero?

A ditadura no Brasil se manteve com o milagre econômico e a ferro, fogo, torturas e mortes. O Cone Sul era um reduto de ditadores. Hoje, não há nenhuma chance de golpe na vizinhança. Golpe passou a ser coisa de bolivianos e paraguaios.

Os militares foram controlados no Uruguai, na Argentina e no Chile. Não há ameaça comunista interna, só existem os delírios de uma minoria. Não há ligas camponesas no Nordeste. Não há nem mais o apoio da grande imprensa.

Bolsonaro não sabe, porque foi um militar medíocre e ficou pouco tempo na caserna, mas os generais sabem bem muito bem que em qualquer guerra o mais difícil não é conquistar terreno, é manter o terreno tomado para não ter de recuar.

Um golpe hoje poderia durar, aos trancos e barrancos, por alguns meses. Mas teria, olhando-se os personagens, os recursos disponíveis e as circunstâncias, como se manter por muito tempo?

Militares são leitores da Arte da Guerra, do chinês Sun Tzu, o ABC de estratégias que valem para ambições e gestão de conflitos em todas as áreas, inclusive dentro de governos e empresas.

O capítulo 4 é dedicado ao avanço, à ocupação de terrenos e às posições táticas. Sun Tzu diz que um general só deve avançar, para conquistar posições, se tiver a certeza de que poderá manter o terreno a ser conquistado.

É possível manter terreno, numa situação excepcional, sob a liderança de Bolsonaro?

Felipão, o técnico da Seleção, com sua cabeça militarista, disse várias vezes que aprendeu muito lendo as lições de Sun Tzu. Mas deve ter assimilado mal o que andou lendo.

Felipão tomou um, dois, três, quatro gols da Alemanha na Copa. Quando tentou fazer um, tomou cinco, seis, sete.

Um golpe, como a vitória em uma batalha, pode ser o resultado de um bom blefe. Mas um bom blefe nem sempre resulta em golpe. Um blefe pode ser apenas um blefe.

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