O pó no colo de Bolsonaro

O escândalo do traficante que pegou carona na viagem de Bolsonaro é mais do que um caso policial. Este é meu artigo quinzenal no Extra Classe.

https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2019/06/o-po-no-colo-de-bolsonaro/?fbclid=IwAR0Dksp3hGZDJIsrL-45wuw2KzQdc_N7w2Wc78eKkBKo7g_Hg3nCrKmlbEQ

AS PROVAS ELIMINADAS

A Folha entrega os pontos hoje ao admitir que não há como comprovar a autenticidade dos diálogos vazados da Lava-Jato, no escândalo Moro-Dallagnol denunciado pelo Intercept.
E só não há como comprovar porque Moro, Dallagnol e outros procuradores se desfizeram do aplicativo de mensagens Telegram.
Dallagnol e seus subordinados na força-tarefa admitiram solenemente que se livraram do Telegram em abril.
Ao descartar o uso do aplicativo, o usuário corre o risco de perder todas as mensagens armazenadas. É o que já disse várias vezes o próprio Telegram.
Moro, Dallagnol e os procuradores correram esse risco. Desfizeram-se do Telegram sob o argumento de que estavam sendo hackeados.
A eliminação das mensagens torna impossível cotejar os textos vazados com os arquivos originais. Se fosse numa investigação normal, uma sindicância poderia determinar se houve crime de ocultação ou eliminação de provas.
Mas não estamos tratando de um caso normal. Nada mais é normal no Brasil desde o golpe de agosto de 2016. Nada pode ser normal quando o vazamento de conversas revela que um juiz orientava um procurador, como se o acusador fosse seu subordinado.
Nada mais é normal num Judiciário em que magistrados consideram normal as ordens do juiz que orientava o procurador, porque dizem que todos eles fazem isso na maior normalidade.
Nada pode ser normal num país em que um avião da comitiva presidencial é usado por traficante de cocaína.

A agilidade de Moro

Sergio Moro, o chefe da Polícia Federal, levou mais de 24 horas para se manifestar sobre o flagrante de tráfico de cocaína dentro de um avião da comitiva presidencial.
Por que demorou tanto, se ele sempre foi tão ágil como juiz? Porque estava no Estados Unidos, no poderoso DEA, tratando de intercâmbios para combater o tráfico internacional (aí está ele na foto em pose de xerife).
Moro diz o óbvio na nota, que o caso deve ser investigado, mesmo que seja “uma ínfima exceção”:
“O militar preso com drogas em Sevilha é uma ínfima exceção em corporação (FAB) que prima pela honra. Os fatos serão devidamente apurados pelas autoridades espanholas e brasileiras. Como disse o PR Bolsonaro, não vamos medir esforços para investigar e punir o crime”.
Moro nunca foi de medir esforços.

O HOMEM DO PÓ

A direita bolsonarista e suas explicações. O sargento não era da comitiva de Bolsonaro. Não estava no avião de Bolsonaro. Desceu com outro avião em Sevilha, e o avião de Bolsonaro desceu em Lisboa. O sargento já viajou com outros presidentes, incluindo Dilma e o jaburu, e pode ter andando por aí com muambas sem ser flagrado. É apenas taifeiro (há anos não via essa palavra), ou seja, cuida da copa e faz serviços de garçom. Bolsonaro nunca comeu ou bebeu nada servido pelo taifeiro. Outros militares foram presos muito antes dele também por tráfico. Seria apenas uma mula a serviço de perigosos traficantes e não o dono da droga. É feio, narigudo e até é meio gordinho, e assim por diante.
O azar do sujeito é que ele não é amigo do Queiroz, porque nunca ninguém no governo falou mal do Queiroz.
Mas Queiroz, é claro, não lida com drogas, Queiroz apenas vende carros.

O JUIZ, O TRAFICANTE E OS CALHORDAS

O liberal que cheira cocaína e participa de simpósios sobre liberdades quer consumir sua droga, para ficar esperto, mas berra que traficante tem que ser preso e se possível morto.

O liberal cínico ataca, para consumo externo, quem fornece a droga que o mantém inteligente e competitivo com o patrão, com os amigos e com as mulheres.

Pois escrevo esse texto pensando no juiz Ramiro Oliveira Cardoso, que nunca vi. Sei da existência do juiz substituto da 4ª Vara Civil do Foro de Porto Alegre pelas notícias recentes que revelam a indignação de delegados e promotores, porque o juiz solta traficantes com quantidades de drogas que considera irrelevantes.

O juiz não manda prender esses miseráveis varejistas de esquina, invariavelmente jovens e negros, que se matam na disputa pelo mercado de coca e maconha da Grande Porto Alegre. Porque o juiz entende que não adianta prender.

Cardoso disse numa entrevista a Eduardo Matos, de ZH, que a repressão pega um traficante de rua hoje, com a maior facilidade, e quando ele é levado para uma delegacia, outro já o substituiu.

São jovens sem perspectivas, sem proteção do Estado, vulneráveis às tentações do tráfico. Essa gurizada lota as cadeias, onde o esquema de dominação das facções se aperfeiçoa e se reproduz.

O juiz diz: “O crime de tráfico não é um crime natural. Ele é um crime cultural e ele é temporal de determinado entendimento social. Ele não tem uma reprovação imediata, por exemplo, como um homicídio, como um estupro, como um roubo. Ele é um delito que pode ser que em alguns anos nem seja mais criminalizado”.

Agora digo eu: o traficante, principalmente esse da ponta, mesmo que trabalhe para alguém (e trabalha) é uma mão de obra barata de quem está à espera do que ele vende, o cheirador de coca. O traficante mandalete morre para manter seu espaço e seu cliente, sem custos para o cheirador.

E o cheirador, principalmente o liberal, esse que defende livre mercado, o que faz o cheirador? O cheirador pede que matem o traficante.

Cheira e pedem que matem. Que esfolem, que acabem com o traficante e suas famílias. E que outros os substituam e também sejam mortos.

O cheirador de coca moralista (muitos são contra o Bolsa Família para as mães de aprendizes de traficantes) é o mais cínico dos consumidores de vícios, incluindo cigarro, álcool, propinas e outras drogas.

O bacana consumidor de droga, dessa classe média movida a estímulos químicos, é um babaca. É para esse bacana e babaca que o juiz fala.

Há pouco, aconteceu uma gritaria parecida, quando uma mãe e dois filhos foram presos por tráfico em Charqueadas. O mundo da tradição, da família e da moral bolsonarista se levantou contra a mulher que usava os filhos para traficar.

E massacraram a mãe. A que vende drogas. Não a mãe que muitas vezes sustenta o drogado bem de dinheiro e fala mal dos traficantes imorais.

A humanidade se encharca de alguma droga desde tempos bíblicos. E vai continuar cheirando, bebendo, fumando. É um mercado ilegal em nome de uma ‘ética’ fracassada, de punições que não funcionam, de vinganças.

O tráfico mata, corrompe, abrevia a vida de adolescentes e vai continuar matando enquanto não admitirem que o sistema da tal ‘guerra às drogas’ é vencido, é antigo, é ineficiente, é fracassado e só pega negros e pobres.

Por isso entendo a posição do juiz que libera pequenos traficantes e desafia o sistema todo a enfrentar seus cinismos e suas demagogias diante do traficante invisível como expressão do que Jessé Souza define como a ralé brasileira.

Calhordas moralistas consumidores de drogas, admitam: o traficante negro, jovem, miserável, sempre trabalhou para vocês sem salário, de graça, sem FGTS, sem férias, sem 13º, e morre por vocês.

Quem vende e quem compra

O DataFolha fez há pouco uma pesquisa reveladora do que o carioca pensa da matança no Rio. Para 53% dos moradores da cidade, a violência é causada muito mais pelo consumidor de drogas do que pelo traficante.

Na pressa, pode-se dizer que é uma conclusão óbvia do moralismo geral, que agora joga a ‘culpa’ em quem consome, até porque a Globo teria glamourizado os traficantes com a figura sedutora do Sabiá. Talvez não seja.

Se não houvesse demanda por droga, não haveria tráfico. E sempre haverá alguém querendo se drogar, com ou sem repressão. A droga dita ilícita é um produto com mercado, como qualquer outra droga lícita, como cigarro ou cachaça.

E a droga da violência é a cocaína. A cocaína é a droga do capitalismo financeiro. A maconha sempre foi a droga da contemplação, da arte, da sutileza e das utopias. A cocaína é a droga da pressa, do resultado e do egoísmo liberal.

A cocaína é a droga utilitária de quem quer ficar esperto para ganhar mais, mesmo que não seja dinheiro. A cocaína é pragmática, é a droga do neoliberalismo que não sabe perder.

O mercado, esse mesmo mercado que diz regular nossas vidas, que sustenta golpes, que determina movimentos de governos corruptos, que faz subir e descer o preço do dólar e da propina, esse mercado sabe bem o que é o mercado da cocaína.

Os homens do mercado, que cuidam de ofertas e demandas, de especulações, de ações, de riquezas gasosas, de blefes, sabem que, assim como seu mercado da grana, o mercado do pó é amoral.

Mas a oferta e a demanda por droga são mais liberais do que o mercado do dinheiro. O mercado do dinheiro, por mais liberal que se declare, mama no Estado e dele depende para sustentar seus rentistas e corromper e ser corrompido.

O mercado do dinheiro é por isso mesmo mais amoral do que o mercado da droga. O mercado da droga mata sem subterfúgios. O mercado do dinheiro dissimula, mas também aniquila e mata. Tudo na legalidade.

Os traficantes, pelo que se sabe, jogam com mais transparência com seus clientes. E ninguém sabe de traficante que ganhe o equivalente a 500% de juro ao ano.

Banco é o único negócio do mundo capitalista que no Brasil estrangula e mata o cliente, porque cada morto em seu cadastro será substituído por dois ou três que morrerão mais adiante.