QUEM VAI REAGIR AO APARELHAMENTO?

A Polícia Federal, a Receita e o Coaf estão sendo descaradamente aparelhados. Não há dúvida. A única dúvida é sobre a capacidade de Bolsonaro de completar o serviço e sobre a reação dos servidores desses órgãos.

Se ficarem acomodados, Bolsonaro, Moro e os milicianos irão determinar o que pode e não pode ser feito em instituições decisivas para que os próprios Bolsonaros sejam investigados.

A Polícia Federal já reagiu duas vezes a declarações de Moro e de Bolsonaro. Agora falam que os delegados em postos de comando podem pedir demissão coletiva por causa da tentativa de Bolsonaro de desqualificar o ex-superintendente da PF no Rio Ricardo Saadi e de impor um substituto que não incomode as milícias.

A bola da vez é Marcos Cintra, secretário da Receita, que pode ser degolado a qualquer momento.

No início de agosto, 200 auditores da Receita enviaram um manifesto ao Supremo, pedindo que o STF revisse a decisão de suspender a investigação de poderoso, incluindo ministros da Corte.

Gente ligada à Receita mandou recados pelos jornais com ataques aos ministros do STF, bradando que ninguém, nem os poderosos Gilmar Mendes e Dias Toffoli, está acima da lei.

O que irão fazer agora, quando a caçada é comandada por Bolsonaro, que acusou o golpe ao dizer que tem familiares (um irmão) perseguido pela Receita?

O presidente da Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco), Charles Alcântara, já disse: “O presidente queria que o irmão ficasse a salvo da fiscalização só por ser irmão dele?”

Mas Alcântara é sindicalista e está fazendo o que lhe cabe. E os auditores que foram se queixar da blindagem do Supremo?

Bolsonaro e Moro estão se livrando de incômodos para a família, para as milícias e para o escondido e protegido Queiroz. Moro só obedece, não manda em mais nada. O Estado foi aparelhado.

O BOLSONARISMO PEDE MAIS CRISTIANISMO NAS ESCOLAS

Uma senhora, uma mãe ou uma avó, erguia um cartaz com esse apelo nos protestos de ontem diante do Colégio Rosário, em Porto Alegre: “Por mais cristianismo nas aulas de ensino religioso”.

Outros cartazes contra professores considerados comunistas diziam o de sempre: “Marista, sim. Marxista, não” (porque o colégio é da ordem marista), “Educação sem doutrinação”, “Nossos filhos não são filhos do socialismo, são nossos”.

Mas o interessante mesmo era aquele cartaz que pedia mais cristianismo. Se a escola atendesse ao apelo e aplicasse a radicalização do ensino e das práticas do cristianismo, a direita não iria gostar.

A direita sempre tenta se apropriar impunemente de ideias, mensagens, simbolismos e figuras da esquerda. Todos conhecemos alguém de direita (eu conheço pelo menos dois) que usa camiseta com a cara de Che Guevara.

O contrário não acontece. Não há como imaginar alguém de esquerda circulando com a imagem de um guru da direita. Mas a direita tem essa carência e recorre a ídolos emprestados para glamourizar um pouco seus dilemas morais e se humanizar.

Cristo é a maior figura de esquerda de todos os tempos, pelo alcance sempre atual do que dizia e fazia. E não há figura mais sequestrada pela direita do que Cristo. Bolsonaro se considera irmão de Cristo.

Uma das igrejas mais reacionárias do Brasil, que sustenta o bolsonarismo, a homofobia e práticas disseminadores do ódio, usa o nome de Jesus Cristo em suas fachadas.

E fui então olhar o que está escrito no site da rede de colégios maristas que possa explicar tantas ofensas. Diz ali: “Educar bem para o bem. Assim é a educação marista traduzida na prática, uma proposta pedagógica que contempla todas as dimensões do ser humano. Somos movidos pelo propósito de contribuir para o desenvolvimento integral dos estudantes, atuando em sintonia com as famílias”.

A rede marista enaltece os valores do humanismo, do cristianismo, da defesa do meio ambiente, da socialização das relações e do conhecimento. Estimula a troca de opiniões, a solidariedade, a cidadania.

Tudo isso está escrito no site da rede. Não tem nada de esquerdismo ou de comunismo. Mas tem muito das ideias que ferem a base ideológica do bolsonarismo, o lastro de direita que explora o irracionalismo e as ignorâncias.

Alguns militantes de extrema direita deveriam deixar de lado essa história dos valores cristãos, porque geralmente são conflitantes com seu jeito de encarar a vida e a educação.

O apelo retórico para que o ensino seja mais cristão se choca com o esforço para censurar a educação e impor, com a militância de políticos, a ideia da escola sem partido.

Como escola sem partido? Com mobilizações lideradas por políticos da extrema direita diante das escolas?

Deixem os professores em paz, ou criem escolas exclusivas apenas para as famílias de militantes do bolsonarismo. E não façam leituras enviesadas da vida de Cristo. Leiam. Estudem. Não passem vergonha diante dos filhos.

UMA GUERRA DE FACÇÕES

As instituições da estrutura de justiça do Brasil chegaram ao momento em que nem as aparências interessam mais.

Supremo e Ministério Público Federal, divididos e atordoados pelos delitos do golpismo e do lavajatismo, brigam agora para saber quem tem mais poder para exibir ou mais podres para esconder.

A mais alta Corte tenta enfrentar a turma de procuradores que a desafia há muito tempo. Sabe-se agora, pelas mensagens vazadas do esquema da Lava-Jato, que o STF investiga gente que não só o ofendeu, mas que pretendia investigar clandestinamente alguns de seus membros.

O último movimento é o de Raquel Dodge, a chefe dos rapazes de Curitiba, que passou a tratar o Supremo como um “tribunal de exceção”. Chegamos ao momento em que ao MP Federal e ao Judiciário já não basta a farsa do combate aos corruptos para perseguir Lula e as esquerdas.

Agora, MP e Judiciário, que atuavam em conluio ou pelo menos se toleravam, duelam entre si porque um desafiou o poder e as imundícies do outro.

O MP de Raquel Dodge tratou o STF, durante toda a Lava-Jato, como um aliado resignado com sua posição de observador do que acontecia em Curitiba.

O Supremo nunca questionou as anomalias da força-tarefa que deveria ser comandada por Deltan Dallagnol e era na verdade liderada por Sergio Moro.

O único ministro que tentou impor alguma ordem e hierarquia ao grupo de Curitiba foi o relator da Lava-Jato, Teori Zavascki, que está morto.

Dos vivos, todos disseram amém a Sergio Moro e ao MP, como se o juiz de primeira instância fosse um deles. O que se vê hoje é o Supremo tentando enquadrar os moços de Raquel Dodge como disseminadores de inverdades contra a Corte, e a procuradora defendendo ferozmente seus rapazes.

É uma briga corporativa, muito mais do que a defesa das instituições. Raquel é chefe de um MP vilipendiado por seus próprios integrantes. E Dias Toffoli, que determinou a abertura do inquérito para investigar os procuradores de Dodge, é líder de um Supremo desmoralizado desde antes do golpe de agosto de 2016.

Não há nada de elevado nesse duelo. Ministério Público e Supremo são cúmplices em situação de conflito. O desfecho da briga poderá fortalecer um ou outro, mas o Brasil dominado pelo lavajatismo e pelo bolsonarismo não irá ganhar nada com isso.

Essa não é uma guerra do sistema de justiça, mas de membros de facções do MP e do Judiciário que apenas estão em desacordo sobre o andamento do projeto que golpeou Dilma e encarcerou Lula. Não procurem mocinhos nesse entrevero.

Como decretou certa vez, em manchete, o jornal argentino Olé sobre o jogo do Brasil contra a Inglaterra numa Copa do Mundo: que percam os dois.

GREENWALD É CRUEL COM AS TARAS BOLSONARISTAS

O jornalista Glenn Greenwald cometeu a maior crueldade com os militantes da extrema direita nas redes sociais. Ao dizer que o Intercept não irá divulgar mensagens que contenham intimidades do pessoal da Lava-Jato, Greenwald cortou o barato do bolsonarismo.

O jornalista deixou claro que não fará com Moro, Dallagnol e suas turmas o que Moro fez com Lula, ao grampear e enviar para a Globo diálogos sem nenhuma conotação política. Essa decisão do Intercept foi anunciada desde o começo, mas a extrema direita ainda tinha esperança.

Os bolsonaristas querem mensagens que acionem suas taras. Os textos falsos que estariam circulando pela internet, com informações sobre intimidades de lava-jatistas, mexeram com as fantasias dos adoradores de Bolsonaro.

Muitas das analogias primárias que eles tentam fazer, para refletir sobre qualquer assunto, passam pela ideia da sacanagem. O próprio Bolsonaro é o autor da frase que melhor expressa essa fantasia doentia. “O Brasil é uma virgem que todo tarado quer”.

Machismo, estupro, homofobia, violência são componentes presentes publicamente nas taras da extrema direita. Por isso Greenwald frustra muita gente excitada ao sonegar a possibilidade de divulgação de mensagens íntimas.

O bolsonarista quer mensagens íntimas, as mais devassas possíveis, mesmo que sejam contra os gurus deles. Eles só conseguirão entender o que se passava na Lava-Jato se tiverem acesso a sacanagens.

O bizarro é o combustível do fascista. Como o Intercept não irá divulgar nada do que eles pedem, é provável que eles mesmos passem a criar mensagens com suas obsessões. O fascista é um depravado exibicionista e insaciável.

O MODELO TABATA

Por que estão falando tanto da deputada Tabata Amaral? Porque ela é uma das novas celebridades de política. Não adianta querer falar dos “outros” deputados presumivelmente de esquerda que votaram pela reforma da previdência. Eu não sei quem são os outros. Ninguém sabe.

Mas todos nós sabemos quem é Tabata, ou quem poderia ter sido. Não há nada contra as mulheres. Não é nada disso, não caiam na armadilha de ver machismo nas críticas à Tabata, não se protejam nesse recurso. Fica chato.

A deputada está na vida pública, tomou uma decisão considerada controversa como parlamentar do PDT e agora se submete ao debate. Assim funciona a política.

Não é linchamento. Não subestimem a capacidade de reação da pedetista, nem tratem Tabata como uma adolescente indefesa.

A questão é que Tabata Amaral não é apenas uma deputada do novo centro, ou do novo liberalismo brasileiro. Ela se afirma como um modelo.

O modelo Tabata vai estourar mesmo nas eleições municipais. O empresariado que financiou políticos com esse perfil, já na última eleição, jogará pesado no ano que vem.

As câmaras de vereadores estarão lotadas de Tabatas. Muitas assembleias estaduais já têm gente com essa pegada, todos financiados pelo empresariado. Pois teremos mais.

O que vem aí com força é essa direita dita esclarecida, camuflada num centro que na verdade não existe. Uma direita fofa, avançada em relação a costumes, questões ambientais e outros temas, que aborda bem os impasses da educação, mas que é reacionária diante das grandes questões políticas e econômicas e dos movimentos sociais.

Por isso, na votação da reforma da previdência, o que interessa é apoiar o esforço fiscal. Não interessa se a reforma vai punir os mais pobres. Mas Tabata ama os pobres.

Hoje, a Folha traz uma matéria sobre o fortalecimento dos lastros orgânicos da direita em São Paulo. É gente nova que se acomodou nas assessorias dos partidos e inclusive nas estruturas de gestão da prefeitura e do governo do Estado e que se organiza nas redes sociais de uma forma que só a direita sabe fazer.

Um exemplo seria o Direita SP (DSP), um movimento que pretende se transformar em partido e que se alastra pelo interior paulista.

É gente com muito apoio empresarial. Como diz meu amigo Suimar Bressan, não há democracia que aguente essa dinheirama dos Jorges Paulos Lemanns e suas cervejarias. Não há como enfrentá-los.

E a esquerda? A esquerda cai todos os dias do caminhão de mudança.

DER STÜRMER E O ESTRUME

Der Stürmer era um jornal nazista que fazia o jogo mais pesado dos bandidos de Hitler. Der Stürmer divulgava notícias só para aterrorizar os judeus. Não interessava se eram verdadeiras. O que importava era espalhar o pavor.

No Brasil de hoje, seu equivalente é o jornal virtual O Antagonista. O jornal de Diogo Mainardi, o homem-mosca, com sede em Veneza, é usado para anunciar as perseguições da Lava-Jato às esquerda e agora ao jornalista Glenn Greenwald e ao deputado David Miranda.

O Antagonista foi quem anunciou que o Coaf estaria investigando Greenwald (o Coaf não nega nem confirma). O mesmo jornal anunciou que Miranda teria participado da decisão de Jean Wyllys de deixar o país, para poder ficar com sua vaga na Câmara, na condição de suplente.

Segundo o jornal, o deputado estaria sendo investigado por isso. É uma fofoca da extrema direita, fomentada por um deputado neopentecostal. Mas o Antagonista persegue Miranda não só por sua ligação afetiva com o jornalista do Intercept. Miranda é combatente de esquerda contra as milícias e é gay.

Isso incomoda O Antagonista, que não prova nada do que informa, como Der Stürmer também não provava. Os dois, cada um na sua época, dedicam-se com submissão aos déspotas no poder.

Diogo Mainardi é comentarista das organizações Globo. Faz, como dono do site da direita, o jogo sujo que a Globo não pode fazer. É o mesmo truque da Alemanha nazista.

Os nazistas tinham um jornal oficial, o Völkischer Beobachter, mas as missões mais imundas eram cumpridas pelo Der Stürmer. O jornal radicalizava o nazismo (como se isso fosse possível), combatia com violência tudo que considerasse comunista e atacava judeus, gays, ciganos.

O Antagonista é o jornal do branco reaça homofóbico bolsonarista. Contribuiu para o golpe e agora é porta-voz da Lava-Jato e do que existe de pior na direita brasileira. É o único jornal assumidamente lava-jatista.

Der Stürmer quer dizer O Atacante. Mas hoje, para que o nome seja adaptado, pela sonoridade, ao equivalente Antagonista porta-voz da Lava-Jato, da extrema direita e do bolsonarismo, podemos dizer que o jornal se chamava mesmo O Estrume.

O FASCISTA MOSTRA A CARA

Bolsonaro pode ter voltado para sua base de apoio de 18% de bem antes da eleição. E essa base, formada pelos mais ricos (a massa de pobres entra na véspera da eleição) é cada vez mais a sustentação do governo, como mostra o DataFolha. O resto vai saltando fora.

O que diz a Folha. “Com a avaliação quase inalterada na base da pirâmide econômica, a maior mudança na percepção do governo Bolsonaro ocorreu nas elites. Em comparação com a pesquisa anterior, os que ganham de cinco a dez salários mínimos expressaram uma visão mais crítica, enquanto os que têm renda acima desta marca ampliaram a aprovação. No primeiro time, os que taxam a gestão como ótima ou boa recuaram de 43% para 37%. No segundo, saltaram de 41% para 52%”.

Algumas conclusões. Quanto mais rico, mais bem formado e pretensamente mais bem informado, mais fascista. É a realidade brasileira. Aqueles brancos de mais de 50 anos, com óculos escuros e camiseta da Seleção, que aparecem nas manifestações na Avenida Paulista, são a base de Bolsonaro.

A classe média mais média, com renda entre cinco e 10 salários, vai abandonando o bolsonarismo, é o que diz o DataFolha. O fascismo assume suas feições definitivas no Brasil. Os ricos têm a cara de Bolsonaro e Sergio Moro.

Quanto mais desemprego, mais desencanto, mais recessão, mais autoritarismo, mais matança de negros e índios, mais desmatamento, mais repressão e mais casos envolvendo os Bolsonaros e as milícias, mais os ricos apoiam Bolsonaro. É com essa turma que Moro se agarra.

Fernando Henrique, Serra, Aécio e Alckmin foram apenas figuras de transição do centro para a direita. O rico brasileiro chegou à extrema direita e ali se acomodou. O processo de fascistização foi completado.

Globo ignora os desesperados

O principal fato do dia e um dos mais trágicos desde a ascensão do bolsonarismo foi ignorado pelo Jornal Nacional.
Um grande empresário, líder industrial, quebrado e desesperado, se mata em público com um tiro na cabeça, diante de um ministro e de um governador, e a Globo finge que não aconteceu nada.
São falsos pruridos. Se o suicídio tivesse acontecido fora do Brasil, seria notícia. Se o suicida fosse de esquerda, teria sido manchete.
O jornalismo de direita continua dentro dos limites de sempre. A Globo tem uma briga particular com Bolsonaro, que a ameaçou de destruição, mas ainda é a mesma do golpe de agosto de 2016.
Na imprensa do bolsonarismo moribundo, ainda não há espaço para os desesperados que desistem de viver.

O PAÍS SUICIDA

O bolsonarismo vai incorporando ao cotidiano de um país doente o que seria improvável e absurdo. Um juiz condena o principal adversário de um candidato e vira ministro do vitorioso beneficiado pela condenação, o miliciano assassino de uma líder política é vizinho do presidente, um traficante pega carona no avião do presidente numa viagem internacional, o filho-senador do presidente envolve-se com milicianos, o presidente empresta dinheiro a um miliciano, o miliciano deposita dinheiro na conta da mulher do presidente, o presidente e os filhos dele defendem que o país todo se arme, se possível com fuzis, um empresário quebrado se mata com um tiro na cabeça diante de um governador e de um ministro, um filho do presidente diz que houve apenas mais uma falha da segurança, e o presidente continua assegurando, como se tivesse o controle absoluto de tanto desvario, desespero e alienação, que tudo é obra de Deus, porque Deus está acima de todos.

Mais uma degola

O bolsonarismo pediu e levou mais uma cabeça. Paulo Henrique Amorim foi afastado do Domingo Espetacular da TV Record.
Depois de 14 anos, fica na geladeira, porque tem contrato por mais dois anos, ou será mandado embora mais adiante com uma alta indenização.
As empresas vão fazendo o serviço a mando do fascismo. E os jornalistas fofos opinativos, alguns mais sabujos do que fofos, vão ficando. A História mandará a conta a eles.