Pega o Gabeira
Fernando Gabeira é notícia de novo. Em março, o comentarista da GloboNews sugeriu que o Supremo fosse extinto. Nessa sexta-feira, defendeu que ministros da Corte sejam colocados numa “reserva”, por escolha do governo de plantão, e substituídos por outros nomes por medida provisória, em nome da renovação.
Pois vou contar uma das minhas histórias de Forrest Gump. Em 1992, Cida Damasco (que seria mais tarde editora-chefe do Estadão) chefiava a editoria de economia de Zero Hora, onde eu era um dos editores. Um dia, Cida me convocou:
— Você pega o Gabeira?
Eu deveria, no processo de edição, cuidar dos textos do Gabeira para o jornal. Os artigos chegavam do Rio num malote. Vinham datilografados em papel pardo, e eu tinha que ler e encaminhar para o que chamavam de composição.
Alguém iria transformar o texto analógico em texto digitalizado. A redação da Zero usava computadores desde 1988. Ainda não existia internet no Brasil, mas claro que já havia o computador pessoal, onde os textos eram escritos e, se fosse preciso, depois impressos. Gabeira ainda preferia a máquina de datilografia.
O jornalista era, na memória de todos nós, o autor de ‘O que é isso, companheiro?’, um belo livro de aventura sobre a índole brancaleone da luta clandestina contra a ditadura.
Pois eu pegava Gabeira todas as semanas. Uma surpresa ao ler os primeiros textos era o uso do antigo acento circunflexo na palavra êle. Se o texto tivesse êle, tinha com acento.
Gabeira havia ficado até 1979 na Suécia. Em 1971, os acentos diferenciais haviam caído para êle, aquêle, êsse, sêde, govêrno.
Não era surpreendente que ele, como ex-exilado, fosse um êle acentuado. O que surpreendia mesmo era que o Gabeira daquele livro que pegou muita gente escrevia como um jornalista comum.
Seus textos para o jornal não tinham quase nada do que aparecia nos livros, mesmo em ‘Entradas e Bandeiras’ e ‘O crepúsculo do macho’. Eram previsíveis e sem inventividade. E o Gabeira mito foi se desmanchando.
Aquele era o guerrilheiro que levou um tiro na bunda, que não tinha sido um ativista importante no contexto da guerra com a ditadura, que não escreveu, como alguns diziam, a carta-manifesto quando do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick em 1969 (Franklin Martins é o autor da carta) e não era acima da média como jornalista.
Gabeira também foi um deputado mediano, que no fim da carreira se aliou à direita e tirou foto de braços dados com o centrão. Mas o cara desviante que usou tanga de crochê foi se sobrepondo ao jornalista e guerrilheiro e o que ficou foi a figura
pública do reacionário que está aí até hoje.
O Gabeira mitológico e folclorizado ainda é maior do que o da vida real e cada vez mais com falas alinhadas à direita, apesar do ambientalismo de jardinagem e das posições genéricas sobre costumes e liberdades.
Quem o conhece sabe que esse Gabeira que delira sobre o fim do Supremo para agradar o fascismo — e que chega a defender até a escolha de ministros por MP — já existia, só que com outro formato, lá no final dos anos 60.

Não, se ele declarar voto em Lula, o Moisés voltará aqui para escrever que recebia os papéis do Gabeira como um homem de fé que toca no Santo Sudário.
Por enquanto, Gabeira é medíocre, burrão e fascista, mas se a qualquer momento declarar voto em Lula, ele voltará a ser aqule ex-guerrilheiro revolucionário nas lutas e na literatura, voltará ser aquele jornalista brilhante, que usava um acento chamarmoso em êle e aquêle.
É o que dirá o Moisés Mendes.
Muito antes do Gabeira, o Zé Dirceu já defendia a extinção do Supremo Tribunal Federal e sua substituição por uma Corte Constitucional, nos moldes italianos. Na Itália há três instâncias de Justiça. A última delas é a Corte de Cassazione (equivalente ao tupiniquim Superior Tribunal de Justiça). Mais NENHUMA. A Corte Constitucional examina única e exclusivamente matéria constitucional, e não no Brasil, onde o Supremo virou Delegacia de Polícia, Vara Criminal e Vara das Execuções PENAIS.
O STF é o que sempre foi. Permitiu que LULA fosse preso sem provas, retirou a autoridade de moro na lavajato e abriu caminho para que LULA voltasse ao poder. O STF foi pro pau contra os fascistas e segurou o regime democrático ao menos por um tempo. O STF agora está dividido, como o País. Segue a vida.