FRANCESES VÃO INVADIR A AMAZÔNIA

Surgiu uma explicação ‘racional’ para a obsessão de Bolsonaro com a defesa da invasão de terras indígenas por mineradoras.
O Brasil precisa tomar conta da floresta antes da França. Os franceses estão prontos para se adonar da região.
É o que alerta um relatório do Ministério da Defesa chamado “Cenários de Defesa 2040”, divulgado pela Folha.
Não são os grileiros, os fazendeiros, os incendiários, as mineradoras estrangeiras e os assassinos de índios que tomarão a Amazônia. Precisamos conter os franceses.
Como diria a Damares: Oh, mon Dieu.

BOIS E ARMAS

Uma notícia dos nossos tempos tenebrosos, com chamada na capa da Folha:
Fogo na Austrália pode favorecer carne brasileira.
O país dos incendiários da Amazônia vai ganhar dinheiro com exportações para o país devastado por incêndios naturais.
Os criminosos brasileiros queimam a floresta para expandir campos de criação de gado e plantio de soja e são recompensados pelo crime com a compra de carne pelos que perdem seus rebanhos numa tragédia.
O bolsonarismo dá lucro para destruidores de matas (e de educação e cultura) e para vendedores de armas.
A mesma Folha mostra que professores da USP, alarmados com perseguições e desencantos provocados pelo golpe e pelo fascismo, estão pedindo exoneração ou licença não remunerada.
A universidade atacada, depreciada e invadida deixou de ser um lugar de trabalho e também de resistência para muita gente.
É um fenômeno a ser avaliado no Rio Grande do Sul, sob total controle da direita – com ramificações da extrema direita – em Porto Alegre e no Estado.

OS ÍNDIOS, OS INCENDIÁRIOS E NOTRE-DAME

Estão impressionados que Bolsonaro tenha dito essa barbaridade, pouco antes de viajar para a Índia:
“Cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós”.
Mas o presidente do Bradesco, Octavio de Lazari, disse essa outra em Davos:
“Assim como não podemos acusar a Austrália de ter queimado suas florestas ou o governo francês de não ter cuidado da catedral de Notre-Dame, o governo brasileiro não deve ser acusado de estar queimando a floresta indiscriminadamente. Não é isso que está ocorrendo”.
Essa da Notre-Dame é digna de um Abraham Weintraub. Nunca seria dita por Bolsonaro, porque Bolsonaro não sabe nem onde fica a Notre-Dame.

Guedes é o Roberto Alvim que deu certo

Paulo Guedes diz na maior caradura no Fórum de Davos: “As pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”.
Quis sugerir, como se falasse para a direita imbecil do Brasil, que os destruidores da Amazônia são os pobres, e não os traficantes de madeira, os grileiros, os latifundiários e os assassinos de índios.
E ainda defendeu a liberação sem limites de agrotóxicos, num evento em que a pauta é a proteção do ambiente.
Paulo Guedes é o Roberto Alvim que deu certo.

A Amazônia ou a catedral?

Um sujeito que é a cópia de Bolsonaro em Madrid, apenas com aquele glamour dos bacanas. Aproveito para dizer: leiam o Página 12, o jornal que mostra o que a direita argentina tenta esconder.

https://www.pagina12.com.ar/222998-el-alcalde-de-madrid-elige-salvar-a-notre-dame-antes-que-al-?fbclid=IwAR3ozRozW8fIYCfTnZtqemYMDaxUXDUkJ97K2Prjvjw59ANvvIbK3tYTFcA

O repórter e o fiscal

Quando me perguntam qual é o fundamento de ver o Fantástico, eu respondo assim: pra ver as reportagens de um jornalista de fundamento, o meu amigo Marcelo Canellas.
Ontem, Canellas e os repórteres Alan Ferreira e Marcos Silva mostraram a perseguição da bandidagem da floresta aos servidores do Ibama e do ICMBio que tentam defender a Amazônia. Bandidagem que tem agora o incentivo e a proteção do bolsonarismo.
Carlos Rangel da Silva, o fiscal de 70 anos, conduz e fecha a reportagem dizendo a Canellas, quase chorando, que deseja sobreviver para ver o neto, que vai nascer logo.
Silva é a imagem do servidor público abandonado e entregue pelo bolsonarismo aos bandidos da Amazônia.

Uma resposta possível

Senhor Bolsonaro
Em junho deste ano, numa decisão surpreendente para as esquerdas e para a direita sempre impune do Brasil, o senhor foi condenado a pagar uma indenização de R$ 10 mil à deputada Maria do Rosário por ofensas graves e covardes.
Era a forma de reparação por danos morais, em última instância. Um valor insignificante, mas que pelo menos representava uma punição a um grupo sempre protegido pela Justiça, do qual o senhor faz parte.
A condenação previa também a publicação de uma nota de reparação com pedido de desculpas. Esse pedido deveria ser divulgado em jornais e redes sociais por ordem da Justiça.
Para relembrar, o senhor havia dito, em 2014, que a deputada Maria do Rosário não merecia ser estuprada porque a considerava “muito feia” e não fazia seu tipo. Algo que para mim é assombroso, porque nunca uma autoridade cometeria esse tipo de agressão aqui a França, mesmo os líderes da extrema direita.
Fui informado agora, ao refletir sobre seu apelo para que eu pedisse desculpa por tê-lo chamado de mentiroso, que no dia 13 de junho o senhor publicou o que seria a nota de reparação. Mas, ao invés de pedir desculpas à deputada, o senhor repetiu tudo o que havia dito cinco anos atrás e ainda tentou justificar de novo os horrores da sua fala.
O senhor repetiu as ofensas, quando deveria admitir que havia errado. O senhor voltou a desafiar a Justiça que protege a direita brasileira e atacou de novo uma mulher forte, uma líder política, como atacou a minha esposa, sempre com o argumento de que são feias.
O que o senhor teme são as mulheres que podem representar alguma afronta às suas fragilidades de macho inseguro. Por isso atacou a deputada e agora riu da minha mulher, só porque ela tem mais idade do que eu.
Eu disse esses dias que o Brasil merece um presidente à altura do cargo. Seu país merece mais do que isso, o Brasil exige um homem de verdade em seu posto maior.
Li a nota em que o senhor agride a deputada e tive uma ideia. Vou usar sua tática e, ao invés de pedir as desculpas que o senhor deseja, vou reafirmar o que disse. Eu não devo explicações ao senhor e nunca fui condenado pela Justiça por ofensas tão repulsivas.
Por isso reafirmo. O senhor é mentiroso porque assumiu o compromisso, em conversa comigo, de cumprir os acordos de defesa do ambiente, e não tomou nenhuma providência quando os incendiários iniciaram a destruição da Amazônia, incentivados por seu discurso e suas ideias.
O senhor também é um mentiroso porque se elegeu mentindo. E porque descumpriu a decisão da Justiça e, quando deveria pedir desculpas à deputada Maria do Rosário, voltou a atacá-la covardemente.
O senhor gosta de atacar mulheres porque, para gente com o seu perfil e o seu caráter, incluindo seus filhos, elas são uma ameaça sempre presente, maior do que as representadas pelos homens.
Aproveito e peço desculpas aos que entenderam que, ao chamá-lo de mentiroso, eu fui brando demais diante das agressões, das violências, dos ódios e das discriminações que o senhor e sua família propagam.
Sem falsos abraços
Seu algoz francês
Paris, 27 de agosto de 2019.
(Sei que essa é a carta que muitos gostariam de ler, se Emmanuel Macron decidisse responder por escrito ao apelo de Bolsonaro para que peça desculpas.)