O jornalismo bombardeado na Faixa de Gaza

Em janeiro de 2013, na cobertura da tragédia da Boate Kiss em Santa Maria, reencontrei meu amigo Fernando Eichenberg, na época correspondente do Globo em Paris.

Dinho é gaúcho, fomos colegas em Zero Hora. Estava de férias em Santa Catarina quando aconteceu a tragédia. Foi convocado pelo Globo para a cobertura.

Dois meses antes, havia retornado de outro inferno. Tinha feito uma incursão à Faixa de Gaza em tempo de guerra.

Me contou como entrou em Gaza a pé, por um túnel com grades de ferro, como se andasse numa jaula, e me falou da vida aparentemente improvável numa faixa de terra controlada por Israel como um gueto.

Dinho foi à Gaza num tempo de confrontos. E conviveu com os palestinos e jornalistas (foto) que viram colegas serem mortos pelas bombas israelenses.

Lamento que seus textos de 2012 no Globo não possam ser acessados por não assinantes. São reportagens que relatam o que acontece agora de novo.

Dinho estava dentro de Gaza e sabia que, ao contrário do que muitos dizem, Israel atacava, sim, alvos civis. Atacava o prédio onde ele estava e que era ocupado por jornalistas. Matavam jornalistas.

Compartilho abaixo o texto dele sobre o relato de jornalistas sobreviventes desses ataques. E logo abaixo o link para um texto em que ele conta como se entrava e saía de Gaza, coisa que nem sempre é possível.

Dinho atua em todas as frentes e escreve para a Piauí. Muitos dos seus textos estão disponíveis para não-assinantes no site da revista. É o mais completo jornalista brasileiro na Europa há muito tempo.

O Globo – 21/11/2012
Jornalistas na Faixa de Gaza passam de espectadores a alvos

Fernando Eichenberg

CIDADE DE GAZA – A mídia local em Gaza foi alvo duas vezes de bombardeios israelenses. Os dois ocorreram na mesma madrugada, no bairro al-Rimal: à 1h30m, quatro mísseis atingiram o prédio Alshaw Hosary, deixando estragos e feridos; às 6h, foi a vez do edifício Shoroq, com uma vítima. No primeiro, as escadas ainda guardam manchas de sangue, estilhaços de vidro. Nos andares atingidos, muitos escombros. Nas salas preservadas, jornalistas continuam seu trabalho após a morte de três colegas ontem, alvo de ataques aéreos israelenses.
Com sua família morando em Rafah, Emad Aied, da Alamanav TV, dormia em seu estúdio, no quinto andar, quando a primeira explosão eclodiu, no 11º. Sua primeira reação foi fugir, mas, quando ouviu os gritos de pedido de ajuda de seus colegas, subiu para socorrê-los. Foi então que caíram o segundo, o terceiro e o quarto mísseis, e mesmo a ambulância que havia chegado foi atingida.
– É surpreendente, é a primeira vez que Israel ataca a mídia. Na primeira guerra, há quatro anos, não houve ataques diretos assim. Acredito que a nossa cobertura da guerra é indesejável, porque as mortes provocadas por seus mísseis aumentam a cada dia que passa – conta.
Emad diz ainda estar vivendo as memórias da guerra anterior.
– Especialmente depois que atingiram a minha casa. Construí uma nova, que foi também destruída. Não é algo fácil de esquecer. Isso agora traz de volta essas recordações.
Enquanto conversava, seu telefone celular tocou. Após alguns segundos, desligou e anunciou:
– Em dez minutos, ocorreram mais quatro mortes por causa dos bombardeios.
Sua esperança de um cessar-fogo imediato é inferior ao estrondo diário das explosões ecoadas pela cidade:
– Não acredito nessa negociação com o Egito. Só vou acreditar mesmo quando os bombardeios acabarem.
Ferido em um dos ataques, o repórter Shuaib Abu Jahal, 28, estava acostumado a dormir no segundo andar por causa da cobertura da guerra e percebeu colegas com ferimentos descendo pelas escadas. Na tentativa de ajudá-los, também foi atingido nas mãos e nas pernas por destroços que tombaram. Já recuperado, está de volta à reportagem.
– Os jornalistas se tornaram também alvo desta guerra. Acho que porque, com a experiência adquirida desde o último conflito, passamos a entender melhor as ações e a estratégia do Exército israelense. Mesmo em Israel há quem diga que a mídia palestina é melhor do que a israelense.
Shuaib define esta guerra como “muito esperta”, com estratégias psicológicas, sustentadas em ataques sem hora para acontecer, deixando as pessoas preparadas para morrer a qualquer momento. Pelo lado de Gaza, sua opinião sobre o Hamas é dividida:
– Sou contra os governos da Irmandade Muçulmana, e também contra este. Mas nesta guerra eu estou ao lado dele, porque Israel é contra toda a Faixa de Gaza, não apenas contra o Hamas. Discordo politicamente do Hamas, mas concordo com sua resistência. Diria que são melhores na luta do que em governar.
Seu desejo é o de uma negociação para o cessar-fogo, mas não sob qualquer condição:
– Não quero perder a nossa terra com as negociações. Mas quero a negociação. Todos queremos uma vida em paz.

https://extra.globo.com/noticias/mundo/odisseia-de-5-horas-na-fronteira-entre-faixa-de-gaza-israel-6818409.html

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