Vocação separatista

gaucho

Defendi certa vez que Rosário e Alegrete se separassem do Brasil, sem se separarem do Rio Grande, e se juntassem ao Uruguai, levando junto Santa Catarina. Foi num grupo pequeno e tive apoio imediato da maioria.

Precisei dizer que estava de brincadeira, e alguns insistiam para que se levasse a proposta a sério. Mas, brincando, brincando, o desejo separatista está muitas vezes apenas hibernando em algum canto do nosso bom senso.

Nós, meridionais, temos vocação para o melindre, a desconfiança, para a suspeita de que a ideia de República chegou aqui à força e incompleta. É uma mania de quem está nos extremos, separado, meio que apartado do resto, como os ingleses. Estamos achando sempre que somos perseguidos.

Vem daí o costume de comemorar todo ano a Revolução Farroupilha e de cantar o hino gaúcho em jogo de futebol. O hino rio-grandense deveria ser cantado lá de vez em quando, em ocasiões muito especiais, e só pelos Fagundes (sim, é como manifesto minha porção separatista).

Divago sobre separatismos porque parece complicado entender os britânicos que desejam voltar a se afastar do resto da Europa. Será que vencerão os que se acham diferentes dos que acolhem refugiados e convivem com as controvérsias do multiculturalismo e – dizem eles – suas ameaças?

Você e eu chegamos a imaginar, em alguns momentos, que o século 21 daria um passo gigantesco no sentido da integração mundial. O movimento inverso é um risco real. Diferentes poderão ser condenados cada vez mais à discriminação e, pior, à rejeição.

Não é assunto para ser tratado com candura. O racismo (e não só a questão econômica) que mobiliza muitos ingleses é o mesmo que mobilizaria vizinhos, colegas, parentes, amigos nossos num plebiscito. E quantos deles descendentes de imigrantes que chegaram aqui como restolho da Europa.

Os nossos xenófobos, nem todos separatistas, tentam negar, mas a maioria teve um ancestral que ficou na dependência de acolhimento em terras estranhas para sobreviver. Se não tivesse sido assim, esse descendente nem existiria. Mas quem consegue dizer isso a um deles?

 

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