O vice é quase sempre uma figura na tocaia
Jango era o vice de Juscelino, que quase não assumiu em 1956 porque os militares já enxergavam a ameaça comunista. Jango foi também o vice de Jânio e chegou ao poder com a renúncia do presidente, para ser golpeado em 64.
Jango era companheiro de chapa de Juscelino em 55, mas não era de Jânio em 60, porque os candidatos a presidente e a vice recebiam votação em separado naquele tempo.
Itamar também era quase um estranho de vice ao lado de Collor em 1989, mesmo que estivessem na mesma chapa. Collor caiu e permitiu a ascensão do vice e sua consagração como o presidente do Real.
Temer era o vice de Dilma, ajudou a tramar o golpe de agosto de 2016 e assumiu o poder, mas ofereceu ao país a chance de ver Alexandre de Moraes se transformar no mais bravo ministro da história do Supremo.
Alckmin, o vice de Lula, era seu inimigo tucano histórico e hoje é considerado, por consenso no governo, uma das figuras mais fiéis ao presidente. Lula se sente seguro para emprestar até seu par de Havaianas a Alckmin, como faria com José Alencar, seu primeiro vice.
Os vices são, pela natureza do cargo, sombras imprevisíveis e ameaças permanentes aos titulares de cargos em governos, empresas e DCEs, como é hoje a militarista Victoria Villarruel para o fascistão vigarista Javier Milei na Argentina.
Se Trump ousasse repetir no Brasil a tática aplicada à Venezuela, o que teríamos aqui com um vice protagonista, como acontece hoje com Delcy Rodríguez, a vice de Maduro?
Delcy disse, logo após o sequestro, que Maduro é o único presidente da Venezuela. Foi empossada presidente com suporte das Forças Armadas e um dia depois afirmou que vai conversar com Trump.
Não há uma saída intermediária para Delcy, mas apenas duas saídas radicais. Ela pode ser subjugada por Trump e enterrar o chavismo, se for majoritária ao lado de eventuais militares entreguistas e conseguir conter reações internas, e pode enfrentar Trump e cair atirando.
Não há como sair assoviando. E essa é a ameaça de constrangimento enfrentada hoje pelas esquerdas latino-americanas, e não só as simpáticas ao chavismo. Delcy pode ser a coveira não só do chavismo, mas do bolivarianismo?
É um constrangimento que será afirmado ou desfeito com o tempo, talvez pouco tempo, mas não o único. O primeiro constrangimento foi abafado e escamoteado por parte das esquerdas nas redes sociais, como se não tivesse existido: como Maduro caiu tão facilmente?
Foi desolador para quem esperava a resistência heroica, do governo, dos seus militares e das milícias chavistas, que Maduro tenha sido acordado, algemado e levado para Nova York. Sabemos hoje que os seguranças cubanos, sozinhos, não conseguiriam salvá-lo.
E dizem, sem provas, que tudo foi assim porque a vice e militares teriam colaborado para facilitar a ação dos sequestradores. A vice que hoje, tomando café com a família, talvez seja incapaz de dizer com clareza o que ela é nesse momento e o que poderá ser amanhã.
Então, não resolve ficar buscando adjetivos tenebrosos, como esse, para o que aconteceu na Venezuela, porque adjetivos são inúteis nessas circunstâncias, enquanto houver um vice disposto a fazer o impensável para deixar de ser vice e entrar para a História, ou simplesmente salvar a própria pele.
Harry Truman, o vice de Franklin Roosevelt, virou História quando o presidente morreu e ele levou adiante a aliança que derrotou o nazismo. Vices medíocres, como Hamilton Mourão, o segundo de Bolsonaro, podem até virar senador.
Vices sem ambição, que caem na sala da História, como Café Filho, o vice de Getúlio, podem contribuir para confusões e a ressurreição de tentativas de golpe. Há, ao contrário, vices adequados ao momento, como Sarney após a morte de Tancredo.
E vices discretos e quase e invisíveis, como Marco Maciel, o vice de Fernando Henrique, que deixam como memória a grandeza de quem vem ao mundo para ser apenas o vice e é o que basta.
Delcy é um caso complicado e em aberto. Trump a anunciou como sua preposta de confiança para tocar a transição, mesmo que Delcy não tenha sido uma vice qualquer. É uma figura histórica e poderosa do chavismo.
A transição planejada por Trump pode ser o purgatório que abrirá a porta do inferno a todos os países que o neofascismo americano pretende dominar, ou pode ser o começo de uma resistência até agora improvável.
Qualquer uma das escolhas da vice de Maduro irá lhe assegurar lugar na História. Que Delcy Rodríguez enfrente uma das síndromes do vice, a da figura sempre de tocaia para a traição. Que lute como uma mulher nesse mundo de machos covardes e nos ofereça o melhor exemplo da bravura de uma vice nesse começo de século 21.

Usando a famosa expressão “cada um no seu quadrado”, Trump, Putin e XI Jinping já se entenderam no final do ano passado, e traçaram cada qual o seu quadrado. A China fica com Taiwan, a Russia com a Ucrânia e os Estados Unidos com a América Latina, Caribe e Groenlândia. Claro como a luz do sol. Simples como tomar uma Coca-Cola. O resto é papinho de analista geopolítico. A Colômbia é a próxima bola da vez: Trump vai devastar as plantações de coca e destruir os laboratórios de refino. O cheirador Petro vai ter síndrome de abstinência. É pule de dez.
Voltando à Venezuela, a partir do momento em que o Comando DELTA simplesmente ignorou a existência de Diosdado Cabello e Vladimir Padrino, deixando-os livres, leves e soltos, fica muito claro o ACORDÃO costurado por Marco Rubio com a cúpula chavista (Delcy Rodriguez inclusa). Entregaram a cabeça do palhaço Maduro, em troca de grandes investimentos em petróleo e distanciamento da Venezuela da esfera de influência da Rússia e da China. Impressionante como a cada dia que passa as coisas vão ficando cada vez mais claras. Cabello é o homem mais rico da Venezuela e seu negócio nunca foi socialismo, mas sim dinheiro, muito dinheiro e poder. Demorou, mas Cabello percebeu que, com os Estados Unidos, ele e sua enorme quadrilha (a maioria oficiais das Forças Armadas), podem ganhar muito mais dinheiro com petróleo e minérios do que com narcotráfico. Simples assim.
D. Delcy ficará onde está enquanto a poeira estiver no ar. Parece que o Pirata do Caribe não gosta da fascista do Nobel. No fim e ao cabo, algum general ficará no cargo enquanto os ianques bombeiam óleo para casa.