Piera Fernández de Piccoli, a líder dos estudantes argentinos

Estudante de ciência política, filha de uma professora e de um pequeno comerciante de Río Cuarto, na província de Córdoba, Piera Fernández de Piccoli, 27 anos, é considerada a nova cara da resistência argentina.

Piera liderou a marcha de milhares de estudantes na terça-feira em Buenos Aires, que jornais conservadores, como o La Nación, calcularam em 430 mil pessoas.

E que jornais de esquerda, como o Página 12, estimaram em pelo menos 800 mil. Uma marcha em defesa da universidade pública, que sempre foi forte na Argentina e começa a ser destruída pelo fascista Javier Milei.

Piera preside a Federação Universitária Argentina (FUA), que equivale à UNE brasileira. É militante da Franja Morada, um histórico agrupamento estudantil de centro-esquerda ligado à União Cívica Radical (UCR), o mais antigo partido argentino, mas sem expressão nesse século.

Como a UCR também é considerada por parte das esquerdas como de centro-direita, já levantaram a suspeita de que Piera seria uma Tabata Amaral em formação. Não parece ser.

Piera é defensora da escola pública e lamenta que o pai não tenha tido condições de chegar à universidade. Sua tese de conclusão do curso, na Universidade de Río Cuarto, que defenderá em maio, faz a defesa do setor público e das estatais. No discurso na Praça de Maio, ela disse:

“Não queremos que eles levem os nossos sonhos, o nosso futuro não lhes pertence. A educação pública nos salva e nos torna livres”.

Em entrevista ao jornal Página 12, a líder dos estudantes argentinos contou que fez estágio no Congresso, onde investigou a situação das estatais, para que sejam melhor geridas, e não privatizadas.

Abaixo, a íntegra da entrevista concedida ao jornalista Agustín Gulman, do Página 12, um dia depois da megamanifestação de terça-feira.

Como você analisa a mobilização massiva?
Piera – Estou mais mobilizada e consciente da situação. Foi difícil para nós chegarmos à Praça de Maio, porque a quantidade de pessoas ali era impressionante. Tínhamos o objetivo de que fosse um ato massivo, para que não só a comunidade universitária, mas toda a sociedade marchasse em defesa da educação pública. E ver que isso aconteceu em Buenos Aires e em todo o país é realmente emocionante. Ainda é difícil avaliar o que isso significa como fato histórico.

E o que esperar de agora em diante?
Piera – Nossa expectativa genuína é que o governo tenha uma mudança radical de posição. Não temos a sensação de que isso vai acontecer, mas esperamos que tenham inteligência e empatia suficientes para entender o que oocrreu nas ruas. E entender que isso foi um apelo da sociedade para que não ataquem e sufoquem a universidade pública argentina e que entendam que não há possibilidade de um futuro melhor se não for com a educação. Esperamos um convite ao diálogo, para podermos resolver todos os problemas que levantamos. Não se trata apenas do orçamento para despesas de funcionamento das universidades, mas também de salários para docentes e não docentes, de bolsas para estudantes, de pesquisadores e de obras de infraestrutura. Esperamos um diálogo que nos permita avançar em soluções. E, se não ocorrer, continuaremos trabalhando como temos feito, em unidade, coletivamente, com todos os atores do sistema universitário. Não estamos dispostos a desistir do nosso direito à educação, a desistir do nosso futuro e da universidade pública.

Como o corte no orçamento do ensino mobilizou uma marcha tão massiva e transversal, com o apoio da classe trabalhadora?
Piera – O corte feriu o sentimento íntimo da expectativa de um futuro melhor. Não podemos pensar numa Argentina mais justa, livre e igualitária sem uma universidade pública. Esta universidade, apesar de tudo o que tem para melhorar, é aquela que continua a formar professores de qualidade, médicos e enfermeiros que nos cuidam nos hospitais, engenheiros que constroem as nossas pontes, arquitetos que constroem as nossas casas. Acho que a sociedade argentina valoriza muito a educação pública e isso foi perceptível na caminhada.

O que você acha da postagem do presidente Javier Milei nas redes sociais após a caminhada, quando se referiu à manifestação como “lágrimas para canhotos”, ou lágrimas para esquerdistas?
Piera – É muito triste, não só pela falta de empatia e perspectiva em relação ao que aconteceu ontem, mas também porque, com a violência com que o tema é tratado nas redes, ver que o próprio presidente se coloca nesse patamar é muito triste. Devemos elevar o nível da discussão.

O evento foi encerrado com uma frase que diz: “A universidade pública nos salva e nos liberta”.
Piera – Fizemos por consenso, foi uma ideia construída com estudantes, professores, reitores e não docentes. A universidade nos salva porque a educação representa para nós uma oportunidade diante do que a desigualdade produz. A educação como ferramenta por excelência de mobilidade social ascendente é o que nos permite ter oportunidades. É perverso condicionar o futuro de uma pessoa ao lugar onde nasceu e é isso que a universidade pública transforma.

O que significa um corte de verbas da magnitude denunciada por reitores, estudantes e pesquisadores?
Piera – Vivemos uma das piores crises que tivemos que enfrentar na universidade pública desde a volta da democracia, pelo congelamento das despesas operacionais, pela perda salarial de 50 pontos (em relação à inflação) do poder de compra dos professores e não docentes, congelamento de bolsas e paralisações de obras e cortes em ciência e tecnologia. Tudo isso implica uma queda na qualidade educacional e também implica um sério problema na garantia de ingresso, permanência e formatura de estudantes de universidades públicas. Não queremos perder isso, queremos cuidar e reforçar e melhorar a sua qualidade e inclusão, e sem orçamento é impossível.

O que você acha do debate em relação às privatizações promovidas pelo governo?
Piera – Não concordo com o desmantelamento do Estado. Sobre esta questão temos de ter uma decisão de Estado que tem de ser construída e sustentada ao longo do tempo sobre o que queremos fazer com as empresas públicas. Porque a grande maioria delas são empresas estratégicas para o desenvolvimento nacional. Envolvem serviços fundamentais para a qualidade de vida dos cidadãos. E nesse sentido é importante que tenham um bom desempenho, que sejam geridas de forma eficiente. Para isso, existem ferramentas institucionais que devem ser reforçadas. Essa é a discussão necessária. Vamos debater como funciona o Estado, como torná-lo mais eficiente e democrático, é uma dívida pendente. Mas não significa destruir tudo e zerar. Isso é um retrocesso, não um avanço.

Você se dedica muito à defesa da educação pública. O que você vê quando olha para trás em sua trajetória de estudante?
Piera – Ingressar na universidade pública me fez me apaixonar pela educação. Sempre soube e sempre quis cursar uma universidade pública, sempre tive interesse em fazer parte das discussões que ocorrem nos processos formativos. Sou apaixonada por isso, a universidade mudou minha vida. E conheço mais o sistema universitário a partir do meu envolvimento com a FUA. Assim, mais admiro o que a universidade gera para a sociedade. A universidade me permitiu progredir individual e coletivamente de uma forma extraordinária. Graças à universidade consegui ter acesso a uma bolsa para estudar na Espanha e na Colômbia, consegui fazer um estágio no Congresso, conquistei amizades. Sou o que sou graças à universidade pública.

https://www.pagina12.com.ar/

One thought on “Piera Fernández de Piccoli, a líder dos estudantes argentinos

  1. O povo argentino é um pouco melhor. Eles votaram no Bolsonaro deles por uma razão: faz muito tempo que a inflação corrói o poder de compra. O Brasil votou em Bolsonaro porque queria comprar armas, “contratar” trabalhadores escravos e “acabar com tudo o que está aí”.

    O erro é o mesmo, as razões para errar é que são diferentes.

    Milei não vai se transformar em “mito”, porque o argentino não é gado e não é um povo tão burro.

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