O FOTÓGRAFO

Teve um tempo no jornalismo, e foi um longo tempo, em que uma boa pauta de estrada só era levada adiante por uma dupla. Era preciso ter um repórter e um fotógrafo.
Não havia uma reportagem clássica sem a dupla. Algumas duplas foram quase permanentes e sobreviveram até o cansaço ou até o desenlace de uma briga incontornável.
Eu mesmo formei dupla com nomes que admiro muito. Vou citar apenas um nome, e que nome, porque hoje tentei fazer uma lista e sempre esquecia alguém.
Muitas vezes, o fotógrafo era, e continua sendo, quem orientava a reportagem, mesmo que o repórter seja, por alguma norma não escrita, quem geralmente conduz a pauta.
Nas guerras, muitos deles sobreviviam sozinhos, sem um repórter amigo ao lado, e dormiam, quando conseguiam, sem ter com quem compartilhar seus pesadelos. O repórter de guerra é o fotógrafo.
Por causa das faculdades de comunicação, em algum momento passaram a chamar o fotógrafo de jornal de repórter fotográfico. Não precisava. O fotógrafo não precisa ser chamado de repórter para só assim ser repórter. É fotógrafo e basta.
Hoje é o dia deles, de todos eles, e não só os do jornalismo.
Pois as duplas estão desaparecendo nos jornais, principalmente nas grandes redações, porque agora um repórter faz quase tudo, fotografando e filmando. Na TV também começa a ser assim.
É o mundo em evolução e não há o que fazer, até porque as corporações alegam que precisam reduzir custos.
Registre-se que há grandes repórteres também talentosos como fotógrafo e vice-versa, e aí está o consolo da tarefa dupla. Esse aí na foto, o Kadão Chaves, é o maior de todos eles.

Kadão

kadão

Aprendi e me diverti muito com meu amigo Ricardo Chaves, o Kadão. Tudo o que fiz na Zero Hora em parceria com esse grande fotógrafo foi aqui por perto, coisinhas paroquiais, pequenas, miúdas, do mais singelo varejo do jornalismo. E Kadão parecia sempre, pela dedicação, estar cobrindo a Revolução Russa.

Numa dessas, eu fui o fotógrafo e fiz uma foto que o Kadão nunca irá publicar. Há muito tempo, fazíamos um perfil do Lutzenberger no Rincão Gaia, e Lutz disse que tomava banho pelado no lago que se formou onde existia uma pedreira.

Fazia um calorão. Nós três derretendo, sentados no trapiche do lago, e Lutz repetindo: o bom mesmo aqui é tomar banho pelado.

Kadão me olhou com um olhar sapeca de quem tinha 13 anos e  perguntou ao Lutz com a voz de quem tinha 10, como se pedisse autorização:

– Pelado?

– Sim, todo mundo – disse Lutz.

Kadão ergueu-se saltitante, tirou a roupa e mergulhou no lago. Eu fui até a bolsa dele e peguei a máquina. Comecei a fotografar tudo, até a saída do lago. Fotografei Kadão pelado, enquanto Lutz ria um riso contido, sufocado pela falta de ar que iria matá-lo alguns meses depois.

Pois esse Kadão fantástico, capaz de entender a senha dada por um gênio como Lutz (que estava dizendo: vai, te joga no lago, aproveita) lança hoje A força do Tempo, o livro com suas fotos, produzido pela Quati Produções Editoriais, com selo da Editora Libreto. A obra tem as mãos de dois profissionais que respeitamos, o Pedro Haase e a Clô Barcelos.

Será hoje, para convidados, às 19h30min, no Átrio do Centro Histórico-Cultural da Santa Casa. Dia 9 de novembro, Kadão, que cobriu tudo na vida, lança o livro na Feira.