UM MESTRE DO JORNALISMO AMBIENTAL

Morreu o jornalista Washington Novaes, um dos grandes nomes do jornalismo ambiental no Brasil. Novaes, 86 anos, foi o mestre de gerações que encheram as redações de repórteres ecologistas nos anos 70 e 80.

Muitos colegas de jornal os consideravam extremamente chatos. A palavra que eles mais empunhavam era ecologia, e não ambientalismo ou sustentabilidade, que vão aparecer bem mais tarde.

Convivi com alguns deles. Eram de fato maravilhosamente ecochatos, inconvenientes, radicais, assertivos, impulsivos, desafiadores. Defendiam rios, índios, matas, o ar, o tatu, as minhocas, o lobo-guará.

O paulista Novaes fez parte da mesma turma de Lucio Flavio Pinto, o paraense que ajudou a nos mostrar, no ultraconservador Estadão, o que era a Amazônia.

Novaes foi o índio da Globo. Lucio Flavio tinha sua tribo no Estadão, e Randáu Marques era o pajé do Jornal da Tarde. Eles faziam nas grandes redações o que parecia improvável. Militavam pela defesa do ambiente em meio aos interesses variados das corporações da mídia e seus amigos.

Essas figuras estão desaparecendo da grande imprensa, com algumas exceções cada vez mais raras (Marcelo Canellas, André Trigueiro).

Alguém lembrou esses dias que o reconhecimento ao jornalismo com foco em questões sociais e no ambientalismo cedeu lugar ao jornalismo político.

As grandes premiações deixaram de exaltar trabalhos nessas áreas, e os chatos sumiram. Foram expulsos porque a militância ecológica na imprensa perdeu a proteção de chefes e donos de jornais.

Os enclaves ambientalistas desapareceram das redações, apesar do suporte de prêmios específicos para a área, como o concedido pela nossa Associação Rio Grandense de Imprensa. É triste.

Dias desse conversei por telefone com meu amigo Valdir Paz, um dos editores da lendária Central do Interior da Caldas Júnior.

Lembramos, entre outras coisas, de um Prêmio Esso coletivo, para a Região Sul, que ganhamos no final dos anos 70. Era uma série de reportagens com a participação dos correspondentes da Caldas: 100 anos de desmatamento. Abordava a devastação das matas com o avanço da agricultura intensiva da soja.

Eu era o correspondente em Ijuí. Bons tempos de atrevimentos e de aprendizado. Fomos falando e lembrando os nomes de uma geração de exceção, alguns da linhagem de Novaes. Rejane Fernandes, Jairo Ferreira, Vera Rotta, Mário Fengler, Vera Flores, Antonio Carlos Macedo, Antônio Britto, Cleiton Selistre, Marco Antônio Baggio, Heloisa Kirsch, João Bosco Vaz, Nazaré Almeida, Marcelo Matte, Clovis Heberle, Joabel Pereira, Alair Almeida, Ana Maria Barros Pinto, Juarez Lemos, Elmo Loeblein, Juraci Jaques, Tania Krütska, Vitor Paz…

É saudade mesmo, não é saudosismo, e me faz bem. O melhor dos prêmios de jornalismo é o coletivo. Me arrisco a dizer que, depois daquele prêmio dos anos 70, ninguém mais venceu um Esso sobre ambientalismo.

O jornalismo merece um prêmio para os defensores da vida com o nome de Whashington Novaes.

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