Vai um vinho aí?

A Serra gaúcha não vai gostar de reportagem de Caue Fonseca na Folha sobre possíveis abalos no turismo da região, depois dos casos de trabalho escravo contratado por vinícolas de Bento Gonçalves.

Muita gente se sente incomodada em ir à Serra, como mostra a reportagem, e ser convidada a tomar vinhos das marcas envolvidas, Garibaldi, Salton e Aurora.

O constrangimento é parecido, mas não é a mesma coisa, com o que acontece com quem acha estranho ficar numa pousada que foi charqueada com escravismo intenso, como acontece em Pelotas.

É um debate sem fim. Um lugar que teve escravos pode se transformar em ambiente de visitação, não para preservação da memória e compreensão do que aconteceu ali, mas para lazer, para comer, se entreter e dormir? Algumas charqueadas fazem festas.

Retornando à Serra, um tour na Aurora, por exemplo, em que os turistas percorrem vários locais e cenários, é feito por 44 mil pessoas por trimestre.
É o que informa a reportagem do Caue, com a observação de que não há indícios de queda no movimento depois das denúncias.

Alguém pode dizer que santuários do Peru, onde crianças eram sacrificadas pelos incas, são visitados por turistas. Sim, para que se compreenda o que acontecia ali.

Eu entrei numa gruta de sacrifícios nas ruínas de Sacsayhuaman, perto de Cusco. Fiquei diante da pedra onde as crianças eram mortas.

Logo depois, dá um arrependimento de ter entrado ali. Mas a vida não é feita só de experiências lúdicas. É uma informação importante para que se reflita sobre o significado daquilo em sua época.

Mas alguém faria uma festa ou dormiria, como turista, ao lado de uma gruta de pedras onde aconteciam os sacrifícios?

Sim, não é a mesma coisa do que acontece em outros lugares, como não é igual a uma visita a Auschwitz. Mas os sentimentos podem ser os mesmos de estranhamento e repulsa.

Mas e outros produtos resultantes de trabalho escravo? Pois é. São as muitas graduações possíveis da rejeição a lugares, bebidas e comidas, ou não.

O que a reportagem pergunta, também a partir de conversas com turistas, é: não há nenhum desconforto em ir à Serra hoje e beber vinho? A resposta é: há.

Mas parece que está passando, para que a região toda não seja punida para sempre pelos que desrespeitaram sua história.

One thought on “Vai um vinho aí?

  1. Entendo completamente o que tu quis dizer sobre a gruta dos sacríficios de crianças. Eu não fui a Auschwitz, que era campo de extermínio, mas estive num campo de concentração perto da linha Maginot e visitei alguns bunkers de guerra, de ferro fundido onde se conseguia ver as marcas de bala, algumas perfurando a couraça espessa de ferro. Sai dali diferente do que quando entrei. Não quero mais estar nestes locais nem visitando e muito menos querendo comer ou dormir nos arredores deles. e olha que me considero um cara bem aberto a experimentar culturas diferentes, pelo menos na gastronomia. já comi cobras, cachorros e insetos na China, larvas cozidas em folhas com índios perto do morro da Borússia, bundas de saúva torradas e salgadas da Colômbia e por ai vai. mas não voltaria a um local de guerra e muito menos comeria uma pessoa como alguns índios canibais ainda costumam fazer. Aliás, este último acho que ninguém que valha a pena ter uma vida, comeria. Acho que nem em caso de necessidade como ocorreu nos Andes – mas não critico quem comeu uma pessoa morta para poder sobreviver.

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