Jones e Escurinho

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Se quisesse, e até quero, eu escreveria 20 boas histórias sobre o Jones Lopes da Silva, que esta semana deixou Zero Hora, depois de subir ao Everest do jornalismo esportivo.

Vou contar uma dessas histórias, porque muitas carecem de melhor apuração e outras são lendas criadas em torno de alguém que há uns 10 anos é mito.

Pois aconteceu no verão de 2011. Eu estava no plantão da Zero e me passaram o telefone: Escurinho queria falar com o Jones ou com o Mario Marcos de Souza.

Atendi e disse: se for o Escurinho do Internacional, tudo o que posso dizer. como gremista, é que, apesar das tristezas que senti por tua causa, pelas vitórias coloradas nos últimos segundos de um jogo, eu te admiro muito.

Ele respondeu:

– Pois então é contigo que preciso falar. Quero contar minha história em livro, mas não sei se o Jones está mesmo interessado. Ele é um homem muito ocupado. Já pedi a ajuda do Mario Marcos.

Eu disse:

– Então eu faço o livro. Vamos sentar e conversar.

Escurinho reagiu:

– Mas e o Jones?

– Deixa que eu me entendo com o Jones.

Segunda-feira, fui até à editoria de esportes e falei bem alto:

– Vou escrever a história do Escurinho.

Jones deu um pulo:

– Epa…

Um epa com reticências, sem muita convicção. E eu falei então da conversa ao telefone com Escurinho. Senti que o Jones ficou abalado. Ele não sabia se eu falava sério ou se estava blefando.

O que sei é que em três meses o livro ficou pronto. Jones pesquisava, visitava fontes depois que saía do jornal e escrevia de madrugada para terminar o livro.

“No Último Minuto – a História de Escurinho: Futebol, Violão e Fantasia” (Signi) é muito mais do que a biografia do jogador, é a história da Porto Alegre dos anos 70 e de antes disso, da música, da arte, boemia, dos tipos da cidade, dos costumes, do contexto histórico.

Resumindo, eu quase fui o Escurinho do Escurinho, para decidir um jogo que ele achava que havia ficado encardido. Escurinho tinha pressa.

E o Jones estava apenas finalizando, com a dedicação dos grandes repórteres, uma obra fantástica. Jones leu trechos do livro para seu personagem, que quase não enxergava mais por causa do diabetes.

Escurinho morreu no dia 27 de setembro de 2011, 40 dias antes do lançamento da biografia na Feira do Livro. Mas sabia que sua história já havia sido escrita por uma das mais sensíveis penas do jornalismo gaúcho.