Por que a estátua do imperialismo não representa a força da mulher
Sobrevive nas redes sociais, com abordagens previsíveis e insistentes, a conversa sobre o vídeo iraniano em que o Cristo Redentor é atacado pela Estátua da Liberdade, reage e massacra a escultura americana. A abordagem mais usual é a mais rasa: o macho Cristo ataca a fêmea que expressa as liberdades.
Associam a estátua ao poder da mulher. Como diziam nos antigos cursinhos de pré-vestibular, lembremos que a figura feminina está, desde a Grécia Antiga, em toda representação artística de monumentos que a identificam com liberdade ou sentimento de pátria e de justiça.
Temos estátuas por toda parte. Porto Alegre tem um belo exemplo na sua área central. Uma deusa Themis que parece querer voar da parede do antigo prédio do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, é uma justiça feminina e poderosa, porque sem a venda nos olhos.
Sentem-se nas escadarias da Praça da Matriz, onde estão a Catedral Metropolitana, o Palácio Piratini e o Theatro São Pedro, e fiquem olhando para a figura criada pelo talento do arquiteto Carlos Maximiliano Fayet. É a mais bela de todas as deusas Themis. Não é conversa de gaúcho.
Na mesma praça, a poucos metros de Themis, há um monumento majestoso, com todas as representações possíveis do poder dos homens, com a mulher como expressão da República. É uma representação clássica.
Bem acima, lá no alto do monumento, protegendo Júlio de Castilhos, que governou o Estado entre 1893 e 1898, está a República mulher. A obra é do escultor Décio Villares. É a mulher que vai aparecer, com variações, em muitos outros monumentos pelo mundo também na forma de liberdade.
A jornalista Eliane Brum explicou há muito tempo em reportagem em Zero Hora cada figura e cada detalhe desse monumento. É a exaltação do positivismo de Auguste Comte e de seu discípulo Júlio, que acabou orientando quase tudo o que somos, no Rio Grande do Sul e no Brasil, para o bem e para o mal. Leiam ‘Júlio de Castilhos e sua época’, de Sérgio da Costa Franco.
Há mais três figuras femininas no monumento, representando a pátria, a sabedoria e a coragem. O homem poderoso está cercado de mulheres. Há esculturas e monumentos semelhantes no Brasil e no mundo em que a mulher seria a expressão das qualidades da humanidade.
Os artistas pareciam saber mais do que os políticos que representavam em suas obras. Mas não eram bem assim. Tanto que essa estátua da liberdade agora envolvida em controvérsias foi criada para ser a representação da liberdade, presenteada pela França aos Estados Unidos, mas nunca foi aceita pelas americanas antifascistas como uma figura feminina que expresse liberdade.
O poder se apropriou da estátua e do sentimento de liberdade do feminino expresso desde a Revolução Francesa. Todos nós estudamos isso no colégio. E ficamos sabendo que a liberdade, a igualdade e a fraternidade são mulheres.
Quem quiser saber mais, que procure historiadores que estudam ou estudaram a reação das mulheres americanas a esse presente. As mulheres sufragistas, que deflagram a luta pelo direito ao voto, sempre tiveram desprezo pela estátua.
A figura de Nova York tem o nome de liberdade, mas é desde a sua origem uma representação bajulatória ao poder econômico e político dos Estados Unidos, e não necessariamente das liberdades.
É triste, mas é a verdade que a História reafirma cada vez mais hoje e a todo momento. Essa estátua representa a imposição da arrogância, do dinheiro, da guerra e da morte. É desolador, porque nos apegamos a ela e desejamos que fale pelas mulheres.
A estátua de Nova York, se votasse, teria votado em Trump, e não em Kamala Harris. Não são poucas as abordagens críticas a esses monumentos que sequestram o feminino para, na dissimulação, expressar o poder masculino. A arte, em muitas das suas expressões, fez a mesma coisa em outras áreas.
A estátua da liberdade é talvez a maior expressão do poder do macho belicista branco americano, do supremacista hétero, da imposição de um império. E não das liberdades. Nunca das liberdades, nem das mulheres.
O corpo da mulher é apenas explorado, também nesse caso, para que se crie essa representação ‘feminina’. É uma casca. O poder, na sua essência, está na hegemonia do macho. A concessão desse macho dominador à mulher é apenas a da representação. É a realidade resumida ao simbólico: transformem a mulher em monumentos.
E aqui encerro minha participação nesse debate, porque não tenho o lugar de fala feminino e apenas escrevo porque me senti incomodado. O Cristo Redentor sabe: ele é mais feminino do que a estátua do imperialismo americano.

Diálogos da esquerda contemporânea:
_ Você viu que misoginia?! A estátua de Jesus, um homem, batendo na estátua da liberdade, uma mulher periférica, mãe solo, com filho neurodivergente?
_ Não é misoginia. A Estátua da Liberdade é homem e Jesus é mais mulher do que ela.
_ Lacramos!
_ Sim, lacramos! Monique Livre!
_ Aquela diva!
Diálogo de suposto esquerdista contemporâneo:
(-) Tchau, meu amor, vou até a banca pegar o meu exemplar do jornal favorito de todo esquerdista que se preza.
(-) Por que você insiste em continuar comprando a Folha se sabe que a família do Bolsonaro tem perseguido os donos de banca e compradores desse jornal? Pra eles, o fato de você sempre ter votado na direita pouco importa nessa hora.
(-) Não se preocupe, meu amor, vou na banca do Alfredo. Ele coloca a Folha dentro de sacos plásticos pretos para fazer de conta que é revistinha de sacanagem.
(-) Até logo, meu bem! Mas mesmo assim tome muito cuidado. Sei o quanto é importante pra você ter sua Folha pra provar que é de esquerda. Apesar de saber o que os Frias fizeram no verão passado.
(-) Que conversa é essa agora?
(-) Vai de uma vez, homem, e pare de se fazer de salame. Quem não te conhece que te compre.
Diálogos contemperâneos de esquerda:
(Moisés e Neri estão numa audiência pública, aguardando a fala da deputada Erika Hilton sobre como a escala 6×1 afeta mulheres negras e periféricas. Moisés tenta convencer Neri de que a Estátua da Liberdade merece apanhar.)
_ Não! Apesar de ser um estátua fincada no espaço geográfico do império, ainda assim, é a representação de uma mulher – diz Neri, nervoso.
_ Mas, Neri, veja bem, a estátua votaria em Trump se pudesse votar – argumenta, Moisés Mendes.
_ Ah, então ela não tem nem mesmo o direito ao sufrágio?
_ por enquanto não, pois as estátuas não votam. Quem sabe um dia a nossa querida deputada consiga pressionar o Congresso para que as estátuas possam votar.
_ Bom, mas por enquanto, antes desse dia chegar, precisamos defender as mulheres. E, sim, o ataque da estátua de Jesus à da Liberdade foi uma cena fascista e misógena! – Neri não dá o braço a torcer.
Moisés ainda afirma que as duas estátuas são pessoas trans, sendo a de Jesus, na realidade, uma estátua feminina e a Estátua da Liberdade a de um homem, mas nada convence Neri Malheiros, um militante de alta octanagem petista.
Moisés é brasileiro e não desiste nunca. Seu novo argumento é brilhante e desta vez derrete o coração do radical Neri Malheiros:
_ Neri, está sabe aqueles papéis que a Estátua da Liberdade segura? É um jornalão. É a Folha, Neri! A Folha!
_ O quê???!!!! Tem que matar essa vagabunda! A Folha emprestava kombis para a ditadura militar!!! – grita Neri. Tem que matar!
Diálogos de um suposto esquerdista contemporâneo.
(-) Boa tarde, Alfredo!
(-) Boa tarde, seu Rodrigo! Tudo bem com o senhor?
Rodrigo vira a cara como quem está olhando os periódicos pendurados e não responde. Como das outras vezes, acha que não deve dar espaço para o jornaleiro se intrometer em sua vida.
(-) O de sempre, seu Rodrigo?
(-) Sim. Quando estava chegando, vi aqueles dois indivíduos conversando na esquina novamente. Eles pensam que me enganam.
(-) Seu Rodrigo, se for quem estou pensando, são dois vizinhos daqui e também são meus clientes como o senhor.
(-) Sei não, Alfredo. Hoje em dia é melhor tomar cuidado e duvidar até da própria sombra.
(-) O senhor é quem sabe. Aqui está o seu pacote bem fechadinho. Fiz exatamente como o senhor pediu para não dar na vista.
(-) Aqui está. Pode ficar com o troco.
Rodrigo pega o saco preto e sai assobiando como quem não quer nada com nada. ‘Nem tão rápido para que não pensem que estou com medo e nem tão devagar para não pensarem que estou a desafiá-los’, conversa consigo mesmo.
Ao observá-lo ir embora sempre do mesmo jeito, o dono da banca também conversa com seus botões: ‘A quem esse sujeitinho paranoico e mal-educado pensa que engana com esse papinho besta de perseguição a quem compra a Folha. Quer mesmo é esconder a revista de sacanagem. Nunca nenhum proprietário de banca ou outro cliente meu se queixou de espancadores de quem compra o jornal.’
Você é um sujeito afastado dos problemas dos grandes centros urbanos. Quem colocava o jornal em uma sacola escura eram os jornaleiros, não era eu quem pedia.
Outra coisa: um rapaz, na Copa de 2014, mais novo do que eu, ao me vir chegar até o caixa, virou o jornal, desistiu de pagar e fingiu que ia olhar outras coisas com o periódico debaixo do braço.
Isso tinha a ver com a polarização sangrenta que tomou o país a partir de 2013, mas que você só ouviu falar porque está longe das capitais.
Já expliquei aqui que ao levar a Carta Capital e a Folha, um dono de uma banca grande, já em vias de falência, começou a me xingar.
Desmemoriado, você não se lembra que a Patrícia Campos Melo teve de fugir do país pela premiada reportagem sobre a máfia das fake news; não se lembra nem sentiu quando a Folha começou a faltar nas bancas por ordem de Eduardo e Carluxo.
Desmemoriado, você nem sequer se lembra que os petistas apanhavam nas ruas, ônibus do Lula tomava tiro em rodovias, militantes eram assassinados, havia briga em ônibus, restaurantes, universidades, bares…
Só um idiota para achar que a Folha protege o bolsonarismo.