A magia do entusiasmo

ABRÃO SLAVUTSKY
Psicanalista

As palavras têm vida, e, se não movem montanhas, geram emoções, movimentos. A palavra entusiasmo, por exemplo, é alegre, a alegria de uma criança brincando, amores essenciais, conversas inesquecíveis. Entusiasmo em grego é enthousiasmós, derivado de entheos, inspirado por deus, o deus Dionísio. É o deus do teatro, da dança, da fecundidade, da natureza, do vinho. Exprime a vida poética, o êxtase da vivência, é uma aceleração criativa, essencial nas artes e na arte de viver.
Em geral as crianças vivem empolgadas, pois tudo é novidade, não querem dormir porque estão excitadas com a vida. Excitante é a história de um menino com quem fiz amizade de nome Miguilim. Ele mora no livro Corpo de baile de Guimarães Rosa e com nove anos sofria de miopia e não sabia. Vivia no sertão onde só se chegava a cavalo, e um dia chegaram em sua casa dois homens, sendo que um deles usava óculos. Este logo viu o menino apertando os olhos, pois tinha dificuldade visual. Então, tirou seus óculos e os colocou, lentamente, em Miguilim e disse para olhar e ele olhou. “Nem não podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, as caras das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão.” O menino viveu nesse momento um entusiasmo ao ver a mesma realidade com outro olhar. Passou a perceber a natureza, com outros olhos, e ficou maravilhado. Ao ler essa história fiquei impactado e voltei a ler várias vezes; buscava algo mais nesse menino que mudou sua visão de mundo.
Tardei em me dar conta de que vivi algo parecido com essa história, pois aos quatro ou cinco anos vivenciei um segundo nascimento. Foi quando comecei a falar. Uma tia me disse, há poucos anos, que eu parecia abobado, e ela tinha razão, pois na verdade vivi um certo autismo. Portanto me identifiquei com o menino míope da história, pois estive cego à realidade externa, em um mundo sem emoções e risos. Fiquei tranquilo ao ler que o psicanalista francês J. B. Pontalis também começou a falar só com quatro anos. Portanto, é possível começar a vida num filme cinzento e as cores e os risos virem depois. Daí quem sabe certo otimismo que me acompanha. Sou grato à leitura, porque ler ajuda a gente a conhecer, e aprender com os amigos escritores. Abro um livro e começo a escutar histórias de amor, morte, dor e humor.
Um coração alegre requer vacinas contra o desespero. Uma vacina seria ter sentido de humor, e assim aceitar a loucura humana, sendo capaz de sorrir com um olho e chorar com o outro. Outra vacina é formar boas parcerias que aliviam as caminhadas pelos labirintos da existência. Depois, mesmo com vacinas, ninguém vive entusiasmado, ao contrário, a vida se suporta mais do que se desfruta, e para desfrutar deve ser suportada. O entusiasmo com as artes, a beleza, existe para os que podem sentir a magia da criação. Quando se perde o entusiasmo, pode chegar a tristeza, ou mesmo um tempo depressivo.
A vida oscila entre lágrimas e risos, encontros e desencontros. Viver bem é ser grato de amar e ser amado, apesar dos infortúnios. Essa gratidão expressa a sabedoria de um coração alegre. Não é fácil conviver com as incertezas sem o delírio das certezas, e assim aos poucos diminuir o peso do passado. É quando a coragem e a sensibilidade se unem para desfrutar a liberdade do presente. Ser livre para ir em busca do desejo, é sentir a magia do entusiasmo de viver.

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