Por que a imprensa esconde as quadrilhas da Serra investigadas na Operação Caritas?
Leio desde a tragédia com a queda do avião em Gramado, no domingo, todo tipo de abordagem crítica sobre o que a Serra do turismo e do entretenimento significa para o Rio Grande do Sul.
E se repetem as análises sobre o espírito dos negócios na região e sobre o que seria o cenário brega e artificial de Gramado e Canela, que tem até cópia de plástico da estátua da liberdade.
Há um contingente crítico que aponta sempre na direção de que existem excessos. Mas as observações geralmente ficam no que é visível.
Poucos lembram que há subterrâneos e podridão. Que há crimes graves envolvendo milhões desviados do setor público. E poucos dos que tentam ver essa vasta parte encoberta são jornalistas.
Jornalistas que falam e escrevem sobre o que seriam Gramado e Canela não sabem, ou se negam a saber, que uma investigação tenta chegar, há três anos, aos chefes de quadrilhas da região.
Gente poderosa que fraudava licitações e licenças ambientais, que superfaturava gastos com eventos e desviava até dinheiro da saúde. Com a participação de servidores públicos, empresários e agregados desse empreendedorismo.
A investigação chama-se Operação Caritas e envolve polícia e Ministério Público. E os jornalistas não querem saber dessa investigação. Jornalista gosta de debater a índole da prosperidade predatória e suas controvérsias.
Mas a Caritas não se presta a discordâncias e controvérsias. É um caso policial com fatos já comprovados, com dois secretários de Canela que já foram presos, com dezenas de envolvidos em organizações criminosas.
Mas os jornalistas, com as exceções (sempre elas) não tratam disso. Preferem as controvérsias. Por quê? Porque jornalistas já não sabem mais, ou não querem saber, como sabiam até pouco tempo atrás, dessas realidades incômodas.
Jornalista prefere polêmica e debate de teorias. O caso de Canela e Gramado, onde há áreas de encosta com deslizamentos e afundamentos, pela ocupação desordenada, é um caso policial. Não é controvérsia.
Podem perguntar. Mas e tu, o que tens feito para que isso mude? Eu já tentei fazer a minha parte, escrevi, levei portas na cara e cansei. Porque não tenho mais fôlego e paciência para esse tipo de trabalho. Mas muita gente tem ou deveria ter.
Tento, sempre que posso, escrever sobre a Operação Caritas, para que pelo menos quem me lê saiba que muita coisa está sendo feita para pegar as facções dos exploradores da Serra.
Mas imagino o sentimento de policiais e promotores que se dedicam a essa investigação, pela certeza de que foram abandonados pela imprensa. Enfrentam os poderosos, muitos dos quais com vínculos com a extrema direita, mas são quase invisíveis para o jornalismo e para a população.
Investigações policiais como essa só se fortalecem se tiverem visibilidade, que é o que Alexandre de Moraes e agora Flavio Dino tentam fazer com suas ações no Supremo contra o fascismo. Se ficarem escondidas, continuam andando, mas sem a força do suporte do jornalismo.
Minha solidariedade a quem ainda toca em frente a Operação Caritas, que a grande e a ‘pequena’ imprensa gaúchas preferem ignorar, enquanto jornalistas debatem se Canela e Gramado são cidades cafonas.
É uma polêmica bobinha, que não leva em conta o que a economia do turismo significa para milhares de trabalhadores de cidades estigmatizadas também pela ação de bandidos organizados.
Que o jornalismo se dedique ao que importa para que os moradores da Serra se livrem de pelo menos parte dos seus predadores. A Operação Caritas importa muito.
