O fascismo e os covardes

É cada vez mais sem sentido a ameaça de que um dia a História vai cobrar a conta dos omissos e colaboracionistas desses tempos tenebrosos.
É provável que no fim a História não cobre mais conta nenhuma, como costumava fazer até o século 20.
Mas é bom que se diga que todos sabemos quem ficou quieto diante do teatro nazista do bolsonarismo e quem continua quieto e encaramujado diante do ataque às liberdades (não só da imprensa) com a ameaça de processo contra Glenn Greenwald.
Todos sabemos, há muito tempo, quem se encolhe diante do fascismo, por algum interesse objetivo ou difuso, por vantagem econômica e financeira, por ignorância ou por covardia mesmo.

A AGILIDADE DE UM JUDEU ATRASADO

Hélio Schwartsman, um dos principais colunistas da Folha, um dos defensores do golpe de 2016 e agora um dos jornalistas retardatários antiBolsonaro, apresenta-se também como pregador judeu indignado com os extremismos da família e seus cúmplices no poder.

Com mais de dois anos de atraso, ele escreve hoje na Folha, deixando claro que se manifesta na condição de judeu:

“(…) na condição de membro relapso da comunidade judaica (não fiz bar-mitzvá e não acredito em Deus), confesso-me intrigado ao ver judeus apoiarem um político extremista, em especial um que minimiza a importância dos direitos humanos e de minorias e faz pouco das garantias do Estado de Direito. Até por razões epigenéticas, judeus deveriam manter-se tão longe quanto possível desse gênero de dirigente, situe-se ele à direita ou à esquerda”.

Só agora esse apelo, senhor Schwartsman? Só agora essa contundência? Só depois da teatralização nazista de Roberto Alvim?

Muito antes, quando Bolsonaro se exibiu para a comunidade judaica, em evento de abril de 2017 na Hebraica do Rio, debochando dos negros e anunciando que iria caçar índios, poucos se levantaram.

Muitos dos reacionários que estavam na palestra gargalhavam em êxtase.

E só agora o senhor faz um apelo à comunidade, em nome de uma ética genética? Antes, não? Antes Bolsonaro não incomodava os judeus?

Schwartsman deveria conhecer judeus gaúchos, que sempre assumiram posição corajosa diante do bolsobarismo e que hoje irão rir da sua pregação retardatária.

Esses bravos não precisam da retórica oportunista do cara que vira antibolsonarista porque Alvim passou dos limites e porque o jornal em que trabalha trava uma guerra com Bolsonaro.

Estaríamos todos condenados, se ficássemos à espera de alertas como esse sobre a índole nazista do bolsonarismo.

VALENTES PELA METADE

Todos os que se revoltaram contra o vídeo nazista vão dizer alguma coisa sobre outras falas fascistas do governo? Ou só se manifestam contra pregações do nazismo?
Os liberais brasileiros, os empresários e os jornalistas fofos continuarão mudos quando Bolsonaro e os filhos defenderem torturadores e a ditadura?
O vídeo do nazista serviu para denunciar os cínicos e os oportunistas. Incluindo altas autoridades do Supremo e do Congresso e gente da área das celebridades.
Condenar um nazista subalterno é fácil. Queremos ver os indignados atacando também os chefes fascistas dessa gente.
Ninguém espera que sejam valentes, mas apenas menos covardes.

NAZISTAS E ANALFABETOS

Um dia é dos nazistas e o outro é dos analfabetos do governo. Eles vão se revezando.
Escreveram “vizualizações”, assim mesmo, com Z, na página do Inep, o órgão que cuida das provas do Enem.
É só mais uma barbeiragem grosseira da área da Educação, com E maiúsculo. O ministro Abraham Weintraub já escreveu “impreCionante”, “paraliZação” e “inSitar” e trocou Kafka por kafta.
Eles estão num ritmo forte. E ainda tem Eduardo Bolsonaro, que comete uma dúzia de erros em três linhas no Twitter.
O melhor de todos, o que não erra, é o Queiroz, mas o Queiroz anda sumido. É uma pena.
Escreve alguma coisa aí, Queiroz.

A PERFORMANCE E A MORTE

É só uma provocação para meus amigos de todas as artes da representação. Há no olhar de Roberto Alvim, do início ao fim do vídeo que o derrubou, o brilho de quem se extasia com um experimento adiado por anos, talvez décadas.
Alvim conseguiu o que poucos diretores conseguem, ele dirigiu a própria performance. Dito de outra forma, ele determinou que o ator se impusesse diante do diretor.
Cuidou do roteiro, do texto, do cenário. Foi o dia de Orson Welles de um cara que via os outros atuarem e que, dizem, estava enfarado de dirigir. Alvim atuou no seu suicídio como artista durante pouco mais de cinco minutos.
Foi sua única e grandiosa performance como ator e à moda antiga. E que ele queria que fosse mesmo em preto e branco.
No final, um meio sorriso e, para ser pop e provocativo, uma piscadinha tipo William Bonner.

A DIREITA DERRUBOU O GOEBBELS TRAPALHÃO

Não se enganem os que acham que Roberto Alvim foi degolado por exaltar os maiores criminosos do século 20. Tampouco acreditem que ele foi mandado embora por pressão das esquerdas. As esquerdas só bateram tambor e tocaram a corneta.

Alvim foi dispensado porque se transformou num estorvo ao exaltar os nazistas. Citou como inspiração um tipo de criminoso que não deveria ser elogiado, não daquela forma.

Se tivesse elogiado torturadores e ditadores, como o próprio Bolsonaro e os filhos fazem, se dissesse que a arte nacional seria inspirada no vigor moral do coronel Brilhante Ustra, nada teria acontecido.

Alvim montou o teatro da idiotia ao caminhar em direção ao nazismo e mexer com a memória do Holocausto. Acabou sendo um Goebbels trapalhão por um dia.

O cenário do vídeo, o tom assertivo, o texto nazista, tudo induzia a uma farsa: esse é o cara que pretende montar a estrutura fascista – com teatro, método e discurso – da área cultural do governo.

Alvim fala no vídeo com a certeza de que aquela é apenas sua primeira aparição arrasadora, a sua estreia. Caiu por ser um aprendiz de nazista.

Não teve ninguém ao seu lado para alertá-lo: ataque as esquerdas, elogie torturadores, defenda tudo o que Sergio Moro exalta, mas não caia na tentação de se expor como nazista. Deixe que o nazismo seja algo dissimulado num governo que constrange milhões de judeus por oferecer e ter o apoio da extrema direita israelense.

Alvim é tão ingênuo (não vamos usar a palavra certa, por ser óbvia demais) que se sentou em cima da própria bomba. O tema do nazismo é para ser sugerido, e não escancarado pela extrema direita. Mas o imitador imitou até o cabelo e a postura de Goebbels.

Alvim mexeu com o poder empresarial brasileiro e mundial, com Israel, com os judeus que não aguentam mais ser parceiros de um governo de caráter nazista. E talvez tenha passado do ponto por ser um cara do teatro.

Alvim foi teatral demais e acabou sendo derrubado, não pelos inimigos, mas pelos próprios amigos do bolsonarismo. As esquerdas gritaram e denunciaram o nazismo presente no vídeo, mas não foram as esquerdas que derrubaram Alvim.

As esquerdas não conseguiriam derrubá-lo. O sujeito foi sacrificado pela direita poderosa, que até tolera ver o governo falando de tortura, de ditadura, de arbitrariedades, mas não exaltando o nazismo.

Bolsonaro poderá, já a partir de amanhã, voltar a elogiar Ustra e todos os torturadores seus amigos. Não acontecerá nada.

NAZISMO, COLABORAÇÃO, OMISSÃO E IGNORÂNCIA

Aos que ainda se surpreendem com o caráter nazista do governo e com a performance de Roberto Alvim imitando Joseph Goebbels, este depoimento poderoso, de 1945, de Telford Taylor, coronel americano e um dos acusadores dos julgamentos de Nuremberg:
“Como muitos outros, eu era um completo ignorante sobre os campos de extermínio em massa na Polônia, e a compreensão completa do Holocausto só desabou sobre mim vários meses mais tarde, em Nuremberg”.
No Brasil do bolsonarismo, vai ficando cada vez mais evidente quem é protagonista, quem dá suporte na imprensa, entre empresários e nas instituições, quem se omite e quem ainda diz ignorar a estrutura de extrema direita que aparelhou o Estado.
Roberto Alvim já disse que imitou Goebbels por acaso. Demitido, abandonado e jogado na sarjeta, mais adiante poderá alegar obediência devida.
Alvim foi imbecil ao mexer com o nazismo e a memória do Holocausto num governo que faz (em nome do apoio dos neopentecostais) o jogo da extrema direita fascista israelense.

TEM UM ZECÃO AÍ AO SEU LADO

Uma pergunta que vem do domingo e seguirá adiante durante toda a semana: por que o homem com a braçadeira da suástica, flagrado num bar de Unaí (Minas), não foi incomodado por ninguém?

Há uma resposta da polícia militar. Os policiais se sentiram inseguros, porque não sabiam como lidar com o caso. Pregar o nazismo é crime, mas eles não tinham certeza de que poderiam prender o homem.

Essa é a explicação da autoridade, mas não dá a pergunta por respondida. Hoje, as autoridades têm as piores respostas.

A pergunta mais ampla é esta: por que, além da polícia, ninguém fez nada para pelo menos afugentar o sujeito? Não com uma reação de cordialidade, do tipo ‘por favor, o senhor queira se retirar’, mas uma reposta enérgica ao tamanho da ofensa.

Como alguém com uma suástica no braço senta-se num bar, não pede nada, vê que a polícia até apareceu para incomodá-lo (mas a polícia nada fez) e vai embora como se estivesse circulando com um escudo do Flamengo?

Saiu sem ser perturbado e foi apenas fotografado porque era branco e, sabe-se agora, um fazendeiro, o cidadão de bem José Eugenio Adjuto, o Zecão.

Um pregador do nazismo sai de casa com o adorno no braço e circula sem incomodação. Porque é branco e fazendeiro. E bolsonarista.

O brasileiro pode estar se acostumando ao ambiente de fascismo e nazismo das redes sociais e da retórica das autoridades da extrema direita, ou talvez, por hipnose, resignação e ignorância, ache que isso sempre foi legítimo e normal.

O homem da suástica pode reaparecer a qualquer momento em outras cidades, com outro rosto, mas sempre branco, nem sempre rico, mas muitas vezes se achando rico. Até porque ele é produto do mesmo bolsonarismo que faz média com os judeus.

O mesmo Bolsonaro que, por interesses diversos (incluindo os interesses neopentecostais), diz defender Israel é o que empodera, por falas e ações, figuras como o fazendeiro nazista. Zecão é um bolsonarista puro.