Tudo pode acontecer nessa quarta-feira na Argentina

Javier Milei assumiu em 10 de dezembro e já foi desafiado por três manifestações de rua. Nesta quarta-feira, enfrenta a primeira tentativa de paralisação geral do país, convocada pela CGT, a Central Geral do Trabalho.

Vai dar certo? Se não der, se for uma paralisação meia-boca, como foram os três protestos de rua, o amigo de Bolsonaro ficará forte para acossar o Congresso e impor mais de 300 mudanças em leis de todas as áreas.

Se a paralisação não for capaz de impor a força dos sindicatos, Milei irá investir contra a CGT, os movimentos sociais, os grupos de esquerdas dos piqueteiros, o Congresso e o peronismo e conter qualquer possibilidade de reação de massa de curto prazo ao seu governo.

Mas, se os sindicatos pararem a Argentina, estará criado o cenário para impasses com desfechos imprevisíveis. O jornalista Eduardo van der Kooy, editor e colunista do Clarín, fez um resumo da postura impositiva de Milei em artigo em que o título é uma previsão: o personagem pode engolir o presidente.

Milei não aceita ser contrariado. Está certo de que dispõe de apoio popular para seguir em frente e reinar como imperador. E age como se fosse um influencer, e não como presidente da República, disparando até uma dúzia de tuítes por hora.

Ataca a oposição, convoca possíveis aliados para a guerra e tenta transmitir a certeza de que foi escolhido para fazer o que bem entende.

Eduardo van der Kooy diz que Milei combina intransigência e otimismo exagerados, porque pode ter sido tomado pelo personagem criado para a eleição.

Será mesmo? Será que Milei é uma figura criada para potencializar a índole fascista do economista que se diz libertário, ou será que ele é integralmente assim mesmo?

Milei é um personagem até em Davos? É uma caricatura fora de controle quando agride até a inteligência da elite do capitalismo mundial e diz que o mundo está em perigo por causa do avanço do socialismo, do poder das mulheres e das ações por justiça social?

Bolsonaro também chegou a ser visto como um tipo. Antes mesmo de ser eleito, ameaçou matar os inimigos. No governo, sonegou vacina contra a Covid e, quando as mortes se multiplicaram, disse que não era coveiro.

Cortou programas sociais, adotou atitudes imorais, foi denunciado por crimes variados, de lavagem de dinheiro à falsificação de certificado de vacinação, e debochou da Justiça – e mesmo assim quase se reelegeu.

Bolsonaro foi o que fato era no poder até o fim, para fidelizar o núcleo do que é a sua base social. Milei o copia com a dedicação de um bom aluno, reafirmando as ideias que o elegeram.

Mas há sinais de que pode ser traído pela arrogância. Pesquisa da Consultora Analogías, encomendada pelo jornal Página 12, mostra que Milei tem a aprovação de 50% da população. É um índice alto, mas logo depois de eleito era aprovado por 55,6%.

Outros números são mais desfavoráveis: 47% acham que ele tem atitudes autoritárias; 56% rejeitam a retirada de direitos trabalhistas; 48,4% não querem a privatização de estatais; 51,2% desaprovam mudanças nas áreas da cultura e da educação; 63,4% se negam a aceitar seu plano de equiparar os preços internos dos alimentos próximos da cotação internacional; e 53,3% condenam a possível dolarização da economia.

Mas como, se enfrenta forte rejeição às suas principais propostas, Milei ainda conta com apoio de 50% da população? Talvez porque seus eleitores não queiram manifestar tão cedo a desilusão com o sujeito e a confissão de que erraram.

É como se separassem as crueldades do autor das crueldades. Sentem-se constrangidos para admitir que estão empobrecendo e caíram numa armadilha?

Milei conta com essa resignação, com a cumplicidade das elites e da maioria do Congresso e com a leniência do sistema de Justiça – mesmo que algumas decisões do Judiciário o tenham contrariado –, como aconteceu no Brasil, por quatro anos, com Bolsonaro.

A quarta-feira dirá se ele seguirá em frente ou se será obrigado a recuar. Pablo Moyano, um dos líderes da CGT, disse em recado ao governo, sobre sua previsão do número de participantes da marcha até o Congresso: “Será incontrolável”.

Tudo pode acontecer nessa quarta-feira em Buenos Aires e nas grandes cidades argentinas, inclusive o começo do fim de um projeto fascista.

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