A ISCA DE BOLSONARO

Alguns jornalistas e políticos morderam a isca de Bolsonaro. Espalharam que o sujeito demitiu Osmar Terra do Ministério da Cidadania por suspeita de envolvimento com uma empresa investigada por fraudes milionárias, a Business to Technology, a tal B2T.

A Polícia Federal de Sergio Moro investiga há muito tempo a B2T como organização de fachada acusada de fornecer serviços de tecnologia de informática ao Ministério do Trabalho no governo Temer. Já pediram o bloqueio de cerca de R$ 76 milhões nas contas dos investigados.

E Terra contrata logo a mesma empresa para prestar serviços ao Ministério da Cidadania. Mas será que Bolsonaro, atormentado pela possibilidade de vingança dos milicianos pela morte de Adriano da Nóbrega, estaria preocupado com suspeitas de corrupção?

Qual foi o outro gesto de Bolsonaro para punir possíveis corruptos, quando se sabe que muitos envolvidos em rolos (inclusive os chefes dos laranjas do PSL) são protegidos dentro do governo?

O que Bolsonaro fez foi reacomodar Onyx Lorenzoni e acolher mais um general, mandando embora o ministro mais medíocre do governo. Damares, Araujo, Salles e outros menos votados são de outra categoria, não há como avaliar nenhum deles por critérios de competência.

Com a história de que demitiu Terra por questões “morais”, Bolsonaro tenta se grudar a Sergio Moro, para que o ex-juiz não fique se exibindo sozinho como caçador de corruptos.

Quem imagina que Bolsonaro, o amigo de Adriano e vizinho de Ronnie Lessa, possa de uma hora para outra virar caçador de corruptos?

GUEDES USA AS DOMÉSTICAS PARA AVISAR OS AMIGOS

Paulo Guedes mandou dois recados ao fazer o comentário sobre o dólar e a história das viagens das empregadas domésticas para a Disney.
O primeiro recado não foi, como se pensa, para as domésticas, mas para os especuladores. Ao dizer que o dólar se manterá alto, Guedes deu uma senha: divirtam-se com o enfraquecimento da moeda nacional.
Tanto que ontem o dólar subiu depois da fala do sujeito e chegou a R$ 4,38 e só caiu porque o Banco Central entrou no mercado e ofereceu a moeda americana. Bolsonaro está queimando à vontade as reservas formadas nos governos Lula e Dilma.
É uma festa. E até as domésticas vão sendo usadas como pretexto. Como queria mandar o recado para os amigos, Guedes desqualificou as empregadas, porque ele não deseja mesmo ver pobre viajando de avião.
Guedes não estava falando das domésticas, mas dos pobres em geral. Pobres e negros. O bolsonarismo odeia pobre.
Ele não podia simplesmente dizer: prestem atenção, meus amigos, porque o dólar não vai cair, ao contrário, vai continuar subindo. Então, usou as domésticas.
Porque ele sabe que empregada doméstica só viaja para os Estados Unidos para acompanhar as patroas.
Ingênuos devem estar dizendo: mas quem manda na política monetária e faz a gestão da moeda é o Banco Central. E eu digo: então tá.

Ainda o silêncio

Estou a mais de 2 mil quilômetros de Brasília e ouço daqui o silêncio de Bolsonaro, dos filhos de Bolsonaro e de Sergio Moro sobre a execução do miliciano amigo deles.
Quanto maior é a distância de Brasília, mais retumbante é o silêncio de todos eles.
Adriano da Nóbrega prestou grandes serviços à família. Foi abandonado e teve de se enfiar num mato, como faziam as vítimas de assassinatos do Escritório do Crime que ele comandava.
Se não falarem, se não disserem pelo menos uma frase de condolência, os Bolsonaros e Sergio Moro oferecerão a prova de que o assassinato os abalou.
Como escreveu Helena Chagas no DCM, o arquivo morto ainda pode assombrar a família Bolsonaro. Mataram o arquivista, mas seu acervo e seus rastros, que podem levar à família, não serão facilmente apagados.
E que não se esqueçam dos amigos e parentes de Adriano, que os Bolsonaros devem conhecer muito bem.

Por que mataram?

Se Adriano não era perigoso nem interestadual, mas apenas um bandido carioca regional, como argumentaram os elaboradores da lista dos procurados de Sérgio Moro, por que estava sendo caçado de forma implacável na Bahia?
É o meu texto no Brasil 247.

https://www.brasil247.com/blog/cacaram-e-mataram-um-bandido-que-moro-nao-queria-procurar

A musa do verão

Maria Bopp, a blogueirinha do fim do mundo, é mais do que a musa do verão, é a nova cara da inteligência de esquerda que usa a arte, o humor e ironia para se expressar. Vejam a entrevista dela para Kiko Nogueira e Pedro Zambarda para o DCM TV.

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-maria-bopp-a-atriz-que-viralizou-com-o-tutorial-de-maquiagem-bolsonarista-fala-ao-dcm/

O SERVIDOR ACEITA O APARELHAMENTO DO ESTADO?

O ex-secretário-executivo de Onyx Lorenzoni, José Vicente Santini, não viajou sozinho em avião da FAB para Davos e depois para a Índia. Santini teve a companhia de duas secretárias da Casa Civil para passar também um dia na Sicília.

Outros servidores sabiam antes da viagem que aquela ideia, com ou sem o turismo na Sicília, não daria certo e não deu.
Mesmo assim, Santini havia conseguido convencer duas subalternas (uma foi depois promovida) a integrar a aventura da sua microcomitiva. E os assessores que foram convidados e saltaram fora?

É desses servidores com dilemas e dúvidas, em especial os quadros de carreira do setor público, que o Estado sempre dependeu para que não aconteçam não só os desmandos, mas o processo que o bolsonarismo acelerou nos últimos meses: o aparelhamento do Estado sob a indiferença de quem deveria reagir.

O bolsonarismo aparelhou sem disfarces a área ambiental, a educação, a cultura, a agricultura e a política de direitos humanos e costumes. Porque a estrutura estatal se submete ao aparelhamento.

Mas será possível aparelhar a área policial, sob comando de Sergio Moro, a partir da suspeita de que o ex-juiz foi submetido às pressões de Bolsonaro, que o testou para saber se ele detinha de fato o controle absoluto da Polícia Federal?

Disseminou-se há pouco a suspeita, baseada em dados e fatos, de que Moro não se esqueceu de incluir na lista dos 26 bandidos mais procurados do país o nome do miliciano Adriano da Nóbrega, ligado aos Bolsonaros. Foi uma decisão pensada.

Se a lista tem até ajudantes de bandidos, como o poderoso Adriano pode ter ficado de fora? Integrantes da Coordenação-Geral de Combate ao Crime Organizado, do Ministério de Moro, devem saber. Eles sabem mais do que a resposta oficial de que o miliciano é apenas um bandido regional e que por isso foi descartado.

Por que os que sabem não falam? Quando irão se manifestar os servidores constrangidos por ações que liberam criminosamente os agrotóxicos, atiçam a perseguição às tribos da Amazônia e incentivam a destruição da floresta?

Quem do Ministério da Educação pode liderar uma reação à destruição, por um ministro analfabeto, das universidades públicas, do Enem, do Fies e daqui a pouco do sistema de cotas? Alguns do Ibama já se manifestaram, mas só alguns bravos.

A lei 8.027, de 12 de abril de 1990, trata da conduta dos servidores públicos. No artigo 116, está escrito que servidores devem cumprir ordens superiores, “exceto quando manifestamente ilegais”. Mais adiante, diz que o servidor deve levar “ao conhecimento da autoridade superior as irregularidades de que tiver ciência em razão do cargo”.

A viagem dos brancaleones da Casa Civil de Onyx no avião da FAB não teria sido um ato manifestamente ilegal. A liberação no atacado de venenos para a lavoura pode até se proteger em brechas legais.

A lista de Sergio Moro com os bandidos foragidos, mas sem o miliciano mais procurado do Brasil, pode ser defendida com argumentos subjetivos e só aparentemente objetivos. Mas talvez a proteção ao miliciano não caracterize ilegalidade.

O aparelhamento do Estado não teme o “manifestamente ilegal”, porque arranja desculpas que tornam suas ações protegidas por alguma normalidade.

Resistir ao aparelhamento, como os servidores resistiam na ditadura – muitos deles martirizados pela perseguição, pela cassação, pela tortura e pela morte –, é mais do que apontar ilegalidades.

Um servidor do Ministério da Justiça, um só, que sabe por que Adriano ficou de fora da lista de Moro, seria suficiente para expor e ajudar a conter ações que produzem suspeitas de aparelhamento da área comandada pelo ex-juiz.

Em qualquer atividade, e mais ainda no serviço público, os melhores códigos de conduta, que desafiam a cumplicidade da subserviência e da obediência devida, são os não-escritos. O bolsonarismo não tem o poder de revogá-los.

(Texto publicado originalmente no Brasil 247)

https://www.brasil247.com/blog/o-servidor-aceita-o-aparelhamento-do-estado