GREENWALD É CRUEL COM AS TARAS BOLSONARISTAS

O jornalista Glenn Greenwald cometeu a maior crueldade com os militantes da extrema direita nas redes sociais. Ao dizer que o Intercept não irá divulgar mensagens que contenham intimidades do pessoal da Lava-Jato, Greenwald cortou o barato do bolsonarismo.

O jornalista deixou claro que não fará com Moro, Dallagnol e suas turmas o que Moro fez com Lula, ao grampear e enviar para a Globo diálogos sem nenhuma conotação política. Essa decisão do Intercept foi anunciada desde o começo, mas a extrema direita ainda tinha esperança.

Os bolsonaristas querem mensagens que acionem suas taras. Os textos falsos que estariam circulando pela internet, com informações sobre intimidades de lava-jatistas, mexeram com as fantasias dos adoradores de Bolsonaro.

Muitas das analogias primárias que eles tentam fazer, para refletir sobre qualquer assunto, passam pela ideia da sacanagem. O próprio Bolsonaro é o autor da frase que melhor expressa essa fantasia doentia. “O Brasil é uma virgem que todo tarado quer”.

Machismo, estupro, homofobia, violência são componentes presentes publicamente nas taras da extrema direita. Por isso Greenwald frustra muita gente excitada ao sonegar a possibilidade de divulgação de mensagens íntimas.

O bolsonarista quer mensagens íntimas, as mais devassas possíveis, mesmo que sejam contra os gurus deles. Eles só conseguirão entender o que se passava na Lava-Jato se tiverem acesso a sacanagens.

O bizarro é o combustível do fascista. Como o Intercept não irá divulgar nada do que eles pedem, é provável que eles mesmos passem a criar mensagens com suas obsessões. O fascista é um depravado exibicionista e insaciável.

DER STÜRMER E O ESTRUME

Der Stürmer era um jornal nazista que fazia o jogo mais pesado dos bandidos de Hitler. Der Stürmer divulgava notícias só para aterrorizar os judeus. Não interessava se eram verdadeiras. O que importava era espalhar o pavor.

No Brasil de hoje, seu equivalente é o jornal virtual O Antagonista. O jornal de Diogo Mainardi, o homem-mosca, com sede em Veneza, é usado para anunciar as perseguições da Lava-Jato às esquerda e agora ao jornalista Glenn Greenwald e ao deputado David Miranda.

O Antagonista foi quem anunciou que o Coaf estaria investigando Greenwald (o Coaf não nega nem confirma). O mesmo jornal anunciou que Miranda teria participado da decisão de Jean Wyllys de deixar o país, para poder ficar com sua vaga na Câmara, na condição de suplente.

Segundo o jornal, o deputado estaria sendo investigado por isso. É uma fofoca da extrema direita, fomentada por um deputado neopentecostal. Mas o Antagonista persegue Miranda não só por sua ligação afetiva com o jornalista do Intercept. Miranda é combatente de esquerda contra as milícias e é gay.

Isso incomoda O Antagonista, que não prova nada do que informa, como Der Stürmer também não provava. Os dois, cada um na sua época, dedicam-se com submissão aos déspotas no poder.

Diogo Mainardi é comentarista das organizações Globo. Faz, como dono do site da direita, o jogo sujo que a Globo não pode fazer. É o mesmo truque da Alemanha nazista.

Os nazistas tinham um jornal oficial, o Völkischer Beobachter, mas as missões mais imundas eram cumpridas pelo Der Stürmer. O jornal radicalizava o nazismo (como se isso fosse possível), combatia com violência tudo que considerasse comunista e atacava judeus, gays, ciganos.

O Antagonista é o jornal do branco reaça homofóbico bolsonarista. Contribuiu para o golpe e agora é porta-voz da Lava-Jato e do que existe de pior na direita brasileira. É o único jornal assumidamente lava-jatista.

Der Stürmer quer dizer O Atacante. Mas hoje, para que o nome seja adaptado, pela sonoridade, ao equivalente Antagonista porta-voz da Lava-Jato, da extrema direita e do bolsonarismo, podemos dizer que o jornal se chamava mesmo O Estrume.

O SURTO AGORA É INTERNACIONAL

O mais impressionante é que o filho de Bolsonaro se considera mesmo apto a ocupar a mais importante embaixada do Brasil. Com a maior naturalidade.
E na cabeça do Bolsonaro pai, a diplomacia chegaria à perfeição se os filhos dos presidentes, e não os diplomatas, ocupassem as embaixadas.
A discussão sobre nepotismo nem é a mais relevante agora, apesar de aparecer em todas as notícias. Essa questão, se um filho pode ou não ser embaixador nomeado pelo pai presidente, só deveria ser abordada se a primeira grande dúvida estivesse desfeita.
E a primeira dúvida é se o rapaz tem condições de ser embaixador e chefiar diplomatas de carreira que estudaram para fazer mediação, para negociar, para ouvir e ceder, e não para gerar conflitos.
Eduardo Bolsonaro é um propagador de ódios, desconfianças e afrontas, não tem nada do caráter da diplomacia, sem falar nos requisitos técnicos.
Se não entende nem respeita a linguagem de uma conversa cotidiana da política, como o filho do homem poderá querer entender a linguagem complexa da diplomacia?
Alguém tem que impedir que mais essa loucura se concretize. O surto de toda a família era doméstico. Agora é caso internacional.

O duelo com o pavão

Quando a esquerda pensou que travaria um grande duelo na Internet com o Carluxo e os robôs do seu pavão misterioso? Todos merecemos o pavão que saiu do armário, pelo menos como pavão.
O limite hoje é apenas o absurdo do dia seguinte, indefinidamente. O absurdo de hoje não será mais nada daqui a uma semana.
Se os filhos de Bolsonaro fossem declarados pelo pai como príncipes herdeiros, desfilando por aí com todas aquelas comendas que todo mundo ganha do governo, a vida continuaria e o povo seria ainda mais feliz, com carruagens, casamentos reais, luxo, luxúria e fofocas.
O Brasil merece os Bolsonaros, merece até mais do que eles já fizeram. O país pede mais e mais do reino dos Bolsonaros.
A família Bolsonaro, a direita, a extrema direita sabem que ficou fácil manobrar com todas as ignorâncias. Somos um país acovardado, imbecilizado e achinelado.
O Brasil é um monte de Bolsonaros, alguns enrustidos, outros dissimulados, mas com o mesmo caráter, terrivelmente Bolsonaros.

O INSUPORTÁVEL

Ninguém aguenta mais os argumentos enviesados e rasos de Sergio Moro. É difícil suportar a pobreza mental do ex-juiz e as suas tentativas de imbecilizar ainda mais os imbecis.

Mas o que vai ficando insuportável mesmo é a voz de Sergio Moro. Ninguém aguenta ouvir Sergio Moro todos os dias com aqueles falsetes de voz de adolescente e aquelas pausas de han… han… han e é…é… é… de quem busca alguma ideia num balão, digamos, vazio e cheio de nada.

Essa história do balão é dele. Moro se esforça, mas tem recursos literários que envergonham o baixo clero do Congresso. É uma figura que produz frases e sons desagradáveis.

Por isso não convoquem mais o ex-juiz para depor no Congresso. Evitem que ele nos obrigue a ouvi-lo.
Ninguém aguenta mais ouvir Sergio Moro citando sempre o mesmo “pensador-jurista” liberal americano que o isenta de culpas. É sempre o mesmo pensador, porque não há outro.

É insuportável ouvir o ex-juiz repetir que talvez tenha dito algo, que pode ter cometido um descuido, mas que não reconhece a autenticidade do que vaza das conversas da Lava-Jato porque não se lembra de nada.

Ninguém suporta mais ouvir Sergio Moro dizer que sumiu com o sistema de mensagens do seu celular há dois anos e que ele é vítima de uma equipe de hackers milionários que pretendem destruir a Lava-Jato.

Por favor, não chamem mais Sergio Moro para depoimentos em que ele debocha da imprensa, desqualifica o jornalista Glenn Greenwald e o Intercept e ainda se apresenta como o Batman do Judiciário. Mas sempre como se estivesse contendo um arroto ou alguma coisa que ameaça sair pela boca.

Economizem a toxidade de Sergio Moro. Vamos esperar o processo em que ele terá um dia que se explicar por suas ações na Lava-Jato. Vamos nos poupar para o dia em que poderemos ouvir Sergio Moro como réu.

O PAÍS SUICIDA

O bolsonarismo vai incorporando ao cotidiano de um país doente o que seria improvável e absurdo. Um juiz condena o principal adversário de um candidato e vira ministro do vitorioso beneficiado pela condenação, o miliciano assassino de uma líder política é vizinho do presidente, um traficante pega carona no avião do presidente numa viagem internacional, o filho-senador do presidente envolve-se com milicianos, o presidente empresta dinheiro a um miliciano, o miliciano deposita dinheiro na conta da mulher do presidente, o presidente e os filhos dele defendem que o país todo se arme, se possível com fuzis, um empresário quebrado se mata com um tiro na cabeça diante de um governador e de um ministro, um filho do presidente diz que houve apenas mais uma falha da segurança, e o presidente continua assegurando, como se tivesse o controle absoluto de tanto desvario, desespero e alienação, que tudo é obra de Deus, porque Deus está acima de todos.

MANDARAM A CONTA PARA SERGIO MORO

O fracasso das manifestações de domingo é a primeira fatura entregue ao ex-juiz que virou político e vê sumir a chance de virar ministro do Supremo, depois da força destruidora dos vazamentos de conversas pelo Intercept.

Agora, Moro é considerado pelos aliados e pelos inimigos políticos apenas um deles. É nesse pantanal que tanto desdenhou que o ex-chefe da Lava-Jato terá de aprender a se movimentar, ou fracassará também em relação às suas pretensões às eleições de 2022.

Moro já está até procurando acertar o tom, como fez na mensagem que despachou pelo Twitter no domingo: “Eu vejo, eu ouço. Lava-Jato, projeto anticrime, previdência, reforma, mudança, futuro”.

É algo na linha da política de autoajuda, mais religiosa, rasa, que tenta se aproximar do povo com o que tem de pior.
Então Moro vê e ouve. E interpreta assim que o povo quer mais Lava-Jato, combate ao crime, nova previdência. E algo mais vago sobre mudança e futuro.

É o ministro da Justiça fazendo média com o chefe e erguendo a bandeira da reforma da previdência, o mais impopular dos projetos políticos das últimas décadas. Mas é o preço a ser pago.

Há um dado a favor desse Moro religioso. Nas manifestações, foi ele, e não Bolsonaro, o mais lembrado em faixas, cartazes e gritos de guerra. A classe média reage à ameaça de enfraquecimento da sua figura diante dos vazamentos e da possibilidade de libertação de Lula.

Mas há mais coisas contra do que a favor dele. Os políticos, inclusive aliados, começam agora a tramar para fragilizá-lo. Desaparece o ex-juiz que caçava o crime organizado e pretendia ser colega de Luiz Fux. Entra no baile o sujeito que não sabe direito o que poderá ser na semana que vem.

Pelas atitudes, pelo discurso ainda enviesado e pela necessidade de sobrevivência, Moro vai se afastando do homem de preto de gravata borboleta, que frequentava as festas tucanas, e tenta construir a figura do juiz do povo que fará política. Por isso ele vê e ouve, como um mestre que aprende com seus discípulos.

Moro tem ingredientes para ser uma das figuras mais esdrúxulas da política brasileira, porque talvez não se livre completamente dos cacoetes dos togados e possivelmente não consiga alcançar o tom dos que pretende imitar.

O chefe da Lava-Jato desaparece aos poucos como caçador de corruptos e é provável que nada surja em seu lugar. O ex-juiz talvez venha a ser enquadrado pela definição que ele mesmo usou para os mais recentes vazamentos do Intercept. Um balão vazio cheio de nada.

APOIADORES EM FUGA

Conclusões interessantes a partir das análises de quem acompanhou de perto as manifestações de domingo, principalmente no Rio e em São Paulo.
A direita rachou, não só com a intensificação de ataques dos bolsonaristas a novos inimigos do reacionarismo e do governo, como Rodrigo Maia.
Parte dos apoiadores bacanas de Sergio Moro, da classe média branca e bem situada, agora se nega até a dizer que apoia Bolsonaro. Isso ficou bem evidente em São Paulo.
Mas a conclusão mais importante é esta: o fracasso das manifestações de hoje indica uma redução do apoio explícito a Bolsonaro e à extrema direita.
O apoio passa a ser constrangido. Os que ainda vão pra rua usam como argumento a defesa de Sergio Moro, da Lava-Jato e da reforma da previdência. A extrema direita pôs a correr parte da direita, inclusive a tucana sem pai nem mãe, que vinha apoiando Bolsonaro.
Tanto que o enfrentamento de parte dos bolsonaristas com o MBL explicita e torna público, agora nas ruas, um confronto que vinha sendo de bastidores. Os dois grupos agora se hostilizam descaradamente. Os bolsonaristas enfrentam o MBL porque consideram seus líderes traidores das causas da extrema direita (os ataques ao Supremo, por exemplo) e dos projetos do governo.
Essa extrema direita de raiz apareceu hoje com força principalmente em São Paulo, o que faz com que o MBL e outros grupos sejam quase moderados.
Outro dado: desapareceram para sempre os partidos na articulação da direita que vai pra rua (incluindo o PSL) e se fortalecem cada vez mais os grupos pretensamente à margem da política tradicional (Direita São Paulo, Nas Ruas, Vem Pra Rua).
A extrema direita vai dormir sabendo que parte da classe média que usou Bolsonaro para fazer o serviço sujo pode estar saltando fora. Essa classe média não é do PSL, não é Bolsonaro, não é nada do que existe aí e está apenas à espera de Doria Júnior ou Luciano Huck.
Tem direitista que, por mais que seja antiLula e antiPT, não aguenta esse tranco. Bolsonaro, seus filhos e ala mais enlouquecida do bolsonarismo estão colocando muita gente a correr.

Rubens Valente e o casal poupado

Artigo de Rubens Valente hoje na Folha sobre um assunto que a imprensa esqueceu. A constrangedora manobra do Ministério Público Federal que blindou os Bolsonaros. Aqui se entende como o casal irá escapar, se pegaram mesmo o filho de Bolsonaro e a turma do Queiroz.
Este é o texto:

INVESTIGAÇÃO SOBRE O CASO QUEIROZ POUPA O CASAL BOLSONARO

Rubens Valente

O escritor Ivan Lessa (1935-2012) dizia —ou pelo menos dizem que ele dizia— que, a cada 15 anos, o país esquece o que aconteceu nos 15 anteriores. Em tempos de “Justiça seletiva”, uma expressão que está na moda, cabe atualizar a conta para um ou dois anos.
Vejamos o caso de Fabrício Queiroz. O ex-assessor amigo da família Bolsonaro tinha uma conta bancária turbinada com parte dos salários de assessores da Assembleia Legislativa do Rio. Dinheiro público, portanto. Nessa mesma conta foi compensado um cheque de R$ 24 mil em benefício da primeira-dama, Michelle Bolsonaro.
Após um sintomático delay de 38 horas, o presidente saiu em defesa da mulher. Disse que Queiroz devolvera dinheiro de um empréstimo pessoal seu e que o valor total na verdade era maior, R$ 40 mil, quitado em prestações.
Desde então sabemos que a conta alimentada com dinheiro público também alimentou o casal Bolsonaro. Isso posto, o que fez o sistema judicial encarregado de apurar o caso Queiroz? Quebrou o sigilo da primeira-dama ou do presidente? Não. Tentou ouvi-los em depoimento? Não. Ao menos instou o presidente a esclarecer alguma coisa por escrito? Não.
Os responsáveis por esse lapso têm endereço: o Ministério Público Federal no Rio e a Procuradoria-Geral da República em Brasília. Os dois órgãos abriram mão do caso, que acabou enviado ao Ministério Público estadual, preso a limites jurídicos e políticos. Simplesmente não pode intimar Bolsonaro, por exemplo.
Até pouquíssimo tempo atrás policiais, procuradores e juízes sabiam que a mera menção a autoridades com foro privilegiado paralisava a apuração, que devia ser imediatamente enviada ao tribunal competente para prosseguimento. De repente, não é mais assim no Brasil. E nenhuma autoridade constituída reage contra essa proteção ao casal Bolsonaro, que em outro momento histórico seria chamada de blindagem judicial.

O pó no colo de Bolsonaro

O escândalo do traficante que pegou carona na viagem de Bolsonaro é mais do que um caso policial. Este é meu artigo quinzenal no Extra Classe.

https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2019/06/o-po-no-colo-de-bolsonaro/?fbclid=IwAR0Dksp3hGZDJIsrL-45wuw2KzQdc_N7w2Wc78eKkBKo7g_Hg3nCrKmlbEQ