A mesa do Faraco

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Há alguns anos tive uma das grandes frustrações literárias fora dos livros ao entrar na Confeitaria London City, em Buenos Aires, e perguntar a um garçom onde ficava a mesa de Julio Cortázar.
A confeitaria da Avenida de Mayo tinha espelhos e imagens de Cortázar por todo lado. Ali ele escrevera alguns de seus contos mágicos e talvez ali tenha enxergado os primeiros cronópios.
Pois eu e Virgínia achamos que o garçom contaria tudo o que sabia, por ouvir dizer, do gênio Cortázar. Poderia criar, inventar, imitar Cortázar, porque assim sua história seria ainda mais verdadeira. Mas aquele homem não sabia nada, nada de Cortázar. Era um cronópio cansado.
Hoje à tarde fomos ao restaurante A Canga, em São Sebastião de Caí, à beira da RS-122. Sentamos e eu disse logo à garçonete que veio nos atender:
– Viemos aqui por recomendação do Sergio Faraco.
Não disse que era o escritor, que era o Faraco famoso, ou que eu estivesse sugerindo algum carteiraço como amigo do maior contista brasileiro vivo.
A moça disse apenas:
– Esta mesa ao lado é a preferida dele.
A moça se chama Veridiana Pires, a simpática Verí. Pronto. Estava ganho o dia. Sentamos ao lado da mesa em que Faraco senta-se com Cybele, os filhos e os netos, não para fazer literatura, como fazia Cortázar na City, mas para comer bem ao lado da família. É um banquete húngaro!!!
Eu pensei então que conhecia a London City onde o garçom não conhecia o Cortázar e não conhecia A Canga, onde a garçonete é admiradora do Sergio Faraco. O restaurante tem uma crônica dele na parede, logo na entrada.
Aí está a Verí na foto, ao lado da mesa dos Faraco, perto da janela, na sala dos fundos do restaurante.
Por que conto isso? Porque a singela sabedoria dessa moça nos confortou com a sensação boa de que ainda vale a pena fazer literatura.