Os fantasmas da Luciana de Abreu

Ainda sobre os casarões da Rua Luciana de Abreu, demolidos ontem em poucas horas pela construtora Goldsztein. Desde as primeiras reações ao plano de demolição dos seis prédios, há mais de 10 anos, não teria sido o caso de a construtora parar para pensar? Mas parar mesmo.

Se entidades e a vizinhança do Moinhos, preocupadas com a memória da cidade, reagiram à ameaça de destruição, a empresa não poderia ter refletido sobre a agressividade e o constrangimento da ideia?

Além da suspeita de que as casas teriam valor arquitetônico, os construtores não poderiam ter medido também o valor afetivo do que pretendiam pôr abaixo? Ou mediram e não encontraram nada que os comovesse?

Por que derrubar algo que provoca reações tão fortes? Por que, às vésperas do Natal, demolir em uma tarde, com a pressa dos que fogem de algo que os assusta, os velhos casarões da Luciana de Abreu?

Por que Porto Alegre vai se enfeiando e maltratando sua memória e seus mortos? O que aconteceu com Porto Alegre que a levou a se transformar numa cidade em que tudo o que prevalece é o negócio a qualquer custo, como se fosse uma Aleppo dissimulada em conflito com seu passado?

Mas, como disse ontem aqui minha amiga virtual Joice Mittmann, os que derrubaram os casarões e os que testemunharam a demolição passivamente são os mesmos que admiram os prédios de Buenos Aires e postam no Facebook belas fotos em que aparecem sorridentes diante do casario de Korcula, na Croácia. São lindas as casas de Korcula.

Porto Alegre foi sequestrada pelos que pretendem desfigurá-la até virar outra cidade. Que a nova gestão da prefeitura não acelere esse processo, ou que as reações continuem e se fortaleçam, ou que os fantasmas despejados dos casarões da Luciana de Abreu atormentem seus agressores para o resto da vida.