O RIO QUE ODEIA BOLSONARO

As estruturas da contravenção misturadas ao Carnaval sempre estiveram a serviço dos políticos de plantão no poder do Rio. O fenômeno que se exibe agora parece ser o da desconexão entre o poder do Carnaval e o poder da direita representada por todas as suas expressões políticas na cidade.
Escolas e arquibancadas mostraram não ter relação nenhuma com Bolsonaro, Crivella e Witzel. O folião apenas curioso, incapaz de decifrar estruturas e significados, tem apenas suspeitas e pede explicações.
O cenário sugere que não há mais, como havia nos bons tempos dos bicheiros que comandavam tudo, a convergência de interesses entre quem manda no Rio e quem manda nas escolas e constrói e leva a festa para o Sambódromo.
Os cariocas votam nos Bolsonaros para ajudar a elegê-los presidente, senador e vereador (o outro filho é deputado federal por São Paulo). Mas os Bolsonaros não têm vozes que os representem nas comunidades carnavalescas.
É natural que essa desconexão se dê com Crivella, porque o prefeito e o diabo conspiram contra a festa. Mas Bolsonaro tem ‘base popular’ no Rio. O Carnaval, se é maltratado e não simpatiza com ele, poderia pelo menos ignorá-lo. Mas decidiu bater com força em Bolsonaro como nunca havia batido antes em políticos considerados algozes.
Os pesquisadores, e são muitos e são bons, podem oferecer respostas. Parece que se diluiu a relação até romântica da elite política e empresarial (Boni, da Globo, desfilava ao lado dos bicheiros e foi tema de samba-enredo da Beija-Flor) com o mundo das comunidades.
Uma explicação possível pode levar a uma simplificação. Os bicheiros de antigamente, do tempo de Castor de Andrade, Luizinho Drummond, Anísio da Beija-Flor, Capitão Guimarães e Emil Pinheiro, não existem mais com o mesmo formato.
E a ligação de Bolsonaro não é com a contravenção tradicional, mas com o empreendedorismo sempre suspeito das igrejas evangélicas e o submundo do crime pesado das milícias. Há espaço para milicianos no Carnaval?
Podem dizer, também como suspeita, que o Carnaval se ajustou à esquerda porque é patrocinado por ela. Sabemos que não é.
O Carnaval sempre abordou, desde muito antes do Sambódromo, a crítica de questões sociais misturadas a costumes, mas só agora foi politizado ao máximo num ambiente tensionado pelo extremismo do bolsonarismo, que carnavalescos e a elite do Carnaval decidiram encarar.
A direita chega a apontar contradições: muitas escolas têm ligação com todo tipo de crime, mas homenageiam Marielle. Assim é o Rio.
Seria surpreendente se as escolas homenageassem Bolsonaro. E essa é a pergunta da Quaresma: alguma escola teria coragem de exaltá-lo, como a Paraíso da Tuiti exaltou Lula no ano passado?
Há coragem suficiente para que algum dia uma escola, com a boa grana do esquema do Queiroz, desafie os religiosos bolsonaristas e saúde Bolsonaro no Sambódromo? É certo que não, nem com toda a dinheirama das rachadinhas.
Bolsonaro não é um Getúlio, um Jânio, um Juscelino, um Negrão de Lima e nunca será um Lula. Os bolsonaristas sabem, até pelos vínculos com os neopentecostais, que não conseguem associá-lo a uma festa. Ele odeia a festa e a festa o abomina.
Mas Bolsonaro não é completamente refratário ao Carnaval. Tanto que usou o Twitter para registrar que muitos foliões o apoiavam nas ruas. Em Balneário Camboriú…
O Carnaval deste ano ajudou a denunciar que a base social popular de Bolsonaro é mais do que reacionária, moralista, religiosa e silenciosa, pelo menos no Rio. Essa base popular talvez seja mais precária do que se imagina e certamente é muito triste.

(Texto publicado originalmente no www.brasil247.com.br)

One thought on “O RIO QUE ODEIA BOLSONARO

  1. Infelizmente gostaria que assim fosse, mas conheço muita gente que não só gosta dele com pensa em votar nele E nós filhos nas próximas eleições.

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