Geddel não aguenta

Fiquei sabendo por um jornalista gaúcho que mora há anos em Brasília: Geddel não vai aguentar o tranco. Geddel era divertido, sarcástico, era o palhaço do Quadrilhão, mas era também o mais frágil de todos eles.
Geddel é a criança grande da gangue que Janot aponta em detalhes na denúncia rejeitada pelos 300 picaretas da Câmara. O jaburu, ele, Padilha e Moreira Franco formavam um quarteto afinado.
O jaburu, como abelha-rainha, só recebia o butim. Padilha e Moreira operavam a arrecadação. E Geddel, além de arrecadar, era o guarda-malas. É óbvio que os R$ 51 milhões eram da turma.
Ninguém vai acreditar que as malas fossem do Geddel e da mãe dele. Geddel vai delatar e finalmente saberemos de quem eram as malas. Podem surgir outras. Aguardemos Geddel.
Vai depender do Ministério Público. O MP quer mesmo saber de quem eram as malas, ou ficará a última versão de Raquel Dodge de que ele era chefe de quadrilha?

As malas do Geddel

A notícia mais esdrúxula da semana foi esta. Geddel, o prestativo, o guarda-malas do Quadrilhão, quer saber do Supremo quem o delatou para a Polícia Federal e quem da PF recebeu o telefonema com a informação sobre a existência das malas.

Um bandido quer saber quem foi o comparsa que o dedurou, para poder, quem sabe, acertar contas. E quer saber também quem da polícia abriu caminho para que o serviço fosse feito?

Para quê? Por que Geddel teria o direito de saber quem foi o agente que recebeu a informação sobre as malas?

E agora vem a parte mais esdrúxula. Como os advogados de Geddel dizem que a operação foi ilegal, a partir de uma delação anônima, Geddel quer de volta as malas com os R$ 51 milhões.

A operação teria cometido uma falha formal de seguir rastros a partir da informação de uma pessoa que não se identifica.

O que Geddel quer mesmo é as malas com o dinheiro. Vocês podem estar rindo, porque um feriadão permite que se ria de qualquer coisa, mas não é para rir.

Em algum momento, algum juiz pode determinar que devolvam as malas do Geddel? É difícil, é improvável, é absolutamente impossível? Então tá.

Nada mais é impossível no Brasil da Lava-Jato em que Aécio está solto e o Quadrilhão governa e defende abertamente o trabalho escravo. Alguém pode determinar que as malas do Geddel devem ser devolvidas ao apartamento. Com juros e correção monetária. Duvidam? Vai depender do sorteio do caso no Supremo.

A notícia das malas

O avião presidencial, o Air Force Jaburu One, fazia a curva de aproximação para aterrissar na Base Aérea. O voo de Pequim a Brasília havia sido tranquilo. Mas chegara a hora de alguém dar a notícia do sumiço das malas ao jaburu-rei.

Assessores de primeira linha só davam notícias boas ao jaburu. Notícias ruins, só com subalternos de subalternos. Um assessor de terceira linha foi então escolhido por sorteio e se dirigiu até a cabine presidencial, onde o jaburu ajeitava a gravata. O assessor foi direito ao assunto:

– Presidente, sumiram as malas.

O jaburu aprumou-se, deu uma ajeitada no pescoço, mesmo que quase não tenha pescoço, e retrucou:

– Sem problemas. Como sempre digo e tenho repetido, tudo o que perdemos num dia reencontrá-lo-emos no outro.

Outro assessor de terceira linha aproximou-se para tentar esclarecer:

– Presidente, não são as malas que o senhor está pensando…

O jaburu o interrompeu. Disse que malas são extraviadas com frequência em aeroportos. Mesmo em viagens presidenciais. E pediu que o assessor tomasse providências para recuperar as malas com as bugigangas que trouxera para o Moreira Franco e o Jucá:

– Se for preciso, acione o Padilha para que localize as malas.

– Mas…

E de novo o jaburu-da-mala não deixou que o assessor completasse a frase:

– Se não obtivermos resposta a contento, acione de inopino o Gilmar. Se as malas estiverem presas em algum lugar, que ele determine a libertação das malas.

Os dois assessores entreolharam-se, quando chegou um terceiro assessor de quarta linha. Esse assessor, mais decidido, disse com voz firme:

– Presidente, não foram as malas da viagem à China que sumiram. Foram as malas lá de Salvador. As malas da Bahia.

O jaburu-da-mala arregalou os olhos. O assessor continuou:

– Levaram tudo, presidente.

– As malas que estavam sob os cuidados do Geddel?

– Sim, presidente. As malas e as caixas.

O jaburu mudou a voz, como aconteceu naquele famoso discurso de maio do ano passado, quando tomava posse depois do golpe na Câmara.

Começou a tossir e se afogar nas mesóclises da própria saliva. E reagiu com voz trêmula e fraca, como se assoprasse uma voz que não era dele:

– Acionemos de imediato e sem vacilações a Polícia Federal.

– Mas foi a Polícia Federal que levou as malas – disse o assessor.

O jaburu caiu de costas e engoliu sem querer o comprimido que sempre usa para que a voz volte ao normal.

Ninguém sabe dizer o que aconteceu depois, porque o jaburu caiu como se fosse uma mala de batatas sobre as malas que estavam no chão, e os assessores chamaram as comissárias, que acionaram mais três assessores, que entraram na cabine tropeçando nas malas…

Considerações sobre o Fator Geddel

1 – A operação que levou ao Tesouro do Geddel mostrou que a Justiça seletiva de Curitiba (e suas franquias em outros Estados) não é a única na guerra à corrupção. Um juiz determinou a apreensão do que houvesse no apartamento de um coronel baiano, e não de um político qualquer. E a Polícia Federal cumpriu a ordem sem vazamentos. Até agora, a PF mais famosa e hegemônica era a do japonês de Curitiba, que tinha até grupo de delegados tucanos no WhatsApp. A PF marcou pontos na operação Tesouro do Geddel.

2 – A prisão de Geddel muda de nível a guerra à corrupção em relação à direita. Geddel é o primeiro grande nome da máfia do golpe que vai preso depois de Eduardo Cunha. Esperavam que prendessem Aécio, Padilha ou Jucá, mas o preso é Geddel. E Geddel é o mais frágil de todos, o mais bobão, o mais vulnerável. Mas é também o que mais sabe de todos. Geddel não soube guardar as malas, mas era o prestativo da quadrilha. Esse é o perigo para o jaburu.

3 – Quem no Supremo terá coragem para mandar soltar Geddel? Gilmar Mendes, sempre ultrapassando seus próprios limites, seria capaz disso? Desta vez, com malas e tudo, será mais complicado. E se soltar, o que pode acontecer? Seria criada uma nova novela de prende-e-solta?

4 – O que Geddel sabe mesmo do Judiciário que Joesley Batista pensa que sabe? Mas Geddel vai delatar o Judiciário para o próprio Judiciário, que só quer saber de pegar Lula?

5 – Precisamos acreditar que, além de Joesley, Geddel também pode ser um delator fora do esquema de dedar apenas Lula. Desde que alguém se disponha a ouvi-lo. Curitiba já não tem o controle absoluto da Lava-Jato e não pode exercer influência sobre ações paralelas que fujam do foco curitibano do cerco a Lula. Geddel contará o que sabe até aos carcereiros.

6 – Está para acontecer o grande fato da Lava-Jato envolvendo os golpistas. Os golpistas já não estão seguros de que determinam sozinhos o roteiro de tudo. Estamos entregues ao Fator Geddel. E, para complicar, Joesley também pode ser preso.

 

E O CHEFE?

As malas de Geddel, o gordinho insuportável, segundo Renato Russo.
E dizer que Aécio quase manda matar o primo-mula por uma malinha com uns mirréis. E que o Rocha Loures levava uma malinha com R$ 500 mil para o jaburu. Isso é que é mala. E tudo bem arrumadinho.
Pelo menos Renato Russo está sendo vingado. E o chefe do gordinho? O chefe o Joesley deixou fugir.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/09/1915941-pf-encontra-bunker-em-salvador-e-vincula-a-ex-ministro-geddel.shtml