A CULPA É DO ERRO OPERACIONAL?

Um erro operacional grave. É como Sergio Moro define o massacre de Paraisópolis.
O estouro da bomba no colo do sargento Guilherme do Rosário, no atentado do Riocentro, em 1981, também foi resultante de um erro operacional.
Torturadores da ditadura diziam se exceder em suas tarefas e assim cometiam assassinatos por erro operacional. Vladimir Herzog foi morto assim numa masmorra militar.
O erro operacional pode ser usado para explicar de delitos leves a crimes bárbaros, nas mais variadas circunstâncias.
O massacre de 111 presidiários do Carandiru, em 1992, teria sido provocado pela perda de comando e por um erro operacional da polícia militar.
Na origem das matanças das barragens que estouram em Minas, estão erros operacionais.
Quanto maior a chance de impunidade, maior a possibilidade de ‘erro operacional’.
Pobres, negros, índios e mulheres são eliminados todos os dias por assassinos que recorrem à desculpa do erro operacional.

DESAFIO A SERGIO MORO

Depois do massacre de Paraisópolis, Sergio Moro participaria de um debate ao vivo sobre excludente de ilicitude?
Não de um debate com jornalistas amigos na TV, mas com pessoas comuns, com moradores de comunidades que tiveram os filhos, os irmãos e os amigos assassinados pela ação da polícia.
Moro iria defender com o povo a ideia de lei aguardada pelos que massacram, batem, reprimem e atiram em jovens pobres e negros sem medo de serem punidos?
Moro circularia hoje, como defensor do povo e caçador de bandidos, pela favela de Paraisópolis? Ou Moro só fala de excludente de ilicitude para empresários e facções de políticos da extrema direita?
Moro foi esses dias ao Congresso defender suas ideias sobre a licença para matar bandidos.
Se o ex-juiz é o defensor do povo inseguro, que vá defender sua tese lá onde o povo mora.

JANUÁRIO, SEUS FILHOS E OS LIBERAIS BOLSONARISTAS

Há duas bombas nos jornais hoje. A primeira é a revelação de que o doleiro Dario Messer pagava propinas ao procurador da Lava-Jato Januário Paludo. É reportagem de Vinicius Konchinski, no UOL.

Januário é aquele dos Filhos de Januário, o grupo de mensagens do Telegram que trocava informações da turma de Deltan Dallagnol sobre a caçada a Lula em conluio com Sergio Moro.

A confissão está em conversas grampeadas pela Polícia Federal. Espera-se agora a delação formal do doleiro, que está preso, para saber se apenas Januário ou também os filhos são acusados do recebimento de propinas.

(Observem que na famosa foto de Januário e seus filhos, Januário é o único numa posição de submissão, com as mãos às costas.)

A segunda bomba é a admissão de Demétrio Magnoli, um dos grandes pensadores do liberalismo brasileiro, de que o liberalismo é hoje uma farsa dentro de um projeto totalitário. É o aperfeiçoamento de um modelo que só teria êxito sob controle absoluto de um déspota.

Magnoli adverte que as falas de Eduardo Bolsonaro e de Paulo Guedes sobre o AI-5 não expressam medo do governo com eventuais manifestações de rua.

Na verdade, os dois estão induzindo à realização de protestos para exercer então a repressão e impor um governo ditatorial. Só assim o esquema funcionaria plenamente. Não é novidade, mas é dito agora por um liberal.

O que ele não disse é que esse mecanismo depende da perseguição aos que dele discordam. Faltou coragem a Magnoli para admitir que o Brasil está sob lawfare, a perseguição do Judiciário a Lula, imposta pela facção da Lava-Jato.

Faltou admitir que, sem a caçada a Lula, o liberalismo de que ele fala não poderia prosperar livremente sob o comando de Bolsonaro e dos milicianos (quem diria que os liberais brasileiros teriam essa bela parceira).

A engrenagem só funciona se amordaçar quem pensa o contrário e pode chegar ao poder (como já chegou) para conspirar contra o totalitarismo bolsonarista-liberal.

Mas talvez Magnoli volte ao assunto, quando a Polícia Federal decidir levar adiante a denúncia contra o procurador denunciado por levar propinas do doleiro.

Sempre lembrando que a polícia está sob o controle do liberal Sergio Moro.

A Justiça tomada

Não se impressionem com o que acontece no TRF4, onde até a literatice foi rebaixada. As próximas gerações do Judiciário e do Ministério Público serão ainda mais submissas às orientações de uma direita tomada pela extrema direita.

É só conversar com juristas que pressentem o que vem aí. A realidade que nos espera mais adiante, e daqui a pouco, é mais assustadora.

Hoje, ainda temos focos de resistência, como demonstram os promotores que lutam bravamente contra a manipulação do caso Queiroz-Flavio Bolsonaro no Rio e os policiais que resistem às tentativas de Sergio Moro de desmonte das investigações do assassinato de Marielle.

Mas é provável que daqui a pouco esses focos, visíveis em outros casos, sejam tão insignificantes, em termos numéricos, que não haverá mais nada a fazer.

Vozes como a do desembargador Rogério Favreto, solitário contra o reacionarismo de baixa qualidade do TRF4, não mais serão ouvidas. Já sabemos que serão extintos também os últimos focos de resistência no Supremo.

Erram, e erram muito, os que se agarram a questões aparentemente “técnicas” para entender o que levou o TRF4 a afrontar o Supremo no caso do sítio de Atibaia. A afronta não é técnica. É cada vez mais política, é ideológica, estúpido.

O MP e o Judiciário, junto com as polícias, caminham para o fundamentalismo. Teremos réplicas de Moros e Dallagnóis por toda parte. É o que as ignorâncias disseminam como modelo.

O sistema de Justiça está deixando de ser apenas conservador, seletivo e punitivista de inimigos da esquerda, pobres e negros para ser assumidamente de extrema direita.

LAVA-JATO CONFESSA QUE MORO MENTIU

A Lava-Jato finalmente admitiu que vazava de forma seletiva as gravações com os grampos que fez de Lula. O argumento é a admissão de um delito.
A turma de Deltan Dallagnol informa, em nota enviada hoje à Folha, que “o grau de sigilo das escutas telefônicas realizadas durante as investigações do caso (referindo-se às operações de Curitiba de caçada a Lula) variou de acordo com a gravidade dos crimes revelados pelos diálogos interceptados pela Polícia Federal”.
Claro que para eles o que importava era grampear e divulgar os grampos que envolviam Lula. Os outros grampos não eram enviados para a Globo e os amigos dos jornais.
“Quanto maior a gravidade dos fatos, menor o grau de sigilo”, afirmou a força-tarefa a respeito de reportagem de hoje da Folha sobre o fato de que a Lava-Jato só vazava os grampos de Lula.
“A decisão no caso envolvendo o ex-presidente Lula seguiu esse mesmo princípio, sendo devidamente fundamentada”, afirma a nota.
A força-tarefa de Dallagnol acaba desmentindo o próprio Sergio Moro, chefe de fato de Dallagnol.
A Folha relembra que, ao tornar públicas dezenas de conversas telefônicas de Lula, Moro disse que em 2016 seguira o padrão estabelecido em outros casos da Lava-Jato, ou seja, argumenta que divulgava grampos aleatoriamente.
Levantamento do próprio MP, obtido pelo Intercept e divulgado hoje pela Folha, mostra que apenas as escutas de Lula eram divulgadas.
E agora a nota do Ministério Público informa oficialmente, ao admitir o vazamento seletivo, que Moro mentiu. O padrão era outro, era o de grampear muitos, mas divulgar apenas os grampos de Lula. Moro e Dallagnol eram seletivos para tentar incriminar Lula.

A MANCHETE CONTRA MORO QUE A FOLHA NÃO DEU

A Folha parece envergonhada com a própria manchete:
“Moro contrariou padrão da Lava Jato ao divulgar grampo de Lula, indicam mensagens”

Contrariar o padrão é um jeito tucano de dizer que Moro agiu sempre para perseguir Lula, ao divulgar apenas os grampos que interessavam ao plano do lavajatismo.

Esta deveria ter sido a manchete:
“Moro só divulgava os grampos contra Lula”

Moro divulgou os grampos que fez de Lula, incluindo a conversa do ex-presidente com a presidenta Dilma Rousseff, porque aqueles eram os grampos que favoreciam a caçada.

A própria turma do Ministério Público na Lava-Jato fez o levantamento em 2016, vazado por troca de mensagens entre os envolvidos no conluio.

A nova revelação da Folha, baseada no material obtido pelo Intercept, que apenas reafirma o que já se sabe: Moro só queria dar publicidade aos grampos de Lula. O Intercept conseguiu mais uma prova do modo de agir do ex-juiz:

“O levantamento da Lava Jato (de 2016), que analisou documentos de oito investigações em que também houve escutas telefônicas, indicou que somente no caso do ex-presidente os áudios dos telefonemas grampeados foram anexados aos autos e o processo foi liberado ao público sem nenhum grau de sigilo”.

Diz a Folha: “Nos outros exemplos encontrados pela força-tarefa, todos extraídos de ações policiais supervisionadas por Moro na Lava Jato, o levantamento do sigilo foi restrito. Apenas os advogados das pessoas investigadas puderam ter acesso aos relatórios da PF e aos áudios com as conversas interceptadas”.

Mas, ao invés de dizer que Moro só divulgava os grampos de Lula, a Folha decidiu passar o pano na própria manchete e sair com essa de que o ex-juiz contrariava “o padrão” da Lava-Jato. Mais um pouco e o jornal pede desculpas pela descoberta que fez ao analisar as mensagens.

O que importa é que o conluio lavajatista se manifesta em várias frentes. O levantamento do MP tentava provar, lá em 2016, que Moro divulgava tudo. Saiu pela culatra. Moro era seletivo contra Lula.

Dallagnol, o prestativo, quis ajudar o chefe, ao dizer que Moro era um vazador compulsivo, mas se deu mal. Moro escolhia o que vazar. O ajudante de Bolsonaro era o justiceiro encarregado pela direita de pegar Lula.

SEMIABERTO DE LUXO

Tacla Duran, o homem que sabe muito sobre a Panela de Curitiba, deve saber também o significado dessa foto de Rosângela Moro, publicada no Instagram, brincando com a fantasia de estar atrás das grades.
Rosângela imagina-se, fazendo pose de tigresa, numa prisão de luxo, com escadas e sofás brancos.
Mulher de ex-juiz sabe tudo de prisão em regime fechado, semiaberto e até simulado.

A ESPERTEZA DE MORO

Do deputado Marcelo Freixo, ouvido pelo Blog do Sakamoto, na Folha, sobre o repentino interesse de Sergio Moro em federalizar o caso Marielle:
“Sergio Moro, enquanto ministro, nunca telefonou para nenhum familiar da Marielle. É o caso de homicídio mais debatido no Brasil, mas nunca falou nada sobre ele, a não ser questionado. E nunca se pronunciou sobre federalização.
“Quando a investigação se aproxima dos Bolsonaros, ele diz que tem que federalizar. O conjunto de fatos nos permite afirmar que ele não está preocupado com a família da Marielle, mas com a família do presidente”.
Depois dessa manobra oportunista de Moro para proteger a família de Bolsonaro, qual será a reação da Polícia do Rio, diante da tentativa de desqualificação do trabalho dos investigadores?
A missão da Polícia agora é provar independência e devolver a ofensa de Moro com mais trabalho.
A Polícia tem que largar o porteiro e Lessa no colo de quem tentou depreciar o que já foi feito.
O ex-juiz abandonou o Plano Estratégico de Defesa do Cigarro Nacional para atuar integralmente como advogado dos Bolsonaros.