Os estudantes, os jornalistas e os repressores

guernica

Conversei essa semana com Elmar Bones, diretor do jornal Já. Elmar é o chefe de Matheus Chaparini, o repórter preso pela Brigada com o documentarista Kevin D’Arc e um grupo de estudantes, quando da desocupação da Secretaria da Fazenda, na semana passada.

O que aconteceu ali, naquele dia 15, não pode ficar atirado em algum canto da memória gaúcha, para ser resgatado daqui a alguns anos como um episódio vergonhoso. Deve ser tratado agora como é – um fato até então inimaginável em tempos de democracia.

Não é normal que um grupo de estudantes, a maioria adolescentes, tenha o tratamento dado a delinquentes, com métodos de repressão da ditadura.

Mas até agora a indignação com o que aconteceu está restrita às vozes de exceção de sempre. É como se a repressão a um fato político e seus desdobramentos estivesse dentro de uma normalidade que não deve ser incomodada.

Elmar me disse que no tempo dos militares (e ele foi preso pelo regime) até a interlocução formal da imprensa e das redes de proteção das liberdades com as autoridades civis, em momentos de tensão, por surpreendente que pareça, era menos errática do que hoje.

Não, não é um elogio à exceção. É a constatação de que os governantes gaúchos temiam a reação, geralmente barulhenta, dos que estavam na vigilância pela democracia.

Hoje, tudo está consumado pela imposição de uma estranha resignação. Muitos dos que deveriam reagir são cúmplices do silêncio obsequioso aos repressores.

Adolescentes são presos e enquadrados como criminosos e um jornalista é levado junto para a cadeia sem que aconteça uma reação proporcional à violência cometida.

Se há um consolo, este é um dos que temos à mão: a ocupação das escolas em todo o país é o mais relevante fato político dos jovens brasileiros neste século, como expressão de inconformidade com a degradação de um serviço público essencial. E assim será lembrado.

A repressão aos estudantes e ao jornalismo ficará como marca de um período em que, num ambiente de democracia, tudo era possível – para vergonha das instituições, das entidades que dizem defender direitos fundamentais e liberdade de expressão (e que continuam caladas) e da própria imprensa.

Os piores momentos da história foram os que tiveram uma imprensa amordaçada, ou acovardada e seletiva nas suas manifestações de indignação.

O 37º Congresso dos Jornalistas do Rio Grande do Sul, sexta e sábado em Caxias, saberá dar conta desse constrangimento. Que o Sindicato da categoria tenha o reconhecimento e o respaldo que merece diante de omissões que um dia serão cobradas pelos que foram reprimidos e presos naquele dia.

Os mandantes e os cumpridores de ordens do 15 de junho tentaram humilhar estudantes, jornalistas e a democracia. E tiveram a cumplicidade de muitos dos que deveriam estar do outro lado desse embate e só se manifestam quando da repressão a jornalistas em lugares bem distantes.

(Na arte, detalhe de Guernica, de Picasso)

 

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