LEÃO SERVA E O JORNALISMO CORDIAL

O diretor da TV Cultura, Leão Serva, recorreu a uma lei não escrita que daria aos jornalistas o direito a foro privilegiado diante de críticas de colegas.

Serva disse que Glenn Greenwald foi “indelicado” ao defender que um jornalista do Intercept participasse da bancada que vai entrevistar o ex-juiz da Lava-Jato no Roda Viva.

O apelo de Greenwald parece razoável. As arbitrariedades de Sergio Moro na Lava-Jato foram expostas pelo Intercept.

Não há nenhuma indelicadeza. Jornalista avalia e critica Jesus Cristo, políticos, jogadores de futebol, feministas, médicos, engenheiros, professoras, artistas, gente de todas as áreas e profissões (principalmente se o criticável for de esquerda), mas são sensíveis a críticas.

O jornalista seria um ente num pedestal, imune a todo tipo de ataque, incluindo o de colegas. É muito infantil.

Corre no meio, desde Gutenberg, uma frase que não é apenas a expressão do corporativismo mais rasteiro, mas de uma certa covardia: colega não critica colega.

Por que não? Leão Serva se coloca no grupo dos que se consideram intocáveis. Não há intocáveis em nenhuma área.

O diretor da Cultura sabe que Greenwald elevou o nível de atrevimento do jornalismo brasileiro por seu trabalho reconhecido mundialmente.

Greenwald disse agora, antes de outros prifissionais da imprensa, o que precisa ser dito: que o Roda Viva poderia reunir uma turma de jornalistas-escadas para facilitar a vida do inseguro chefe da Lava-Jato.

Moro não precisa de proteção e das delicadezas do jornalismo cordial. É o contrário. Nós todos dependemos do jornalismo corajoso como defesa contra os desmandos de Sergio Moro e do bolsonarismo.

Jornalistas cobram transparência de ocupantes de funções públicas, mas se incomodam quando alguém pede que sejam transparentes. Nenhuma atividade é mais pública e exposta do que o jornalismo.

Vamos lá, Leão Serva. Não houve nenhuma indelicadeza por parte de Greenwald. Faça um esforço, aceite a crítica e seja menos sensível e delicado.

NECROJORNALISMO

Augusto Nunes, que ataca até os mortos ligados aos seus inimigos políticos, levou um no queixo, desferido pela colunista da Folha Monica Bergamo.
O necrojornalista atacou os parentes mortos de, para cutucar Monica, e teve de ler essa:
“Deixe de usar crianças e pessoas mortas para atingir quem você não gosta, Augusto Nunes. Não percebe que isso é asqueroso?”
Nunes queria que Lula saísse da masmorra de Curitiba e fosse visitar os túmulos dos seus mortos (de dona Maria Letícia, do neto, do irmão). Nunes pretendia determinar o roteiro de Lula em liberdade.
Augusto Nunes ataca mortos, ataca Maria do Rosário, ataca Glenn Greenwald, para fazer média com os Bolsonaros. Mas os Bolsonaros ignoram a bajulação.
Nenhum Bolsonaro dá bola para os túmulos de notas maldosas de Nunes, o mais rococó dos jornalistas brasileiros.

O SUJEITO QUE É SUBSTANTIVO E ADJETIVO

Antes de dar o soco-tapa em Glenn Greenwald, Augusto Nunes cometeu outras agressões, não só contra os filhos do diretor do Intercept. Nunes agride o jornalismo há décadas, sempre como pavão do adjetivo.
Todo texto de Nunes tem pelo menos uma dúzia de adjetivos em cinco linhas. Tudo para Nunes é superlativo. E todo texto só funciona se for rococó. A direita adora o rococó.
Tem jornalista rococó, político rococó, cúmplice de político rococó. Nunes é o mais rococó dos jornalistas brasileiros. Assim como o gestor gaúcho é o mais rococó dos bolsonaristas disfarçados. Rococó é meu adjetivo preferido.
Nunes deixou em Porto Alegre os seguidores da sua escola. Influenciou uma geração que copia seu estilo. Para Nunes, uma pessoa nunca está espantada, mas estupefata.
Tudo que Nunes escreve é grandioso. Se for para elogiar Bolsonaro e Moro, Nunes recorre a adjetivos que qualquer escola de jornalismo condenaria. Claro que não vou reproduzi-los aqui.
Nunes inspirou jornalistas que imitam seus textos gongóricos e provocou um estrago no jornalismo gaúcho. Os imitadores são melhores do que ele, porque aperfeiçoaram o estilo.
Hoje, seus discípulos já não são tantos, porque os primeiros gastaram todos os adjetivos. Mas alguns chegaram a imitar até o jeito de caminhar do cara que agrediu Glenn.
Nos textos de Nunes, um substantivo não existe sem um adjetivo. O próprio Nunes é um adjetivo.
Não vou chamá-lo por nenhum dos que ele usa contra Lula e que usou contra Glenn.
Vou usar um que Glenn usou contra ele e que tem a vantagem de ser, ao mesmo tempo, substantivo e adjetivo. Covarde.

MEIO VALENTE

Foi frouxo, sem convicção, o tapa de Augusto Nunes em Glenn Greenwald, na briga que aconteceu hoje em debate na Band.
O próprio jornalista americano disse que foi um tapinha. O que Augusto fez com força, com convicção, foi o ataque a Glenn e ao deputado David Miranda, ao acusá-los de que não cuidam dos filhos.
Glenn havia dito que o lavajatista-bolsonarista Nunes é um covarde por envolver seus filhos. E Nunes respondeu com o tapinha. Talvez tenha faltado força para ser mais valente.

SEJAM JORNALISTAS, ESTÚPIDOS

Alguém perguntou a Glenn Greenwald, ontem no Roda Viva, o que ele faria se soubesse que pagaram o hacker para ter acesso às conversas escabrosas da Lava-Jato.

A resposta deveria ser estudada já a partir de hoje em aulas de jornalismo: jornalista não é polícia.

Jornalista divulga informações relevantes, de interesse público, obtidas legal ou ilegalmente. Aqui e em qualquer democracia (ou deveria ser assim também no Brasil).

O que não pode é comparar hacker com autoridade que faz vazamentos seletivos de informações do próprio trabalho para tentar favorecer ou comprometer uma das partes, como fizeram na Lava-Jato.

Outro bom momento foi quando da pergunta sobre os estragos que os vazamentos podem causar na Lava-Jato, se eventualmente beneficiarem já condenados.

A resposta: Sergio Moro e seu pessoal se consideram acima do bem e do mal, a ponto de achar que qualquer informação que os contrarie pode conspirar contra feitos que consideram inquestionáveis? A verdade absoluta está sempre com eles?

Resumindo, Glenn Greenwald deu boas lições à atrapalhada bancada de jornalistas que tentou cercá-lo de todas as formas.

Tentem ser menos oficialistas, menos policialescos, menos governistas e menos lavajatistas. Sejam jornalistas.

SERGIO MORO E O HOMEM-MOSCA

Sergio Moro pode estar mesmo pensando: se encarcerou Lula, por que não poderia mandar prender Glenn Greenwald, o diretor do Intercept? O ex-juiz tem um porta-voz para tentar criar confusão com a prisão dos hackers e disseminar a ameaça de prisão do jornalista.

A tática, desde antes da identificação dos estelionatários, é manobrar para conectar os manos de Araraquara ao vazamento de suas conversas escabrosas com Deltan Dallagnol.

Moro usa o site O Antagonista, porta-voz do golpe, da Lava-Jato e de Bolsonaro, para antecipar cada ação da sua polícia. O ex-juiz ou seus prepostos mandam o site de Diogo Mainardi atemorizar Greenwald e avisar sobre o que estaria sendo feito.

Foi o site de Mainardi, o homem-mosca, que informou que o Coaf estaria investigando as movimentações financeiras do jornalista (que o Coaf não confirma, talvez porque sejam clandestinas).

Foi o mesmo site que informou sobre investigações que envolveriam o deputado David Miranda. O Antagonista persegue Miranda porque é de esquerda, é gay e é casado com Greenwald.

O site avisa agora que podem prender Greenwald a qualquer momento. Mainardi sabe tudo da Lava-Jato e faz o trabalho sujo que a Globo não se arrisca a fazer, inclusive mentindo.

O homem-mosca é funcionário da Globo, que há meses se encolheu na cobertura do caso do Queiroz e entregou aos seus humoristas a tarefa de ridicularizar a extrema direita no poder.

Muito riso, muita brincadeirinha com o fascismo, mas nada de jornalismo. A Globo terceirizou ao pessoal do humor os ataques aos seus inimigos no governo.

É assim quer os humoristas dos Marinho acabam por popularizar e humanizar os Bolsonaros, o pai e os filhos. Pois Mainardi trabalha para a Globo e ajuda Moro num momento decisivo.

O ex-juiz tem de agir logo, antes do julgamento pelo Supremo da ação que levanta sua suspeição na Lava-Jato. Por isso acharam os hackers.

Mas o chefe de Dallagnol teria coragem para mandar prender o jornalista, com a ajuda de um juiz amigo, sob a acusação (que já está circulando) de que o Intercept é receptor e cúmplice dos vazamentos? Talvez não, porque sabe que seria massacrado pelas reações internacionais.

O que Sergio Moro conseguiu com a quadrilha de hackers trapalhões foi empurrar a Lava-Jato para a zona do riso, como a Globo faz com o bolsonarismo.

Todas as notícias sobre a tal gangue de hackeadores provocam gargalhadas. A Lava-Jato virou um pastelão.

GREENWALD É CRUEL COM AS TARAS BOLSONARISTAS

O jornalista Glenn Greenwald cometeu a maior crueldade com os militantes da extrema direita nas redes sociais. Ao dizer que o Intercept não irá divulgar mensagens que contenham intimidades do pessoal da Lava-Jato, Greenwald cortou o barato do bolsonarismo.

O jornalista deixou claro que não fará com Moro, Dallagnol e suas turmas o que Moro fez com Lula, ao grampear e enviar para a Globo diálogos sem nenhuma conotação política. Essa decisão do Intercept foi anunciada desde o começo, mas a extrema direita ainda tinha esperança.

Os bolsonaristas querem mensagens que acionem suas taras. Os textos falsos que estariam circulando pela internet, com informações sobre intimidades de lava-jatistas, mexeram com as fantasias dos adoradores de Bolsonaro.

Muitas das analogias primárias que eles tentam fazer, para refletir sobre qualquer assunto, passam pela ideia da sacanagem. O próprio Bolsonaro é o autor da frase que melhor expressa essa fantasia doentia. “O Brasil é uma virgem que todo tarado quer”.

Machismo, estupro, homofobia, violência são componentes presentes publicamente nas taras da extrema direita. Por isso Greenwald frustra muita gente excitada ao sonegar a possibilidade de divulgação de mensagens íntimas.

O bolsonarista quer mensagens íntimas, as mais devassas possíveis, mesmo que sejam contra os gurus deles. Eles só conseguirão entender o que se passava na Lava-Jato se tiverem acesso a sacanagens.

O bizarro é o combustível do fascista. Como o Intercept não irá divulgar nada do que eles pedem, é provável que eles mesmos passem a criar mensagens com suas obsessões. O fascista é um depravado exibicionista e insaciável.

O TCU FOI ENROLADO

O Tribunal de Contas da União caiu no conto do Coaf. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras, que Moro queria sob seu controle mas ficou com Paulo Guedes, não disse nada com nada na resposta que deu ao TCU sobre a suspeita de investigação das movimentações financeiras do jornalista Glenn Greenwald.
Não diz se investiga nem se não investiga e faz uma enrolação pretensamente jurídica de por-isso-e-por-aquilo.
Agora, resta saber se o TCU e o Ministério Público, que acionou o tribunal para que cobrasse explicações do Coaf, vão ficar quietinhos e resignados, como ficam quase todos os que temem o bolsonarismo.
Se ficarem silenciosos, é porque se entregaram ao comando de Sergio Moro, como o Supremo se entregou ao golpe (que chegou a presidir, solenemente) e à Lava-Jato (que sempre fez o que quis).
Um outro órgão, se é que existe, poderá exigir a informação que o Coaf nega? Glenn Greenwald está ou não sendo bisbilhotado pela polícia política de Sergio Moro?
Sim ou não? Quem tem coragem para cobrar essa resposta, mesmo que, pelo próprio negaceio do Coaf, parece que a pergunta já foi respondida?
Greenwald sabe o que os próprios ministros do TCU desconfiam e já foi relatado pela Folha: é quase certo que o diretor do Intercept está sendo investigado em ações de arapongas. Formalmente, essas “sindicâncias” nunca irão aparecer.
Mas um dia os servidores republicanos terão de contar o que acontece sob o regime bolsonarista, ou alguém acredita que todos eles foram cooptados pelo esquema? Que falem logo.

AMEAÇAS E ARAPONGAGENS

Mais uma denúncia contra os métodos de Sergio Moro. A jornalista Monica Bergamo, que ele define como colunista social, informa hoje que a notícia da investigação do Coaf contra Glenn Greenwald, do Intercept, é vista por ministros do TCU como uma ameaça de gente ligada ao ex-juiz.
O aparelhamento do Estado teria chegado ao ponto de provocar a divulgação de falsas notícias saídas de dentro do governo contra inimigos do bolsonarismo.
O site Antagonista consagrou-se como o porta-voz dos milicianos que ameaçam Greenwald quase todos os dias.
O TCU aguarda do Ministério da Fazenda a informação sobre a possível sindicância em torno das movimentações financeiras do jornalista.
A investigação talvez não seja formal, e aí Paulo Guedes dirá ao TCU que não há nada, que ele, e não Moro, é quem comanda o Coaf.
Mas os arapongas de Moro podem estar trabalhando por fora, de acordo com os métodos da Lava-Jato. É o que diz a Folha.
E o ex-juiz preparando as malas para sair de férias e reenergizar o corpo.
É hora de ler e reler sobre os métodos do nazismo e do fascismo.

A PERSEGUIÇÃO A GLENN GREENWALD

É complicada a situação de Sergio Moro no caso da anunciada investigação das movimentações financeiras do jornalista Glenn Greenwald.

O Ministério Público Federal determinou que o Tribunal de Contas da União apure se o jornalista é de fato investigado pelo Coaf. O TCU já determinou que o Ministério da Fazenda esclareça com urgência se a sindicância existe.

Por que Moro fica numa situação delicada? Se a informação for confirmada, ficará provado que o jornalista está sendo caçado pelo governo.

Segundo: Moro terá de esclarecer se foi ele quem determinou a investigação, que teria sido acionada pela Polícia Federal, que está sob seu comando. Terceiro: como o site O Antagonista ficou sabendo da investigação e deu a notícia como furo?

Se o Coaf disser que não investiga o jornalista, o mesmo Antagonista fica numa situação complicada (mais uma vez) porque terá plantado uma informação como ameaça ao jornalista que denunciou, pela divulgação das conversas da Lava-Jato, o criminoso conluio de Moro com o procurador Deltan Dallagnol.

De qualquer forma, com a confirmação ou não da bisbilhotagem, continuará a suspeita de que Moro teria aparelhado o Ministério da Justiça para perseguir inimigos, como vários deputados denunciaram quando do depoimento do ex-chefe de Dallagnol na Câmara.

O aparelhamento teria o suporte de sites que desde o golpe tentam proteger a Lava-Jato. O Antagonista, de Diogo Mainardi, serviçal da extrema direita, é a principal trincheira, com franquias informais de apoio a Moro espalhadas pelo Brasil, incluindo o Rio Grande do Sul.

Há jornalistas de toda parte fazendo o marketing da Lava-Jato, alguns sem qualquer disfarce, como fizeram quando do golpe. Para eles, Moro é exemplo de juiz e de correção.

Mas é possível prever o que já aconteceu com outros gurus da direita. Se Moro cair em desgraça, eles saltam fora logo.

A direita joga os seus fracassados na sarjeta, como jogou Aécio, Serra e Cunha. Sergio Moro já está na fila.