O HOMEM DE FÉ QUE TOMOU O LUGAR DE MORO

A extrema direita quer alguém de fé no Supremo. Pois a jornalista Thais Arbex apresenta na Folha o cara que já pode ter dado o drible em Sergio Moro para assumir a vaga que Bolsonaro chegou a prometer ao ex-juiz. É o chefe da Advocacia-Geral da União, André Mendonça.

É ultraconservador, bolsonarista e pastor auxiliar da Igreja Presbiteriana (na foto, pregando em um culto). Mendonça tentou evitar que o Supremo determinasse que homofobia é crime, mas tem bom trânsito no STF.

O maior trunfo de Mendonça é, por sua ligação com a igreja, o apoio da bancada da fé, apesar das muitas divisões entre os evangélicos.

Bolsonaro diz a todos que admira muito o advogado. Até porque o homem, pelo que conta Thais, bajula Bolsonaro desde que assumiu a AGU.

Este texto é dele e expressa sua religiosidade:
“Durante muito tempo, eu quis escrever lindas histórias para Deus, mas aprendi que não sei escrever. Resolvi pedir para Ele escrever as histórias que quer escrever na minha vida. Porque Ele é poeta e escritor por natureza. Deixa Ele escrever”.

Só um milagre salva Sergio Moro. Mas Moro não tem a fé de André Mendonça.

O DRAMA DE BOLSONARO

Por que Bolsonaro corre o risco da exposição da fragilidade física e grava um vídeo no hospital com a sonda no nariz? Bolsonaro se expõe porque precisa dizer, sem força na voz, que está vivo e no comando.

Bolsonaro não consegue ficar um dia, um só, sem dizer algo, sem mandar um recado que expresse seu controle do poder. Não governa, não detém o poder por completo, mas precisa dizer que governa.

A exposição pública da lenta convalescença, num vídeo em que não tem nada a dizer, é o grito do sujeito fragilizado: eu estou aqui, mas estou me comunicando com vocês.

O drama de Bolsonaro é o de qualquer político inseguro: a sensação de que não tem o amor que merece. Não o apoio, mas o amor mesmo.

Bolsonaro é rejeitado pelos líderes mundiais da direita. É considerado pela imprensa conservadora como a figura pública mais repulsiva em todo mundo.

Sua base de apoio é calculada em menos de 20%. Tem ricos, tem classe média decadente, tem uma minoria de jovens e tem até pobre que se acha rico. Mas não tem massa.

Se tivesse, todas as manifestações pró-direita, desde a sua posse, estampariam seu nome e sua imagem em faixas de cartazes. Não há fotos com a imagem do seu rosto nas aglomerações da Paulista da turma vestida com a camiseta da Seleção.

O nome levado para as ruas, mesmo pelo bolsonarista de raiz, é o de Sergio Moro. O bolsonarista tem vergonha de ser publicamente bolsonarista.

Bolsonaro disse que, se erguer a borduna, será seguido. Por quem? Pelos homens racistas e homofóbicos de meia idade? Pelos militares? Bolsonaro confia nos militares?

Bolsonaro acha que pode formar grupos de milicianos, mas não tem povo ao seu lado, não tem fidelidade em número e entusiasmo. Falta massa crítica a Bolsonaro.

Mas o que ele sente mesmo é falta de adoração. O bolsonarista branco e rico é um oportunista que no fundo rejeita Bolsonaro. E Bolsonaro sabe que é assim e sofre muito.

O porto dos milicianos

A Globo cutucou Bolsonaro no JN com a pauta das máfias do contrabando do Porto de Itaguaí, no Rio.
As máfias derrubaram o comando dos auditores fiscais e o superintendente da Polícia Federal, que vinham reprimindo os contrabandistas.
A bandidagem do contrabando trabalha articulada com os milicianos amigos da família Bolsonaro, que controlam a região.
O que Sergio Moro pensa disso tudo? Moro é muito cuidadoso e não comenta nada que envolva as milícias.

Os bolsos dos Bolsonaros

É ingênua ou deliberadamente enganosa a interpretação de certos “analistas”, segundo a qual o secretário da Receita foi empurrado para a armadilha de defender a nova CPMF, quando Paulo Guedes é na verdade o pai da ideia.
O jornalismo da direita dá a entender que Marcos Cintra foi demitido por defender o que Bolsonaro não quer, quando Bolsonaro nem sabe direito o que quer.
A nova CPMF foi apenas o pretexto para que Bolsonaro conseguisse mandar Cintra embora. O homem da Receita caiu mesmo porque não tinha a confiança de Bolsonaro.
A Receita, assim como o Coaf e a Polícia Federal, precisa ser aparelhada para que o pai defenda o filho amigo dos milicianos. Cintra andava na direção contrária.
Tudo o que Bolsonaro faz se baseia nos interesses da família. Bolsonaro nem sabe direito o que é CPFM, para que serve e que impacto tem no bolso nas pessoas.
Bolsonaro só cuida dos bolsos da família.

MORO É O ALIEN DE BOLSONARO

O discípulo bolsonarista mais indeciso pode estar se afastando desesperadamente do seu criador. A direita correu para o lado de Sergio Moro, diante da crescente brutalização do governo.

Acordo cedo para saber se Moro caiu, e a notícia do DataFolha é a de que ele está ainda mais forte. Podemos estar vendo o morismo crescer dentro do bolsonarismo que agora o combate.

Isto é o que diz a Folha: “Sergio Moro continua como o ministro mais bem avaliado do governo Bolsonaro, com um patamar de apoio da população que supera o do próprio presidente.
Segundo o levantamento, Moro é conhecido por 94% dos entrevistados, a taxa mais alta na Esplanada.

Dentre os que afirmam conhecê-lo, 54% avaliam sua gestão à frente do Ministério da Justiça e Segurança Pública como ótima ou boa. Outros 24% a consideram regular, e 20%, ruim ou péssima —2% não responderam.

Em comparação, são 29% os entrevistados pelo Datafolha que aprovam o governo Bolsonaro, 30% os que o consideram regular e 38% os que avaliam como ruim ou péssimo (2% não responderam)”.

A pesquisa do DataFolha só amplia o drama de Bolsonaro, que vem tentando desmoralizar o juiz em várias frentes. A situação mais tensa agora é a que envolve o comando da Polícia Federal.

O DataFolha mostra que Moro tem apoio dos ricos, dos brancos, evangélicos, aposentados e moradores do Sul. O ex-juiz avança nos redutos de Bolsonaro e também é rejeitado por nordestinos, estudantes e pobres.

Moro é mais do que uma armadilha que Bolsonaro não conseguirá desarmar tão facilmente. O ex-juiz passa a usar Bolsonaro como hospedeiro.

Moro é o Alien que Bolsonaro atraiu para a sua nave, onde cabem militares, milicianos, incendiários, terraplanistas e, claro, justiceiros.

O terror tem muitas faces, e a que se revela agora para Bolsonaro tem a cara de alguém que parecia acossado, derrotado e, depois de descoberto, pronto para saltar fora sem conseguir engolir ninguém.

Se decidir saltar do ventre que o abriga, quem ficará mal será o hospedeiro. O Alien irá se acomodar em algum compartimento de alguma outra nave.

O amplo espaço da direita, incluindo a nova direita extremada paulista, dissimulada como bacana e tucana, está aberto para Moro.

QUEM TEM MEDO DA BORDUNA DE BOLSONARO?

Bolsonaro começa a deixar claro o que acha que é ou pretende ser com sua aposta na radicalização do discurso de extrema direita:

“Se eu levantar a borduna, todo mundo vai atrás de mim e eu não fiz isso ainda”.

Foi o que disse em café da manhã com os jornalistas Sergio Dávila e Leandro Colon, da Folha. É uma ameaça com arma de índio, logo ele que deprecia tanto os povos da Amazônia e pretende tomar suas terras.

Mas a situação de Bolsonaro não está fácil. O DataFolha assegura hoje que o contingente que olha para a borduna dele é muito menor do que aquele um terço que aparece nas pesquisas.

O núcleo duro do bolsonarismo, a turma que o apoia de forma incondicional, seria de apenas 12% do eleitorado. Quantos desses seguiriam a borduna? E o que, afinal, significa hoje essa borduna meio mole?

A turma do Queiroz sabe? Os militares sabem? Sergio Moro conhece a borduna? Dávila, diretor de redação da Folha, e Colon não perguntaram a Bolsonaro o que a ameaça significa.

Faltou um Glenn Greenwald para fazer a pergunta.

BOLSONARO AFUNDA

Manchete da Folha segue no mesmo ritmo de ontem, enquanto Bolsonaro caminha para o desastre.
“Brasileiros pobres e entre 35 e 59 anos puxam alta na reprovação a Bolsonaro, aponta Datafolha.
Rejeição ao governo cresce mesmo em segmentos bolsonaristas, como moradores do Sul, e entre os mais ricos e escolarizados, aponta Datafolha”.
O único segmento em que o apoio ao governo cresceu foi o do neopentecostais. Cai entre jovens, ricos, brancos, mulheres, negros, idosos, pobres.
Bolsonaro já é há muito tempo um pregador ‘religioso’ que diz governar o país em nome de uma minoria.
O Brasil tem finalmente uma seita no poder, comandada pela família que desafia toda a estrutura política e institucional, as leis e as normas elementares de costumes e convivência.
Quando tudo isso irá acabar, se tem apoio até dos militares, antes de piorar mais um pouco?
Feita de outra forma, a pergunta que atormenta a todos hoje, inclusive os britânicos, é essa: como a democracia dará conta dos dilemas e das aberrações que ajudou a criar?

O BOLSONARO DO FUTEBOL

Felipão foi mandado embora pelo Palmeiras. Sempre foi a expressão do bolsonarismo no futebol, antes mesmo da existência do bolsonarismo.
É direitoso, esquemático, previsível, quadrado. Desde o 7 a 1 contra a Alemanha, Felipão só maltrata e brutaliza o futebol. É o que Bolsonaro faz na política.
Marcos Rocha, aquele lateral que lança bolas na área com as mãos, durante todo o jogo, é a cara das soluções pensadas por Felipão. Rocha é induzido pelo técnico ao atalho simplista e medíocre.
Felipão, o amigo de Bolsonaro e adorador de Pinochet, vinha fazendo no Palmeiras o que Bolsonaro faz no governo. Uma hora Bolsonaro também irá tomar 7 a 1.