A EXTREMA DIREITA COME A DIREITA

A direita uruguaia tem o modelo brasileiro à disposição para montar seu projeto de governo. Mas o blanco Lacalle Pou, se confirmado como vencedor (o que parece irreversível), terá de compartilhar o poder com o partido de extrema direita Cabildo Abierto, liderado pelo general Guido Manini Ríos (à esquerda na foto).
Pois vejam quais são os dois ministérios que ele terá de ceder ao pessoal do general, segundo o jornal El País: Saúde Pública e Ordenamento Territorial e Meio Ambiente.
A extrema direita uruguaia cuidará do SUS deles e das complexas questões referentes à ocupação do solo, ambiente, rios, florestas. É tudo o que eles querem. Precarizar e privatizar a saúde e entregar os espaços urbanos e rurais à especulação urbana e rural descontrolada, como acontece aqui.
A questão é saber como os militares liderados pelo general reaça irão se comportar no poder, depois de 15 anos de Frente Ampla. O fraco Lacalle Pou depende dos votos deles no Congresso para governar. É provável que a extrema direita assuma, sem sutilezas, o controle do Uruguai.
O fascismo avança por toda parte. Também na Bolívia a extrema direita se prepara para comer a direita. Luis Fernando Camacho, El Macho (à direita), líder do golpe, chefe do tal movimento cívico, anunciou hoje que será candidato a presidente.
O ex-presidente Carlos Mesa, da direita moderada, derrotado por Evo Morales nas eleições, terá de dividir espaço com o extremista.
Com dois candidatos fortes, a direita pode ir dividida para a eleição que deve acontecer logo, se El Macho não cumprir o que vem ameaçando: tirar Mesa do caminho e se transformar, como candidato único do reacionarismo, no Bolsonaro boliviano.

O URUGUAI EM SUSPENSE

Ninguém respira no Uruguai, porque ninguém sabe quem venceu. Mas é preciso admitir que hoje a realidade é essa, pelo que mostram os números: depois de 15 anos, a Frente Ampla de Tabaré e Mujica pode deixar o poder e ser oposição.
Se Daniel Martínez for derrotado por Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, a velha direita dos blancos, muda tudo, ou quase tudo.
É do jogo. Mas os uruguaios fazem perguntas básicas: é possível que a direita respeite os avanços democráticos e a base das conquistas sociais dessa década e meia?
A outra pergunta: que poder terão os militares num governo de direita e considerando que um general reformado, o ultradireitista Guido Manini Ríos, teve 11% dos votos no primeiro turno e apoiou Lacalle Pou?
(Sempre lembrando que Guido Manini Ríos, eleito senador, foi chefe do Exército do governo da Frente Ampla de 2015 até o início desde ano. Em setembro, o militar andou visitando gente da extrema direita no Brasil e conversou até com o vice Hamilton Mourão. Foi ele quem liderou, às vésperas do segundo turno, uma série de ataques às Frente Ampla, com o uso de mensagens pelo WhatsApp.)

À espera do milagre no Uruguai

Primeira pesquisa para o segundo turno no Uruguai, que acontece dia 24 de novembro.
Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, tem 47% das intenções de voto, e Daniel Martínez, da Frente Ampla, está com 42%.
Há apenas 6% de indecisos e 5% votariam em branco ou anulariam o voto.
Martínez está melhor em Montevidéu (48% a 41% de Lacalle) e o candidato blanco vence no interior (52% a 37%).
A direita conseguiu o que era previsto: saiu na frente para o segundo turno, porque obteve apoios da centro-esquerda de Ernesto Talvi, do Partido Colorado (inimigo histórico dos blancos), e da extrema direita do general reformado Guido Maníni Rios (Cabildo Aberto).
Agora, é torcer à distância pela virada.