Com a decisão de Dias Toffoli de blindar Flavio Bolsonaro, Queiroz e os milicianos, só resta uma saída. O jornalismo da grande imprensa terá de voltar a campo.
Eu sou crédulo. Acredito que virá com força.
(Tentem imaginar o clima de frustração e revolta no Ministério Público do Rio com a decisão de Toffoli que fragiliza os procuradores nas investigações que estavam atingindo todos os Bolsonaros.)

MAIS UM DELATOR FABRICADO

Está na Folha: a Lava-Jato forjava delatores.
O ex-diretor-superintendente da Odebrecht Carlos Armando Paschoal disse à Justiça de São Paulo que foi “quase que coagido a fazer um relato sobre o que tinha ocorrido” e que teve que “construir um relato” no caso do sítio de Atibaia.
O processo rendeu a segunda condenação ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva(PT). O ex-diretor, que também foi condenado no mesmo processo, ainda fez uma crítica aos procuradores da força-tarefa.
Paschoal prestou depoimento no TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) no último dia 3 de julho como testemunha em um processo sobre improbidade administrativa contra o ex-secretário-executivo do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações do governo Michel Temer (MDB), Elton Santa Fé Zacarias. O caso não tem relação direta com os processos contra a Lula.
Durante a audiência, o ex-diretor da Odebrecht, que é delator, foi questionado sobre o acordo de delação firmado com o MPF (Ministério Público Federal). O advogado Igor Tamasauskas perguntou por que delatores precisam falar sobre atos praticados por outras pessoas. “Porque, numa colaboração, você confessa atos próprios, crimes próprios, ou improbidades próprias”, disse o defensor em sua pergunta.
“Sem nenhuma ironia. Desculpa, doutor. Precisava perguntar isso para os procuradores lá da Lava Jato”, respondeu Paschoal.
“No caso do sítio, que eu não tenho absolutamente nada, por exemplo, fui quase que coagido a fazer um relato sobre o que tinha ocorrido. E eu, na verdade, lá no caso, identifiquei o dinheiro para fazer a obra do sítio. Tive que construir um relato”.
E agora? Raquel Dodge tratará desse assunto na reunião de hoje com Dallagnol?

VEM AÍ O TRUQUE DO HACKER

A Lava-Jato pode estar perto da sua próxima mágica. Tanto anunciam que uma hora vão pegar e mostrar um suspeito de ter agido como hacker nos celulares do ex-juiz e dos procuradores de Curitiba.

Podemos nos preparar para a grande confusão que será armada. O suposto hacker, como tem dito Moro, será acusado do vazamento das mensagens para o Intercept. E estará exposto ao Brasil como o criminoso que conspirou contra a caçada aos corruptos. Só que não.

O hacker, se é que existe, certamente não tem relação alguma com as mensagens que estão sendo divulgadas. Essa história de hacker surgiu no início de junho, quando o ex-juiz saiu anunciando que haviam invadido seu celular.

Logo depois, surgiram notícias de que Dallagnol também havia sido vítima de invasão. Com a divulgação das mensagens pelo Intercept, a partir de 9 de junho, tentaram estabelecer uma conexão: o hacker estava vazando o que havia sequestrado dos celulares.

Foi a primeira tentativa de criar confusão. Os dois já sabiam dos vazamentos e criaram antes o álibi do hacker?

Mas logo depois Sergio Moro decide dizer que havia se livrado do sistema de mensagens Telegram em 2017. E na sequência Dallagnol juntou sua turma para anunciar, em solene entrevista coletiva, que em abril todos eles haviam jogado o Telegram ao espaço. Porque, acreditem, o hacker poderia voltar.

Era uma estratégia óbvia de escapar da busca de provas das conversas. Não que alguém pense que em algum momento as mensagens publicadas pelo Intercept pudessem ser confrontadas com as que estavam nos arquivos do juiz e do procurador. Não. Eles nunca permitiriam que isso fosse feito.

O que importa é que Moro e Dallagnol livraram-se das provas, ou imaginam que estão livres delas. E o procurador se nega a entregar o celular para perícia.

Juristas repetem todos os dias que o conteúdo das mensagens deveria estar sendo investigado, e não só o presumido crime cometido pelo tal hacker. Mas ninguém investiga nada.

Mas o hacker estará preso daqui a pouco. Com o novo troféu da dupla Moro-Dallagnol, teremos então a nova confusão: o hacker, terrivelmente criminoso, pode ter roubado e adulterado as mensagens.

Estará armado o circo. Será preciso potencializar idiotias já potentes para tentar convencer que a prisão de um possível hacker esclarece tudo.

Os envolvidos na troca de mensagens escabrosas, dentro da Lava-Jato, sabem que o vazador dos arquivos pode ter estado bem ao lado deles, ou ainda pode estar.

O SILÊNCIO DA CHEFE DO PROCURADOR

Sergio Moro agia como o chefe de Deltan Dallagnol na Lava-Jato, a ponto de participar das reuniões em que o procurador debatia as próximas etapas da operação com a Polícia Federal. É o que revelam as mensagens divulgadas hoje por Reinaldo Azevedo.
Mas Dallagnol tem uma chefia no Ministério Público Federal. Sua líder, a quem deve obediência hierárquica, é a procuradora-geral da República, Raquel Dodge. Informaram hoje que amanhã, finalmente, ela se reúne em Brasília com o procurador e os outros integrantes da força-tarefa.
Mas por que Raquel Dodge não diz nada, nenhuma frase, sobre o escândalo das conversas entre seu subordinado e Sergio Moro? As mensagens são divulgadas há mais de mês.
Por que a procuradora-chefe recolhe-se ao constrangimento de ver um subordinado ser comandado por um juiz de primeira instância, no mais escandaloso conluio entre MP e Judiciário desde a ditadura?
Por que Raquel Dodge parece alheia a tudo que acontece, como se os delitos expostos pelas conversas devessem ser tratados apenas por Moro e Dallagnol?
Parece que Raquel Dodge acaba por admitir que o chefe de Dallagnol era mesmo Sergio Moro, ou que não quer se indispor com o juiz que ninguém ousou desafiar. O único que tentou, o ministro Teori Zavascki, está morto.

OS PROCURADORES E A DEMOCRACIA

É corajosa e deve inspirar outros servidores públicos de áreas também ameaçadas pelo autoritarismo a nota emitida pela Procuradoria Federal dos Direitos dos Cidadãos. Essa é a procuradoria, dentro da Procuradoria-Geral da República, que atua na área de direitos humanos.
É corajosa porque se refere aos abusos da Lava-Jato, sem referência direta (porque não precisa), mas sem volteios e malabarismos. E porque defende a liberdade de imprensa como direito não só dos jornalistas, mas muito mais da sociedade.
O documento trata, é claro, dos episódios recentes de divulgação de mensagens vazadas para o site Intercept, deixando claro que a população tem o direito de saber dos delitos cometidos também por autoridades que agem em nome de uma caçada moralista.
A nota, assinada pela chefe da Procuradoria Federal dos Direitos dos Cidadãos, Deborah Duprat, e pelos procuradores Domingos Dresch da Silveira, Marlon Weichert e Eugênia Gonzaga, está no link abaixo.

http://pfdc.pgr.mpf.mp.br/institucional/nota-publica-3-2019

“DAQUELES MAIS ANTIGOS”

Deltan Dallagnol pedia dinheiro da 13ª Vara Federal de Curitiba para a campanha que pretendia lançar contra a corrupção. E pedia, é claro, para seu chefe, Sergio Moro. É o que aparece em novas mensagens (de setembro de 2015) divulgadas hoje por Reinaldo Azevedo:
13:32:56 Deltan – Vc acha que seria possível a destinação de valores da Vara, daqueles mais antigos, se estiverem disponíveis, para um vídeo contra a corrupção, pelas 10 medidas, que será veiculado na globo?? A produtora está cobrando apenas custos de terceiros, o que daria uns 38 mil. Se achar ruim em algum aspecto, há alternativas que estamos avaliando, como crowdfunding e cotização entre as pessoas envolvidas na campanha.
13:32:56: Deltan – Segue o roteiro e o orçamento, caso queria [buscou escrever “queira”] olhar. O roteiro sofrerá alguma alteração ainda
13:32:56: Deltan – Avalie de modo absolutamente livre e se achar que pode de qq modo arranhar a imagem da LJ (Lava-Jato) de alguma forma, nem nós queremos
13:35:00: Deltan – pdf 13:35:28: Deltan – pdf… (arquivo enviado em pdf).

No dia seguinte, 17 de janeiro de 2016, Moro responde:
10:20:56 Moro – Se for so uns 38 mil achi [quis escrever “acho”] que é possível. Deixe ver na terça e te respondo….

Dallagnol tambem convidava o juiz para as reuniões da força-tarefa do Ministério Público com a Polícia Federal.
23:53:00 Deltan – Caro juiz, seria possível reunião no final de segunda para tratarmos de novas fases, inclusive capacidade operacional e data considerando recesso? Incluiria PF também.

O que Dallagnol quer dizer com “daqueles valores mais antigos”?

https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Freinaldoazevedo.blogosfera.uol.com.br%2F2019%2F07%2F15%2Fdeltan-pede-e-moro-topa-dinheiro-da-13o-vara-para-campanha-publicitaria%2F%3Ffbclid%3DIwAR1xCmOOWvduKAONyoYDhVHasddjT3uw3DZxw0NahqzjP6hMqEzY6KPHCNQ&h=AT1iSpdIAaTOmXZdxO7ANB-FYslgHPC2BW9z-TrylqN6_zIBEE9RP6kUkmnog0PadyoX5LU7AqK2tPbkIBlR4iZgMJRi7mM2ggeFxL3g9elk6x1T2V_N_W4_6SL9mXfZnpA

O MODELO TABATA

Por que estão falando tanto da deputada Tabata Amaral? Porque ela é uma das novas celebridades de política. Não adianta querer falar dos “outros” deputados presumivelmente de esquerda que votaram pela reforma da previdência. Eu não sei quem são os outros. Ninguém sabe.

Mas todos nós sabemos quem é Tabata, ou quem poderia ter sido. Não há nada contra as mulheres. Não é nada disso, não caiam na armadilha de ver machismo nas críticas à Tabata, não se protejam nesse recurso. Fica chato.

A deputada está na vida pública, tomou uma decisão considerada controversa como parlamentar do PDT e agora se submete ao debate. Assim funciona a política.

Não é linchamento. Não subestimem a capacidade de reação da pedetista, nem tratem Tabata como uma adolescente indefesa.

A questão é que Tabata Amaral não é apenas uma deputada do novo centro, ou do novo liberalismo brasileiro. Ela se afirma como um modelo.

O modelo Tabata vai estourar mesmo nas eleições municipais. O empresariado que financiou políticos com esse perfil, já na última eleição, jogará pesado no ano que vem.

As câmaras de vereadores estarão lotadas de Tabatas. Muitas assembleias estaduais já têm gente com essa pegada, todos financiados pelo empresariado. Pois teremos mais.

O que vem aí com força é essa direita dita esclarecida, camuflada num centro que na verdade não existe. Uma direita fofa, avançada em relação a costumes, questões ambientais e outros temas, que aborda bem os impasses da educação, mas que é reacionária diante das grandes questões políticas e econômicas e dos movimentos sociais.

Por isso, na votação da reforma da previdência, o que interessa é apoiar o esforço fiscal. Não interessa se a reforma vai punir os mais pobres. Mas Tabata ama os pobres.

Hoje, a Folha traz uma matéria sobre o fortalecimento dos lastros orgânicos da direita em São Paulo. É gente nova que se acomodou nas assessorias dos partidos e inclusive nas estruturas de gestão da prefeitura e do governo do Estado e que se organiza nas redes sociais de uma forma que só a direita sabe fazer.

Um exemplo seria o Direita SP (DSP), um movimento que pretende se transformar em partido e que se alastra pelo interior paulista.

É gente com muito apoio empresarial. Como diz meu amigo Suimar Bressan, não há democracia que aguente essa dinheirama dos Jorges Paulos Lemanns e suas cervejarias. Não há como enfrentá-los.

E a esquerda? A esquerda cai todos os dias do caminhão de mudança.

OS MISTÉRIOS E OS LARANJAS DE DALLAGNOL

A Lava-Jato sempre ensinou que é preciso correr atrás dos laranjas e fragilizá-los, para então chegar ao dono do pomar.
É o que o jornalismo deve fazer agora para tentar esclarecer os mistérios em torno de Deltan Dallagnol.
A mulher de Sergio Moro, Rosângela Moro, criou no ano passado uma empresa de palestras para administrar a vida empresarial do marido no mundo das conferências.
A mulher de Dallagnol, Fernanda, e a mulher do procurador Roberson Pozzobon, Amanda, teriam feito o mesmo?
Essa é agora a tarefa da imprensa. Encontrar o registro da empresa que, mesmo em nome de outras pessoas, tenha levado adiante a ideia de Dallagnol.
Em dezembro de 2018, na troca de mensagens com os colegas, divulgada ontem pela Folha, o procurador sugere que Fernanda e Amanda criem as empresas.
O plano teria prosperado? Dallagnol e Pozzobon informaram à Folha que não criaram a empresa. O Ministério Público Federal do Paraná também informou a mesma coisa.
Será? Nesse mundo de tantas laranjas, tudo dever conferido, dizia Dallagnol em suas entrevistas e também nas palestras remuneradas.
Pois a criação da empresa da mulher de Moro foi tornada pública e noticiada pela Folha de S. Paulo no dia 8 de julho do ano passado. Cinco meses depois, Dallagnol começa a levar adiante a ideia de fazer o mesmo.
A empresa de Rosângela, a HZM2, dedicada a cursos e palestras, é uma sociedade com os advogados Carlos Zucolotto Junior, Guilherme Henn e Fernando Mânica. Os dois primeiros dividem uma banca de advocacia.
E Zucolotto é o amigo e padrinho de casamento de Moro e Rosângela, que o advogado Tacla Duran, foragido na Espanha, acusa de ter criado uma indústria de fechamento de acordos de delação, que ele chama de Panela de Curitiba.
Dallagnol e Moro descobriram atividades de laranjas usando a tática consagrada pela Lava-Jato, a delação. Mas os candidatos a delator que eles pegavam eram encarcerados e submetidos a prisões preventivas intermináveis.
O jornalismo da grande imprensa, com suas centenas de repórteres, tem agora essa missão. Se existem, quem são os laranjas de Dallagnol?