O voto de Fux contra todo o sistema de Justiça

Uma pergunta que pode estar circulando entre estagiários do Supremo: por que o ministro Luiz Fux falou com extrema frieza, sem expressar sentimento ou emoção, ao comentar os ataques do golpismo ao STF?

O ministro se referiu várias vezes aos ataques do 8 de janeiro em Brasília como ‘atentados ao patrimônio tombado’ e como ‘lesão ao patrimônio cultural’, sem abordar, uma única vez, a agressão à instituição que o abriga.

A palavra democracia só foi aparecer na fala do ministro depois do retorno do intervalo para o almoço. E sob a ladainha de mais de uma hora sobre conceitos de democracia, quase sempre a partir do ponto de vista americano.

Fux usou referências de ‘democracia’ dos Estados Unidos como modelo. Mas logo a democracia americana numa hora dessas? Por que tantas citações a autores estrangeiros, como se estivesse fugindo da abordagem concreta da realidade brasileira?

O ministro fez o que a inteligência artificial poderia, por pudor, se negar a fazer. Fux produziu, a partir de premissas teóricas, assim definidas por ele mesmo, uma das falas mais repetitivas, cansativas e devastadoras já ouvidas dentro do Supremo.

Tentou desmontar as provas de Alexandre de Moraes de que o golpe era conduzido por uma organização criminosa comandada por Bolsonaro. Referiu-se aos golpistas de 8 de janeiro como vândalos. Os acampados nos quartéis, depois da eleição de Lula, eram da mesma turma. Não eram golpistas.

Desqualificou colegas, entre os quais Moraes, que defenderam a soberania nacional quando se referiam aos golpistas e sua articulação com Trump. Depreciou os próprios golpistas mobilizados no ataque a Brasília porque não estavam armados, e um golpe só pode existir com alguém que não só porte, mas que use arma.

Em nenhum momento Fux se emocionou ao falar da investida contra Brasília. Não se emocionou quando analisou o plano dos militares que pretendiam assassinar o colega Alexandre de Moraes. Abordou o plano como quem comentasse mensagens trocadas entre militares que iriam matar piolhos nos quartéis.

Fux viu tudo com um olhar particular. Enxergou apenas turbas violentas nas ruas, desde as movimentações dos black blocs. E tentou criar equivalência entre os invasores de Brasília e manifestantes do MST. Porque quase tudo se equivale, segundo ele.

Se o MST promove atos públicos que ele considera violentos, os invasores de Brasília tinham o direito de fazer o mesmo. Por isso nada do que aconteceu, a partir do comando de Bolsonaro, caracteriza tentativa de golpe.

Fux fez o que os advogados dos oito réus não tiveram coragem de fazer. Comparou personagens e situações incomparáveis, sempre com o uso do truque mais usado pelo fascismo, o das equivalências sobre o que não se equivale.

Relançou a campanha pelo voto impresso, porque a urna eletrônica é como uma torradeira, só funciona se estiver ligada a uma tomada. E atacou o próprio STF, que seria culpado, por seus excessos, pela imagem externa de fragilização da democracia no Brasil.

Mas ainda temos Cármen Lúcia, que vota nessa quinta-feira. A ministra não reprime sentimentos e poderá dizer hoje o que esperamos que alguém do STF diga em defesa do Supremo. Que seja dito pela única mulher do STF.

O irritante e abusivo Fux, que falou por mais de nove horas, tanto alertou para que não se confunda política e Justiça, num clichê raso usado pela extrema direita, que acabou provocando um fato político para atiçar o fascismo.

Mirou não só no processo que ele espera ver destruído, mas em todo o sistema de Justiça e na imagem de Alexandre de Moraes. Em momento algum se colocou no lugar do colega que seria assassinado pelos golpistas, que só foram contidos por um imprevisto.

Não falou porque o alvo de Fux é Moraes, com todos os seus significados. É preciso destruir o ministro relator e oferecer argumentos ao bolsonarismo para anulação do processo e disseminação do projeto da anistia.

Todos os ministros do STF não alinhados à direita são entregues ao bolsonarismo e a Trump. Fux fez o serviço. Só se emocionou ao elevar o tom de voz em defesa da absolvição de Bolsonaro.

E só não pediu a absolvição de Mauro Cid porque o próprio Cid se autocondenou. Sobrou para o coronel ajudante de ordens de Michelle e para os manés amigos de Fátima de Tubarão.

Caberá à tal sociedade civil organizada reagir à afronta, ou enfiar o rabo entre as pernas e continuar fazendo o que já faz, ou seja, nada.

13 thoughts on “O voto de Fux contra todo o sistema de Justiça

  1. Fux condena o Mauro Cid e absolve o Bozo. Quer dizer que o mentor de todas as barbaridades perpetradas pelo Bozo et caterva era o Cid. Ele seria o ventríloquo e o Bozo, e todo o resto da “tchurma” eram os bonecos de ventríloquo que falavam/faziam o que o Cid assoprava. Haja Deus ! O Rolando Lero não teria a imaginação que o Fux teve.

  2. Tudo para o Moisés é “se emocionar”. Amanhã ele quer “se emocionar” com o voto “emocionante” da Dona Carmen. Sempre ele se emociona. E agora ficou bravo com o Fux porque o voto dele não foi um voto emotivo, mas frio e distante.

    O Moisés ridicularizou a Vera Magalhães, que já tinha cantado a bola sobre a “falta de emoção” do Fux.

    Agora, fosse no plenário e a Dona Carmen fosse votar depois do Nunes Marques e do Mendonça, com certeza ela mudaria o voto. Mas o Moisés é fascinado por ela e não enxerga que ela nada sempre a favor da corrente. Hoje ela nem vai dormir, pensando se não muda o voto amanhã, já que o Fux reacendeu a emoção direitista dela.

    Moisés, vai plantar batata – para não falar algo mais ofensivo.

  3. O Moises foi ao banheiro fazer xixi, justo na hora em que o FUX disse com todas as letras que os prédios foram atacados, o patrimônio tombado foi danificado, mas as instituições saíram ilesas e fortalecidas. Procura aí no YouTube, que você encontra (foi ali por volta das 16 horas). De resto foi um voto DEMOLIDOR. Uma aula de Direito Penal e Direito Processual Penal. O ponto crucial do voto se chama em latim “cogitationes poenam nemo patitur”. Traduzindo: não se pune pensamentos. Quem nunca cogitou matar aquele vizinho folgado, filho de uma puta, que bota música no volume máximo à meia-noite ? Entretanto, valores morais ou religiosos, bem como civilizatorios (Direito, leis, sanções, caráter intimidativo da pena) freiam os nossos instintos mais primitivos. Ninguém nesta imaginária “trama golpista” saiu do campo das “cogitationes” para entrar no campo das “executiones”. O Direito PENAL não se ocupa de pensamentos, de bravatas, nem de conversas de botequim.

  4. Nas preliminares o juiz decretou a nulidade total do processo. Depois, condenou o carregador de pasta e o candidato a vice por tentativa de golpe. Onde o diabo da coerência?

  5. Uma provável explicação para o bizarro voto de Fux
    Enquanto assistia ao surreal e bisonho voto de Fux no STF me veio à lembrança uma curiosa cena do filme “Herói ou Traidor”, baseado nas revelações do ex-agente da NSA Edward Snowden.
    Pra quem não sabe, a NSA- National Security Agency (Agência de Segurança Nacional dos EUA) é a maior agência de inteligência do planeta e poderosa arma de guerra cibernética . Seus agentes são capazes de invadir e quebrar a criptografia de qualquer sistema ou banco de dados existente, acessando informações privadas de qualquer cidadão no mundo.
    Procurei o filme e revi a cena. Assim achei uma provável explicação para a exposição surreal de Fux no julgamento da tentativa de golpe.
    Nesta cena, Snowden (interpretado pelo ator Joseph Gordon-Levitt ) recebe de seu chefe Corbin O’Brian (ator Rhys Ifans) , um robusto conjunto de arquivos com a missão de encontrar neles informações comprometedoras de um político e professor de estudos islâmicos na Indonésia. O objetivo é usar essas informações para chantageá-lo a ser um colaborador, um agente infiltrado. Snowden é instruído a usar o programa “XKeyscore” que permite acessar todas as redes sociais e contas de e-mail de qualquer pessoa no mundo.
    No material acessado, no entanto o perfil do professor é a de um cidadão acima de qualquer suspeita, honesto, dedicado à família e profundamente religioso. Não satisfeito, o chefe O’Brian ordena que Snowden verifique o histórico de navegação do cidadão e procure por senhas salvas utilizadas para acesso a sites adultos. Assim ele encontra conversas privadas com teor sexual explícito.
    O’Brian fica exultante com o achado, pois essa informação seria útil para chantageá-lo e convencê-lo a ser um agente colaborador. E diz a a Snowden a seguinte frase: “-Everything he is, everything he knows, everything he believes in… is now ours”.
    Minha tese é que Fux foi alvo de algo parecido. Em tradução livre, a frase de O”Brian seria a seguinte, no nosso contexto: “- A-ha, U-hu, o Fux é nosso”
    Se esta tese estiver correta, novas surpresas virão de eminentes autoridades da república.

  6. Foi uma aula brilhante sobre Direito e sobre covardia. O ponto crucial foi a Lei Magnitsky. Não fosse a lei e o medo de não ir mais para Miami, teria votado com o relator.

  7. [09:01, 9/11/2025] Lia Lopes Silva: Fux Condenou queM delatou toda a quadrilha e absolveu o líder, quem se beneficiaria com o golpe. Ou seja, um magistrado da Suprema Corte de Justiça no Brasil, mostrou, à saciedade, como é importantíssimo PUNIR TODOS os membros da quadrilha que foram nomeados nos autos, porque existem outros, fora dos autos, que continuam a trabalhar pelo golpe – inclusive dentro do STF.
    Atentemos que no Congresso os continuadores do golpe se articularam e tentaram, na força bruta, exigindo a modificação de leis federais sob coação, conseguir a anistia para seus comparsas que estão sendo julgados; agora, um outro sai em defesa de seus aliados, em total complacência, para inocentá-los e pô-los livres, para executarem o golpe que planejaram.
    Ou seja, a mensagem enviada através do voto de Fux é que – o golpe tem acontecer, se materializar por completo e quem for contra será punido.
    Quem for normal, estiver interessado em defender sua própria liberdade, seus próprios interesses, ser um cidadão por completo, ter direitos assegurados em lei, não por promessas de quem muda de opinião a todo momento, usando a – teoria do louco – para manter a todos confusos continuamente; quem ama o país em que nasceu, em que vive, estuda, trabalha deve dar toda força para quem está na linha de frente no combate ao golpe, porque o golpe significa a perda da liberdade para todos. Depois de golpes de Estado, os que se tornam mais perigosos são exatamente os que mais intrinsecamente participaram. Por que? Porque eles já planejaram e idealizaram um golpe, dando-lhe uma forma que pode se tornar real. Assim sendo, eles o podem repetir, derrubando o aliado que ajudou a chegar ao poder.
    A ruptura do Estado Democrático de Direito, portanto, tira a segurança de todos, pois lei nenhuma mais vale – apenas a palavra, a promessa de quem já traiu a própria nação, o próprio país. Você realmente confiaria em quem traiu a todos os seus conterrâneos? Você realmente crê que quem mentiu e retirou direitos de centenas de milhões de pessoas será eternamente fiel a você? Para quem chegou ao poder através de um golpe, são precisamente os mais brilhantes a engendrar, criar um plano de golpe que deu certo, os mais perigosos. Por que? Porque esses sabem o caminho para derrubá-lo e também sabem ser insidiosos, traiçoeiros: sorriem, riem, dão tapinhas nas costas quando estão prestes a apunhalar o aliado, até o amigo de longa data.
    Fux ontem apunhalou todo o STF e mostrou que pode planejar terabytes para derrubar a quem ele escolher como inimigo, seja por inveja da coragem, do brilhantismo, seja porque ele quer todos os holofotes sobre si. Fux mostrou que gosta do poder e de reunir sobre si todas as atenções. Todo golpista ama o poder e quer controlar o mundo. Hoje, Trump – que também já tentou golpes de toda sorte durante boa parte de sua vida, incluindo o Ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021 – parece aliado de Bolsonaro, mas se os dois forem bem sucedidos , num mesmo momento, ambos desconfiarão um do outro, pois querem o mesmo – que só um deles pode ter: o poder total.
    O grupo dos golpistas estão unidos apenas enquanto não conquistarem o poder total. Quanto o conseguirem, o egocentrismo e a ganância os desunirá e terá início uma nova guerra pelo controle. Nessa guerra, são presos, torturados e mortos até os que apenas querem seguir ordens, porque a ganância, o egoísmo, o desejo pelo controle total e poder absoluta cega.

  8. Moisés Fux, pede desculpa para a Mônica Bergamo, ela tem fontes e disse hoje na Folha que os ministros vão reagir contra o Fux.

    O Fux é aquele que desconsidera o trabalho dos colegas.

    Peça desculpas, Moisés Fux. Você não tem fontes no STF, mas a Mônica, a Vera, a Sadi, o Gaspari e o Josias têm.

    Obrigado, Moisés Fux.

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