Um economista desmonta a farsa que sustenta o juro alto

É mais do que esclarecedora, é demolidora a entrevista que o economista Winston Fritsch concedeu à Folha essa semana. Um dos pais do Plano Real esclarece pelo que diz e pelo que não precisa ser dito. Isso é o que ele diz:

“Não se pode dizer que os juros estão onde estão por causa do fiscal. É por causa do choque da inflação pós-Covid. A resposta do Banco Central, independente, foi dada um ano antes dos Estados Unidos, e foi muito violenta. Mas funcionou. Só que, agora, para baixar, começa o lero-lero de ‘pô, olha o fiscal’. Mas não foi o fiscal que fez a taxa subir. Foi o choque exógeno da inflação. E com os juros americanos de curto prazo a 5,5%, não dá para baixar muito por aqui. Se baixa muito no Brasil, tem êxodo de capital, o dólar vai para o espaço. É o que está acontecendo”.

O resto é complemento do seu argumento e nem precisaria estar aqui, para que se saiba o que ele não disse. O que Fritsch deixou subentendido é que toda a conversa sobre questão fiscal, que sustenta a argumentação do mercado, do Banco Central e da grande mídia, é uma farsa.

A questão fiscal não deveria ser usada para explicar a atual calibragem do juro. Mas é usada (e isso Fritsch não precisa dizer) para acossar e imobilizar o governo, jogá-lo às hienas da Faria Lima e criar manchetes com a sabotagem de Folha, Globo e Estadão.

O que fica claro na entrevista é que o argumento da direita é usado para inviabilizar o governo e culpá-lo publicamente pelo juro alto. Quem diz não é um economista de esquerda.

Vamos seguir em frente com a explicação de Fritsch, que leva a um desfecho arrasador:

“Toda vez que aparece a ideia de que o juro vai cair, o dólar sobe. Virou uma espécie de armadilha. Porque veio a crise, o juro subiu. Os americanos subiram, e temos agora um patamar que é dado pela conta de capital, não mais pela economia interna. Então, tem que ficar esperando o Fed (o BC americano) baixar o juro para a gente ir atrás”.

E chegamos então ao gran finale da entrevista, quando o entrevistador Fernando Canzian insiste em dizer que “o calcanhar de Aquiles continua sendo o fiscal”. Eis o trecho com a resposta:

“Agora, o juro está alto por causa do fiscal? Bullshit (bobagem). Está alto pela taxa do Fed a 5,5% ao ano. Mas aparece todo o discurso conservador da Faria Lima”.

Vamos repetir: a questão fiscal é uma asneira, uma conversa fiada, uma farsa. Mas mesmo assim o que prevalece, com a insistência em torno do corte de gastos, é “o discurso conservador da Faria Lima”.

Fritsch chama a defesa do arrocho fiscal, com cortes na educação e na saúde, como propõem os jornalões, de discurso conservador do mercado financeiro porque é uma pessoa educada.

É mais do que isso, é a pregação rentista, que concilia interesses imediatos dos donos do dinheiro com os interesses políticos da extrema direita articulada com Roberto Campos Neto.

O que Fritsch reafirma várias vezes é que o principal argumento para que os juros sejam altos é falso. O que ele não precisa dizer é que nunca antes um argumento pretensamente econômico do mercado financeiro e do BC se prestou tanto ao ativismo político de direita e extrema direita como agora.

Só o que faltou na fala de Fritsch foi uma referência direta a Roberto Campos Neto, que é apenas o capataz do mercado e está a caminho de colocação num emprego bolsonarista, como fez Sergio Moro.

A Folha deu à entrevista esse título: “Há tarefas inacabadas, mas juro alto não é problema só do fiscal, diz um dos pais do Real”.

Mas essa relativização, essa história de “não é problema só do fiscal”, não aparece em nenhuma frase e nem poderia ser usada como resumo da fala do economista. Fritsch não diz nada disso.

O que ele diz e vamos repetir aqui está na seguinte sequência de frases. Primeira frase: “E não se pode dizer que os juros estão onde estão por causa do fiscal”. Segunda frase: “Mas não foi o fiscal que fez a taxa subir”. E a terceira e definitiva frase: “Agora, o juro está alto por causa do fiscal? Besteira”.

O resumo da entrevista, para rimar com tapeação e bobagem, é esse: a conversa do déficit fiscal x juro alto é parte da sabotagem.

6 thoughts on “Um economista desmonta a farsa que sustenta o juro alto

  1. O Roberto Campos Neto está à procura de um emprego no setor público ? kkkkkkkkkkkkk Essa foi a PIADA DO ANO. Ele deve ter propostas de dezenas de bancos e corretoras de investimentos. Se há uma coisa que não falta na vida do Campos Neto é proposta de emprego. O grande drama da vida dele será ESCOLHER entre tantas propostas. O cara volta para o setor privado ganhando 10, 15, 20 vezes mais do que no setor público. Se bobear até o GOLDMAN SACHS entra neste leilão. Quem não quer um executivo deste alto nível e experiência ?

  2. Seja como for, a consequência é RIGOROSAMENTE a mesma: juros altos. O Brasil precisa rolar a sua dívida pública tanto quanto nós precisamos de água potável para sobreviver. Dívida pública não existe para ser paga, mas sim ROLADA. Substituir dívida velha com dívida nova. O que os investidores nacionais e estrangeiros esperam de um título da dívida pública de um país ? Simples, o binômio segurança e rentabilidade. E o Brasil oferece esse binômio. Se deixar de oferecer, vai haver fuga de capitais para outros mercados, principalmente os Estados Unidos. Então, por ora, não tem outra saída: Vai ter que se balizar pelo FED, mesmo.

  3. Como todo lambe-sac0 da extrema-direita, Bob fields grandson está deixando rolar juros estratosféricos para beneficiar os rentistas até sua saída do BC. Taí mais um bom exemplo do q é ser um entreguista.

  4. O André Cipoli nunca se lembra de que em 2015, com Dilma Rousseff, presidente da República e Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, a taxa SELIC alcançou os 14,25 %. Vou receitar vitamina B 12, zinco e magnésio treonato para melhorar a sua memória.

  5. Não tenho por hábito comentar comentários, mas, nesse caso, abrirei raro precedente para prescrever o mesmíssimo receituário (se é q vai resolver) ao missivista q me antecede, para q ele permanentemente se lembre de q a dinâmica econômica muda constantemente com os anos (menos a estática neoliberal, destruidora dos interesses populares e dos serviços públicos) e q estamos em 2024, não em 2015.

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