Viver em Minas é um descuido prosseguido

Pobre Minas, submersa numa enxurrada sem fim, entregue aos cuidados de um cara chamado Romeu Zema, que fala como se estivesse exausto de tentar pensar.
E Belo Horizonte, pobre Belo Horizonte, transformada num valão que vaza por todos os lados, sob os cuidados de Alexandre Kalil, um cara que parece atropelado pelo que pretende estar pensando.
A direita de Minas já era um aguaceiro descontrolado antes do aguaceiro. Viver em Minas é um descuido prosseguido e perigoso.

(A frase final é, com pedido de desculpas pelo atrevimento, inspirada, claro, em Guimarães Rosa)

O HOMEM DA TAURUS

Onyx Lorenzoni quer ser governador. É a manchete da Folha. Nem o núcleo duro de Bolsonaro quer saber de Onyx.
Mas ele acha que os gaúchos podem elegê-lo. Toda a agenda do mais novo fritado da extrema direita é dirigida, na Casa Civil, a amigos do Rio Grande do Sul.
Onyx vem aí, gente. E pode então acontecer o que se passou com Sartonaro?
Para evitar a reeleição do gringo, votaram no gestor tucano fofo e rococó.
Pode ou não pode? Tudo pode. E Onyx tem a Taurus.

FOLHA CONFIRMA: FALTA CHEFE MILICIANO NA LISTA DE MORO

A Folha descobriu hoje o que o DCM havia descoberto ontem à tarde, em texto que publiquei no site, pouco depois da divulgação da lista de bandidos mais procurados elaborada por Sergio Moro. Não tem um miliciano graúdo na lista do ex-juiz. Não há um só chefão de milícia.
Hoje, a Folha confirma: Adriano da Nóbrega, foragido, acusado de participar dos esquemas de Queiroz e Flavio Bolsonaro, está fora da lista.
Parentes de Adriano eram empregadas de Flavio, que condecorou o miliciano com a Medalha Tiradentes da Assembleia do Rio. E Bolsonaro fez discurso na Câmara defendendo o ex-policial da acusação de homicídio.
Há dois outros ajudantes de milicianos (ambos considerados miúdos), na lista de Moro, sem a dimensão de Adriano. O Eko e o Tandero, o segundo é ajudante do outro.
Os dois são da Série C das milícias e foram usados como laranjas, para que Moro possa dizer que há milicianos na relação de procurados.
Mas falta na lista um miliciano graúdo, um chefão ligado aos Bolsonaros, e Adriano é um deles, sempre citado entre os suspeitos de envolvimento no assassinato de Marielle.
Outros milicianos chefões, alguns bem conhecidos, também não estão na lista porque ainda não são considerados foragidos.

Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre. Foi colunista e editor especial de Zero Hora. Escreve para os jornais Extra Classe, DCM e Brasil 247. É autor do livro de crônicas ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim)

A LISTA DOS BANDIDOS DE MORO NÃO TEM MILICIANOS

Depois de ver fracassar sua ideia do Programa de Defesa do Cigarro Nacional, Sergio Moro lança sua grande obra, a lista dos bandidos mais procurados do país.
Eis a mensagem do ex-juiz no Twitter:
“A SEOPI/MJSP elaborou, com critérios técnicos e consulta aos Estados, a lista dos criminosos mais procurados. A lista ajudará na captura, e segue a orientação do PR @jairbolsonaro de sermos firmes contra o crime organizado”.
O que vem a ser a SEOPI/MJSP? Talvez pouco interesse. O que importa são dois detalhes da mensagem: o primeiro é a bajulação dirigida a Bolsonaro.
O ex-juiz sempre se apresentou como o caçador de bandidos no governo. Agora, o chefe é o xerife atrás do crime organizado.
Só os muito entendidos conhecem os bandidos da lista. O jornal DCM anota que estão na relação Xixi, Pingo, Carcará, Patrão, Fuminho, Maria do Pó e João Cabeludo. Todos perigosos.
Moro nos oferece uma lista literária, com nomes que imitam personagens dos contos de João Antonio. Parecem bandidos do período romântico, dos anos 60 e 70, com apelidos, e não com sobrenomes, como os bandidos de hoje.
E os entendidos em bandidagem apontam para o segundo detalhe da lista de Moro: não há, entre os 26 nomes, um miliciano dos grandes, um só, no cadastro do ex-juiz.
Falta um chefão das milícias. Por quê? Talvez porque os milicianos têm sobrenomes.

SANTINI, OS ARGENTINOS E AS CAIXAS PRETAS

O ex-secretário de Onyx Lorenzoni que resistiu a deixar o governo deve saber de coisas que os Bolsonaros sabem que ele sabe. Os filhos tentaram proteger José Vicente Santini porque não seria bom mexer no arquivo de informações do amigo pelos serviços prestados à família.

Na Argentina, subalternos da direita também não se desapegam do poder. Ajudantes do macrismo, absorvidos pela estrutura estatal em cargos de confiança, se negam a deixar as funções que ocuparam a mando da direita.

O jornal Página 12 deu em manchete: “Gerentes e diretores macristas de empresas estatais não querem ir embora”.
É gente do segundo escalão e de funções intermediárias, que agora reclama estabilidade por conta de decretos assinados pelo governo de Macri.

Alberto Fernández venceu as eleições, mas não consegue se livrar da estrutura orgânica do macrismo que se apropriou do Estado.

Muitos continuam com os casacos nas cadeiras na Aerolíneas Argentinas, Pami (uma espécie de SUS-INSS argentino para aposentados e pensionistas), Anses (o órgão de previdência) e a empresa Trens Argentinos Infraestrutura Adifse, entre outros órgãos.

A maioria reclama que, se for mandada embora, terá de ser indenizada. Alguns exigem manutenção no emprego. Na Aerolíneas, de 30 gerentes que deveriam ser demitidos, cinco submeteram o governo a um acordo forçado (para que a reclamação não se prolongasse) e 25 continuam reclamando ‘direitos’, alguns deles ainda trabalhando.

São os zumbis do macrismo. Há reclamatórias com valores equivalentes a mais de R$ 10 milhões.

O liberalismo se apropria do Estado que diz detestar, como Bolsonaro faz aqui com o emprego de amigos dos filhos e de 2.500 oficiais em cargos de alto escalão. É mais do que o patrimonialismo da nova direita, é o compadrio sem escrúpulos da extrema direita.

Aqui, José Vicente Santini foi demitido e renomeado, em apenas um dia, e demitido de novo 12 horas após a segunda nomeação, porque a manobra para protegê-lo foi grosseira.
A soberba dos filhos de Bolsonaro os induziu ao erro de manter o amigo na mesma Casa Civil, sempre sob as ordens de Onyx Lorenzoni.

Na Argentina, alguns dos ajudantes de Macri que não querem ir embora são vistos como donos de caixas pretas. Eles se negam, por apego, mesmo que virtual, a se afastar do que produziram.

Temos o direito de saber se, no caso da tentativa de proteção a Santini, não há algo parecido envolvendo o que ele fez ou sabe que alguém fez dentro do governo.

O VIAJANTE AMIGO DOS GAROTOS

Precisamos saber o que José Vicente Santini sabe das entranhas do governo e como conseguiu a proteção dos filhos de Bolsonaro. Santini foi demitido hoje pela segunda vez.
O auxiliar de Onyx Lorenzoni foi exonerado na terça por Bolsonaro pela TV, ao vivo, pelas viagens a Davos e à Índia em jato da FAB com duas secretárias, e readmitido no dia seguinte.
O que ele havia feito como viajante era, segundo Bolsonaro, “totalmente imoral”.
Mas Santini, chamado em Brasília de bom cabelo, deixou de ser secretário-executivo de Onyx para ser secretário especial de relacionamento externo do mesmo Onyx.
Era interno e virou externo, sem sair da Casa Civil. Contam que os filhos de Bolsonaro impuseram a volta de Santini. Os garotos são poderosos.
Os brasileiros sob risco da pandemia na China não serão socorridos pelo governo, mas Santini havia sido resgatado pela família.
O que Santini fez para ter esse poder? Sergio Moro, tão humilhado pelos Bolsonaros, precisa saber.
Kiko Nogueira conta no DCM que o rapaz é amigo de longa data dos filhos de Bolsonaro.
A última informação é de que Bolsonaro voltou a demitir Santini e, para salvar os filhos, atribuiu o ‘erro’ a Onyx. Não importa.
O que interessa é que sua ordem havia sido desafiada pelo poder de Santini. É o que precisa ser investigado. Os garotos sabem o que Santini sabe e que o Brasil precisa saber.

ABANDONADOS

O Brasil tem jatos da FAB para as viagens internacionais de gente do terceiro escalão de Onyx Lorenzoni.
Mas não tem aviões para buscar os brasileiros ameaçados pela pandemia do coronavírus na China.
E Augusto Heleno acha que ainda são poucos os brasileiros em situação de risco.
Todos os países estão socorrendo seus cidadãos. Mas os brasileiros somente serão resgatados quando forem muitos.

As malas sertanejas

Bolsonaro recebeu cantores sertanejos. É uma turma afinada e unida. Quase todos da extrema direita armamentista. Foram pedir o fim da meia-entrada.
Os sertanejos cantam o amor que foi embora e se aproximam de disseminadores de ódio.
Sertanejos são as malas da música brasileira. Estavam lá as duplas Bruno e Marrone, Cesar Menoti e Fabiano, Henrique e Juliano, João Neto e Frederico e Matheus e Kauan. Até o ator Dedé Santana apareceu.
Bolsonaro agradeceu o “apoio gratuito” que recebeu dos sertanejos durante a campanha eleitoral.
Não entendi a parte do apoio gratuito.